Crítica | Filhos da Esperança

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Inglaterra, 2027. Guerras entre governo e cidadãos revoltosos são uma constante. A força policial e militar parece exercer poder tremendo sobre a população. Imigrantes são estritamente proibidos; se capturados, são enjaulados feito animais. As mídias em geral – sejam televisões, outdoors ou jornais impressos – se encontram em diversos lugares, repassando informações para tentar manter um governo controlador e ilusório. A sujeira e o desgaste da Londres concebida, bem como dos ambientes que a compõe, refletem a própria desilusão daquela sociedade – cuja, diga-se de passagem, é assolada por diversos males, destacando-se a infertilidade, de tal maneira que a pessoa mais jovem viva possui nada menos do que 18 anos. E não para por aí. Afinal, todas essas informações podem ser extraídas apenas nos primeiros 15 minutos deste Filhos da Esperança, filme do mexicano Alfonso Cuarón com uma complexidade visual e temática invejável.

O roteiro, que foi escrito pelo próprio Cuarón ao lado de seus quatro colegas e inspirado no romance de P.D. James, acompanha a trajetória de Theo Faron (Clive Owen) a partir da morte do já mencionado cidadão mais jovem do planeta, cuja cria um impacto gigantesco em uma sociedade já descrente o suficiente em toda sua existência. Theo é um sujeito consciente da situação que o mundo em que vive se encontra; porém, ele escolhe por permanecer alheio a isso. Sua rotina se resume a ir e voltar para o trabalho de metrô, e aqui e ali, fazer visitas a seu animado amigo Jasper (Michael Caine), com o qual discute as problemáticas sociais e seus possíveis reparos, mas sem nunca agir em prol disso.

Concebido inicialmente por Clive Owen com um cinismo ácido e certo cansaço no olhar, a trajetória emocional (e geográfica) do protagonista nunca deixa de ser o cerne da película. Toda a transição do personagem de sujeito passivo para ativo naquele universo é palpável, de tal forma que sua ignorância inicial vai sendo gradualmente substituída por sua determinação e coragem – uma transformação possível graças a ótima composição de Owen, que partindo do egoísmo total ainda consegue conquistar a empatia do espectador graças a suas ações e escolhas. Assim, nesse processo, cabe ainda ao roteiro e ao trabalho de Owen nos revelar a faceta amargurada de Theo, o que o transforma, portanto, em um figura cada vez mais trágica à medida que vamos descobrindo seus traumas.

Mas as ótimas atuações não se limitam ao protagonista. Nesse sentido, todo o elenco secundário está eficaz, donde destaco o breve porém ótimo papel de Peter Mullan como o militar Syd, cuja faceta violenta é mascarada por sua ironia, e também a interpretação de Clare-Hope Ashitey como a imigrante Kee, cujo medo e instinto protetor crescentes são também os nossos. E se a sempre excelente Julianne Moore como Julian – a ex-esposa de Theo que é responsável por tirá-lo de sua inatividade social – é hábil ao transmitir sua apreensão e ao mesmo tempo obstinação em torno do papel de liderança que desempenha, é Michael Caine quem rouba a cena nas duas sequências em que aparece. Sua construção para Jasper é eficaz ao funcionar como o único contato caloroso e humano de Theo, além de surgir quase como um hippie perdido no tempo, o que, associado a seu bom humor e carisma, é fundamental para lembrar ao espectador de dias mais alegres que aqueles indivíduos outrora viveram.

