Crítica | “Fetch the Bolt Cutters” – Fiona Apple

Quem é essa Fiona Apple? – é a pergunta que nessa sexta-feira fez eco e perturbou o feed das redes sociais, à medida que o novo lançamento da cantora, Fetch The Bolt Cutters, inundava os portais de crítica musical e recebia uma surpreendente quantidade de resenhas positivas, com um entusiasmo igualmente surpreendente. Essa boa nova é o quinto álbum de estúdio da artista americana – dessa Fiona Apple. Não apenas da, mas dessa Fiona Apple – pronome que indica o receio por parte de quem recebe, com estranhamento, a esquisita e diferentona peça de cinquenta em um minutos concebida pela cantora nos últimos oito anos. Sim, faz oito anos ou um pouco menos desde o lançamento de The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do. Pronto, respira.

Por mais que pareça incomum, o cenário em 2012 não era muito diferente. O intervalo entre The Idler Wheel e o anterior álbum de Fiona, Extraordinary Machine, também não era nada usual. Eram sete anos, apenas um a menos do que agora, desde que a artista fizera uma aparição musical significativa. E por mais que, como agora fica claro, Fiona demore o equivalente à produção de O Iluminado para lançar um álbum novo, a recepção para suas músicas, tanto pela crítica quanto pelo público, não tarda em ganhar proporções gigantescas. Ainda que tenha sido lançado bem cedo naquela década, The Idler Wheel estabeleceu-se com um dos principais marcos da música nos anos 2010. No tenebroso alvorecer da nova década, contudo, o estilo de Apple parece levantar a questão: quem é essa nova-iorquina metida a Björk e porque estão dando tanto palco pra ela?

Fetch The Bolt Cutters é um épico sinfônico, louco e empolgante, que apresenta aos poucos o que sua artista preservou e o que nela mudou na forma de compor canções. A primeira música logo revela o que precisamos saber pra decidir se desistimos ou se prosseguimos – os problemas de relacionamento ressurgem, como há oito anos, sob o ornamento das fantásticas explosões melódicas e harmônicas; seu piano e sua voz formam uma espécie de dupla perversa e descontrolada, imprevisível, perigosa e histriônica que pode te atacar a qualquer momento; a cada instante, refrão vira verso, e vice e versa: Fiona toma conta dessa narrativa incoerente com acessos de gemidos, latidos de cachorro e instrumentos de percussão tão inusitados como esteticamente eficientes.

O álbum é intenso, imparável e, concomitantemente, bastante autoconsciente sobre quando e como fazer aquilo que é encenado. Na canção Relay, quando não está repetindo um de seus refrões mais reiterados, Fiona irrompe com linhas nervosas a respeito de ressentimento, contempladas com um acompanhamento igualmente irrequieto por parte de sua bateria – no final subversivo da música, no entanto, sua voz se apresenta desnuda, nada performática, como que declamando uma poesia nostálgica. Um momento de incrível sensibilidade em meio ao frenesi predominante da ópera, ainda que não sejam tão raros os momentos em que Apple deixa de lado sua variada amplitude instrumental e resolve se dirigir a nós como uma interlocutora mais sóbria.

E sua sensibilidade não se reserva a esses momentos. Muitas vezes a versatilidade lírica do disco aparece sobre a forma de gritos, irrupções, elevações e sobreposições vocais – idiossincrasias que apenas um resenhista pouco perceptivo taxaria como excentricidades despropositadas. Veja o que acontece na canção For Her, em que a injunção You raped me in the same bed your duaghter was born in é precedida por um dos maiores picos de percussão dentro do álbum. É uma miríade de recursos disponíveis que a compositora trata com muita esperteza, colocando em diálogo texto e música, jogando a gente de um lado por outro como se tivesse brincando de boneco. Aliás, é assim que, por escrever sobre assuntos tão pessoais e por conceber uma estética tão intimista, deixando seus cachorros latirem à vontade, que Fiona parece fazer música com as mãos nas costas – como se num momento de tédio lhe ocorresse a ideia de compor um álbum, sem mesmo sair de seu apartamento.

É até isso que revelam os bastidores da composição de Fetch The Bolt Cutters, trazidas à tona pela série de entrevistas veiculadas nessa semana para divulgar o novo song book da cantora. Sua personalidade é única, e é virtualmente impossível ouvir Fiona em uma entrevista e não associa-la imediatamente ao que está posto em suas letras e melodias: sua identidade marcante que pode afastar tanta gente assustada, pega de surpresa. Essa encantadora despretensão irônica encontra a maior expressão na própria capa do disco, uma colagem infantil e em cujo centro ocupa uma selfie dela fazendo careta – uma foto que eu mandaria pra um amigo próximo, dizendo: Buuuu, vem ouvir meu novo álbum.

Fetch The Bolt Cutters
Artista:
Fiona Apple
País: EUA
Lançamento: 17 de abril de 2020
Gravadora: Epic Records, Sony Music Entertainment
Estilo: Art pop, Pop-Rock, Alternativo, Art Rock

PEDRO PINHO . . . Estudante corrente da Universidade de Brasília e chato o suficiente pra escrever besteira sobre um monte de coisa. Estranho falar sobre si mesmo na terceira pessoa, né? Pois é. Se você achou que eu falei muita merda, saiba que eu não me importo (mentira, comenta aí e bora conversar).