Crítica | Filho Único (1936)

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Primeiro filme falado de Yasujiro Ozu (o que explica os já esperados problemas de sincronização do som), Filho Único (1936) é um olhar realista para o sacrifício na criação dos filhos. A obra se semelhança à questão familiar em um ambiente social de pobreza ou miséria, mostrados pelo cineasta pouco tempo antes, em Uma Estalagem em Tóquio. Aqui, a problemática é vista sob uma perspectiva mais madura, mais bem acabada, narrando a vida de uma mãe solteira, operária em uma fábrica de seda, que faz o impossível para dar ao filho a oportunidade de acabar os estudos, dizendo que ele seria alguém importante, que lhe daria bastante orgulho na vida.

A temática estudantil sempre foi muito cara a Ozu. Deste o seu mais antigo filme sobrevivente, Dias de Juventude (1929) até o presente longa de 1936, o diretor procurou colocar a Universidade ou a escola básica em suas obras, sempre com esse olhar inicialmente otimista que aos poucos encontra-se com a realidade. No cinema de Ozu, essas mudanças aparecem ligadas ao amadurecimento dos personagens, à dificuldade de se conseguir emprego e às consequentes dificuldades financeiras. É um cinema que, em diversas ocasiões, olha para os trabalhadores, para os estudantes, para a gente humilde das vilas e cidades japonesas e imagina como essas pessoas lidam com os seus problemas e olham para o futuro. Em Filho Único, vemos o cotidiano e os dilemas em torno disso trabalhados de uma maneira exemplar.

Shin’ichi Himori, que interpreta o filho em fase adulta, vive em um conflito angustiante. Sua ida para Tóquio, para completar os estudos, não o colocou no patamar que ele imaginava que colocaria. Então vieram o casamento e o nascimento do filho para integrar a sua lista de responsabilidades imediatas, dificultando a perseguição de sonhos maiores, ao menos em curto prazo. Diante desta situação é que acontece a visita de sua mãe à cidade, e com ela, o constrangimento do filho ao apresentar seu status social para a velha (Chôko Iida), que ele imagina envergonhar.

Há algo a ser refletido aqui. Toda vez que falamos de “sucesso” e usamos o termo “vencer na vida” a gente imagina isso ligado ao dinheiro, às posses e coisas afins. O fato, porém, é que essas duas coisas não têm o mesmo significado para todos, e nós vemos um pouco disso aqui em Filho Único, tanto no diálogo da mãe de Ryosuke com uma colega de trabalho, na cena final do filme (e eu não acho que era apenas um subterfúgio dela para enganar a colega) quanto na forma como o cotidiano da família de Ryosuke é construído. O orgulho da mãe é genuíno quando ela fala do dinheiro que o filho deu à vizinha, a fim de que cuidasse do pequeno que levou um coice de um cavalo.

O senso comunitário, a caridade, o altruísmo e a entrega que alguns personagens de Ozu trazem para suas vidas (exemplos disso, nos anos 30, temos em obras como Onde Estão os Sonhos de Juventude?Uma História de Ervas Flutuantes) serve para reforçar a profunda simplicidade da história e da estética do diretor, aqui já claramente reconhecível. A elegância da câmera baixa e a atenção aos pequenos detalhes das casas são coisas que não passam batido pelo público e que certamente elevam o filme ao patamar lírico que normalmente atribuímos ao diretor. As coisas, em nossa vida, nem sempre saem da forma que a gente imaginou. Em Filho Único, esta máxima é colocada em cena para mostrar o futuro de um filho, observado pela mãe, na velhice.

Filho Único (Hitori musuko, 1936)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Tadao Ikeda, Masao Arata
Elenco: Chôko Iida, Shin’ichi Himori, Masao Hayama, Yoshiko Tsubouchi, Mitsuko Yoshikawa, Chishû Ryû, Tomoko Naniwa, Kiyoshi Aono, Jun Yokoyama, Eiko Takamatsu, Seiichi Katô, Tomio Aoki
Duração: 87 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.