Crítica | Fevereiros

O Brasil é um país de grandes talentos, em especial, no campo da música. Somos nós os detentores de grandes nomes, tais como os compositores Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Temos também as intérpretes Gal Costa e Marisa Monte. Exportamos a Bossa Nova e ficamos conhecidos por contribuir com a onda cultural dos anos 1960, movimento que ganhou grande repercussão no mundo ocidental, por meio do Tropicalismo. Diante deste cenário de riqueza cultural, não podemos deixar de citar Maria Bethânia, de longe a melhor intérprete musical brasileira com carreira ativa.

A sua contribuição adentrou pelos arquivos da história brasileira após a sua ida para o Rio de Janeiro em 1965. Nascida em Santo Amaro, em 1946, Maria Bethânia ganhou projeção depois de substituir Nara Leão no espetáculo Opinião, numa era prévia aos “anos de chumbo”. A RCA se deixou encantar por seu talento e fechou contrato para seu álbum de estreia. Conhecida como a Abelha Rainha da MPB, a cantora passou também pela BMG e Universal, sendo hoje parte do grupo “Biscoito Fino”, seleta gravadora fundada pela empresária Kati de Almeida Braga e pela diretora artística Olivia Hime.

Sua voz inconfundível tem um tom baixo e pesado. Com tessitura grave e timbre robusto e vigoroso, características que podem defini-la como “contralto” no que tange aos meandros do alcance vocal. Em 2005, a artista foi tema do de Música é Perfume, documentário de George Gachot, um olhar externo para o trabalho de Maria Bethânia. A produção atravessa a sua vida e, ao mesmo tempo, as transformações sociais no Brasil, por meio de paralelos interessantes. Em 2006, o cineasta Andrucha Waddington lançou Pedrinha de Aruanda, documentário sobre os 60 anos da intérprete, com presença de Dona Canô e Caetano Veloso, captação relativamente intimista da artista em Santo Amaro, junto aos seus amigos e familiares.

No mais atual retrato de Maria Bethânia numa perspectiva cinematográfica, o foco é o registro da musa como a homenageada pela Escola de Samba Mangueira, no carnaval de 2016. Com direção de Márcio Debellian, também responsável pelo roteiro, assinado em parceria com Diana Vasconcellos, Fevereiros segue uma linha diferente da maioria dos documentários sobre ícones da MPB, um segmento que talvez possa ser considerado um subgênero na seara dos filmes brasileiros, fenômeno demarcado pelo boom destas narrativas ancoradas na memória há mais ou menos duas décadas. Debellian e Vasconcellos interpretam Bethânia, e, concomitantemente, o sincretismo religioso brasileiro.

Em meio aos tons de rosa e verde, o público acompanha a “crítica genética” do espetáculo que foi o desfile ao longo da “avenida” Marquês de Sapucaí. Destacada por pessoas que fazem parte do seu ciclo mais íntimo, o documentário radiografa a sua devoção pela Mangueira, a sua iniciação nos rituais do candomblé, em 1981, bem como o respeito e as ressonâncias do catolicismo em sua vida. Carismática, sorridente e despida de qualquer faceta de soberba/arrogância que às vezes toma posse de sua persona no bojo dos belos espetáculos desempenhados nos palcos, o que conferimos é uma artista num momento de intimidade, leve e descontraída. Com destreza e segurança, Maria Bethânia versa sobre música, religião e dados históricos que se complementam com os demais sábios depoimentos dos convidados.

Entre Santo Amaro e o Rio de Janeiro, Fevereiros trafega pelos festejos religiosos, mesclando o sagrado e o profano destas manifestações culturais demarcadas pelo sincretismo, algo que falaremos mais detidamente, de maneira problematizadora, mais adiante. Ao radiografar o processo histórico do legado africano na Bahia, o documentário versa sobre a região que conhecemos por Recôncavo Baiano, espaço geográfico representado por cidades como Amargosa, Castro Alves, Cruz das Almas, Santo Antonio de Jesus, Salinas das Margaridas, São Félix, etc.

Trazidos para o trabalho escravo durante o auge da cana-de-açúcar, os membros da diáspora forçada deram para Santo Amaro o seu alto grau de ancestralidade africana, local conhecido também por ser berço do samba de roda, gênero musical proclamado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 2005. Santo Amaro é também espaço para a famosa Igreja de Nossa Senhora da Purificação, construída ao longo de mais de um século, historicamente importante por seus painéis de azulejos azuis portugueses e sua pintura ilusionista italiana. Devidamente captado pela direção de fotografia, o espaço sedia a Novena de Dona Canô, evento que ocorre sempre entre 24 de janeiro e 02 de fevereiro, motivo para Maria Bethânia nunca ter ido aos festejos de Iemanjá e do Bonfim, festas populares do período.

Terra da educadora Amélia Rodrigues, do compositor Assis Valente, da percursionista baiana Edith do Prato, do capoeirista Besouro, dentre outros ilustres representantes, Santo Amaro é o território de Maria Bethânia, artista tratada com peculiaridade pelos produtores do documentário, produção que acerta ao gravitar em torno da artista sem delongas e bajulações desnecessárias. Cabe ressaltar, as digressões de cunho histórico são importantes para nos ajudar na compreensão da estrutura macroscópica do filme.

