Crítica | Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars

Os elfos foram longe demais!

Meu interesse em concurso de talentos está no mesmo patamar de minha vontade de fazer tratamento de canal e, portanto, até deparar-me com Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars, novo filme em que Will Ferrell vive um de seus personagens bizarros que dão vergonha alheia a cada minuto de projeção, eu nunca sequer tinha ouvido falar do tal festival do título que acontece religiosamente todo ano (menos 2020 em razão da pandemia) desde 1956 e que coloca os países europeus – e a Austrália(!!!) desde 2015 – em uma competição musical ferrenha que é uma espécie de ritual. Mas, mesmo com minha completa ignorância, o longa é de uma doçura muito simpática, ainda que não realize todo seu potencial.

O que logo chama atenção é que, mesmo que Ferrell se esforce no papel de Lars Erickssong, seu mais novo personagem histriônico, egocêntrico e bobalhão, o ator não consegue chamar tanta atenção como Rachel McAdams vivendo sua parceira Sigrit Ericksdóttir que forma o dueto musical islandês Fire Saga, que toma conta de cada fotograma em que aparece, inclusive aqueles em que divide o tempo com Ferrell. Aliás, diria que Ferrell não consegue sequer ser o segundo personagem mais interessante, já que o cantor russo Alexander Lemtov, de Dan Stevens, favorito a ganhar o Eurovision, reúne com muito mais eficiência o tipo de sátira exagerada e timing cômico que o suposto astro deveria comandar. Por outro lado, é até interessante ver a humildade do roteiro co-escrito por Ferrell em de certa forma reconhecer isso, fazendo com que seu próprio Lars tenha um papel que sabe “encolher” quando necessário.

Na história, a dupla Lars e Sigrit, que forma o já mencionado Fire Saga, dueto que vive de fazer apresentações esparsas no aparentemente único restaurante da cidadezinha pesqueira de Húsavík, na Islândia, deseja mais do que tudo participar da competição europeia e o destino, então, acaba fazendo com que isso aconteça, apesar da reprovação de Erick (Pierce Brosnan, como um hilário rabugento), pai de Lars que duvida do filho e de todo o desdém da comissão islandesa que acaba não tendo opção que não inscrevê-la. Como dois completos inocentes entrando em um mundo cheio de luzes, purpurina e produções exageradas, os protagonistas passam a ter que lutar a cada passo para mostrar que são mais do que apenas motivos de piada.

Há, sem dúvida alguma, enorme coração nessa história, com o roteiro de Ferrell e Andrew Steele sabendo tocar as cordas corretas para unir comédia e emoção em partes razoavelmente iguais, com a direção de David Dobkin – egresso dos videoclipes, mas que também já dirigira longas como O Juiz – sabendo usar muito bem toda a inocência e deslumbramento que McAdams imprime tão bem em sua personagem, talvez a personificação de todo o espírito da obra. Além disso, o lado musical da produção é muito bom, com músicas originais que realmente funcionam como a hilária “Lion of Love”, de Lemtov (cantada por Erik Mjönes), além de “Volcano Man” e, claro, “Húsavík”, de Lars e Sigrit (Ferrell usa sua própria voz, enquanto McAdams teve a sua fundida com a de Molly Sandén, com excelente resultado). Até mesmo “Jaja Ding Dong”, a música favorita dos habitantes da cidadezinha islandesa e que poderia muito bem ter vindo do repertório dos Mamonas Assassinas, diverte muito o espectador.

No entanto, falta mais coragem no humor, o que acaba tornando o filme talvez um pouco aguado, por assim dizer. Ainda que Ferrell constantemente brinque com a consanguinidade islandesa (“ela provavelmente não é minha irmã”) e o festival em si seja indiretamente cutucado por seu histrionismo, percebe-se muito claramente que tanto o governo islandês quanto a organização do Eurovision tiveram dedo na aprovação da história, fazendo com que as piadas acabassem mais domadas e infantilizadas. Isso é particularmente notável em relação ao festival, provavelmente uma escolha acertada diante da necessidade de se vender ao público europeu que poderia ficar ofendido com alfinetadas sobre a breguice nível 11 do evento, mas certamente algo que sacrificou a corrosividade das piadas que, em filmes como O Âncora: A Lenda de Ron BurgundyRicky Bobby, a Toda Velocidade, arriscou muito mais, com muito mais efetividade.

E a consequência direta dessa pegada mais suave é que a duração da fita simplesmente não se justifica. Mesmo que os números musicais ocupem seu devido espaço – e o melhor é o que acontece no castelo escocês de Lemtov -, são sensíveis as barrigas narrativas em que o marasmo predomina, com sequências alongadas sem muito vigor e sem oferecer elementos que contribuam para a história. Uma dessas barrigas está nos momentos pré-clímax em que Lars volta para Húsavík sozinho, com o diretor empregando tempo demais para o drama do personagem de Ferrell que parece ter como único objetivo um momento literalmente mágico sem dúvida engraçado, mas que acaba quebrando a fluência narrativa.

Mas Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars (ô título longo!!!), no final das contas, consegue encantar e envolver o espectador que gostar desse tipo de comédia que caracteriza muito claramente a carreira de Ferrell. Com Rachel McAdamas brilhando e Dan Stevens correndo atrás com muito magnetismo, além de contar com números musicais muito bons, o filme entrega diversão e humor em boas doses que até nos fazem relevar um pouco os momentos parados e a duração avantajada. Dá até para um certo crítico que nunca tinha ouvido falar em Eurovision entender a fascinação que algo assim possa ter…

Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars (Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga, EUA – 26 de junho de 2020)
Direção: David Dobkin
Roteiro: Will Ferrell, Andrew Steele
Elenco: Will Ferrell, Rachel McAdams, Pierce Brosnan, Dan Stevens, Melissanthi Mahut, Demi Lovato, Graham Norton, Ólafur Darri Ólafsson, Björn Hlynur Haraldsson, Nína Dögg Filippusdóttir, Jóhannes Haukur Jóhannesson, William Lee Adams, Elin Petersdottir, Jon Kortajarena, Netta Barzilai, Alexander Rybak, Jessy Matador, Elina Nechayeva
Duração: 123 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.