Desta maneira, não é difícil compreender os motivos que fazem de Fevereiros um documentário cheio de vigor. Abandona as especificidades do modelo tradicional com seus relatos de experiência para mostrar, por meio de belas imagens, o que é afirmado no discurso da intérprete e dos demais interlocutores. Além de assinar o roteiro, Diana Vasconcellos assumiu a edição, um sofisticado exercício de seleção de imagens que resultou numa produção tal como o carnaval, a Mangueira e Maria Bethânia: algo cheio de ritmo e vigor.

Sem muitos depoimentos para afirmar a exuberância da artista, algo que nós somos devidamente cientes, o documentário evita a dispersão e foca nos depoimentos de Mabel Velloso (irmã), Caetano Veloso (na figura de irmão, de personalidade da música e de um dos mentores da cantora), Chico Buarque (tratado como uma referência pela artista), Pai Gilson e Pai Pote (expoentes do candomblé em Santo Amaro), Leandro Vieira (figurinista e responsável pelo design do desfile da Mangueira em 2016), Squel Jorgea (porta-bandeira da escola de samba) e Luiz Antonio Simas (depoente que presta o bom serviço de legitimador do discurso histórico, algo necessário num documentário que trabalha constantemente em torno da memória).

Outro elemento de destaque é o trabalho desenvolvido por Miguel Vassy e Pedro Von Kruger, a dupla responsável pela direção de fotografia. Ao longo dos 73 minutos, a produção traz enquadramentos corretos nas entrevistas, tudo dentro dos manuais de cinema, vez ou outra cometendo ousadias, seja por atravessar um corredor estreito ou apostar na câmera da mão num pequeno trecho. O uso de imagens aéreas, captadas graças aos avanços tecnológicos, isto é, os drones, faz o espectador adentrar no clima de Santo Amaro, haja vista a cidade apresentada numa perspectiva ampla, vista constantemente entre o distanciamento e a aproximação.

Por falar em “História”, as imagens de arquivo também ajudam a compor o material, o que engrossa o caldo memorialístico do documentário. Destaque para pequenos excertos da lendária turnê Doces Bárbaros e de Quando o Carnaval Chegar, do cineasta Cacá Diegues. Todos os elementos citados tornam Fevereiros um documentário que traz frescor estético para os filmes sobre personagens importantes da MPB, além de ser uma análise sociológica bem conduzida quase em sua totalidade, ao lidar com um tema tão denso, problemático e constantemente contraditório: o sincretismo religioso.

Há dois pontos que tornam a produção “problemática”. Uma mais contornável, isto é, a questão do sincretismo como um processo dinâmico, complexo de ser interpretado dentro de um feixe exclusivo de reflexões. O outro ponto é a abordagem do dia 13 de maio por Caetano Veloso, numa de suas falas ao longo do documentário. Vamos ao primeiro tópico. O processo de mistura de elementos de diferentes credos numa mesma prática cultural. Historicamente, Grécia, Roma e até mesmo na Idade Média, na era das perseguições aos hereges, momentaneamente, a Igreja Católica dialogou e fez alianças com interpretações que divergiam da religião cristã. O próprio cristianismo não é sincrético, ao apropriar-se de elementos celtas, judaicos, nórdicos, egípcios, etc.?

O problema, creio, seja a questão da “horizontalização” desse processo sincrético, algo que mesmo sendo dinâmico e inevitável na seara da globalização, às vezes apaga determinadas fronteiras entre uma coisa e outra, sublimando determinados pontos em detrimento de outros, algo perigoso. Isso foi assunto na saída da sessão, pois por mais que estivéssemos inebriados com o contagiante charme de Maria Bethânia no luminoso desfile da Mangueira, o senso crítico nos chama a todo instante, principalmente depois da polêmica acerca do destino final de Mãe Stella, tensão religiosa que levantou debates fervorosos sobre os perigos do sincretismo religioso, apesar de que para muitos, o escoamento da miscigenação no bojo da religião seja algo que represente resistência. Não considero uma reflexão amarrada, uma verdade, mas algo que requer uma postura muito crítica.

No caso do dia 13 de maio, não compreendi os motivos que levaram Caetano Veloso a questionar a ausência de comemorações para a data, quando sabemos que as consequências severas sofridas pela população negra abolida formalmente, mas sem ajuda alguma do Estado ou da Igreja no processo de reconstrução da tessitura de suas respectivas existências. Sem as oportunidades equiparadas, injusto pensar na Princesa Isabel como a salvadora dos negros, tal como o artista coloca em seu depoimento que deveria ter sido extraído da edição final, tamanho o equívoco. Com expressão inconformada, Veloso questiona e diz que acha uma pena o Brasil não comemorar uma data tão linda. Uma fala, no mínimo, questionável, mas que não consegue desnivelar a qualidade do documentário, tampouco das demais falas de Caetano, bem humoradas e pontuais.

Ademais, Fevereiros é a senha de entrada para os interessados em compreender as contradições da formação do povo e da cultura brasileira, ou seja, como nas palavras de Roberto Da Matta, um documentário para entender “o que faz do Brasil, Brasil”.

Fevereiros (Brasil, 2019)
Direção: Márcio Debellian
Roteiro: Márcio Debellian, Diana Vasconcellos
Elenco: Maria Bethânia, Caetano Veloso, Mabel Veloso, Chico Buarque, Márcio Debellian, Leandro Viana, Luiz Antonio Simas, Pai Pote, Pai Gilson, Squel Jorgea
Duração: 73 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.