E cada aspecto dos personagens de Filhos da Esperança é muitíssimo bem pontuado pelo design de produção de Jim Clay e Geoffrey Kirkland e pela direção de fotografia de Emmanuel Lubezki. Veja que a cabana de Jasper surge com tons pastéis agradáveis, cujos casam com a receptividade que a residência emite graças a decoração de interiores criada pelos designers, que sugere um aconchego que nos permite concluir que aquele local é o mais perto de um lar que pode-se encontrar naquela realidade. Em contrapartida, o apartamento de Theo é concebido com tons cinzas que, associados aos itens pessoais abarrotados em cima de um cômodo ou em algum canto do quarto, reportam a indiferença do personagem com a rotina que segue. E isso tudo sem contar, claro, com o cuidado na criação de uma Londres caótica e bagunçada dominada por tons sóbrios que perduram por toda a obra, funcionando também ao remeter a um cenário pós-apocalíptico devido a todos os desastres que assolaram o planeta Terra nos últimos anos daquele mundo.

Carregado de uma atmosfera pesada de urgência e desesperança desde os minutos iniciais, o longa conta com uma câmera na mão de Alfonso Cuarón inquieta que funciona praticamente como um personagem por si só. E se o cineasta já indicava a força do acaso na realidade implacável que o filme nos apresenta em seu primeiro ato (como em uma explosão e em um sequestro), essa imprevisibilidade atinge o ápice em um plano-sequência genial que se passa dentro de um carro. A princípio, tem-se a impressão de que se trata de uma cena comum, já que os personagens estão a vontade e descontraídos; porém, a medida que a sequência transcorre e que os elementos vão sendo dispostos, o público se pega em meio a um evento violento e que surge naturalmente – e o fato de tratar-se de um plano-sequência filmado praticamente por inteiro dentro de um veículo aumenta ainda mais o realismo agonizante e claustrofóbico do momento, além de demonstrar o controle de câmera absurdo que Cuarón e Lubezki possuem, dadas as evidentes limitações físicas que uma cena do tipo proporciona.

Mas o longa contém pelo menos mais dois momentos memoráveis: um deles se passa dentro de um quarto de hotel em estado deplorável e o outro em um edifício feito campo de guerra nos momentos derradeiros da projeção. Se o primeiro surge com uma crueza e um intimismo que evocam a importância e a veracidade do acontecimento retratado, o destaque fica para o segundo, já que se trata de outro plano-sequência, mas que desta vez dura ainda mais tempo do que aquele que citei no parágrafo anterior. Aqui, Cuarón verdadeiramente absorve o espectador dentro de sua narrativa, já que a fita apresenta um tom quase documental, tendo em vista que a câmera não apenas acompanha Theo, como também passa a observar as pessoas ao redor – e o fato de sangue e poeira irem vagarosamente manchando a lente da câmera faz com que nós praticamente consigamos sentir a fuligem e a sujeira que tomam conta do ar poluído dos cenários em questão. E tudo isso em meio a uma violência gráfica que, associada novamente ao fato de ser uma cena sem cortes, aumenta significativamente o realismo brutal e o tom de urgência do que nos é exibido.

SPOILERS!

E mesmo com tudo isso, o grande poder dramático de Filhos da Esperança é comprovado na conclusão dessa mesma cena, no instante mais poderoso e belo do filme: todos os indivíduos – desde militares até combatentes, e passando por sujeitos que nada tem a ver com o conflito que presenciam – param de guerrear para assumir o papel de seres humanos e admirar a vida na figura de uma criança recém-nascida. Para os realizadores desta obra-prima, tal momento trata-se de uma síntese daquela sociedade que se esqueceu da preciosidade da vida, já que ela vinha sendo tirada tão levianamente ao longo de toda a película.

O que nos leva, enfim, a intrigante escolha de Cuarón em não apenas escalar uma atriz negra como a única mãe a aparecer nesse mundo em quase duas décadas, mas também ao roteiro por concebe-la como uma imigrante humilde e a Clare-Hope Ashitey por compô-la com um sotaque carregado que chama atenção para suas origens. Não deixa de ser irônico que a salvação para um problema mundial venha justamente de tal personagem, haja vista toda a problemática racial e social que tanto a Londres vista nas telonas quanto nós do lado de cá da tela vivenciamos e presenciamos em nossa realidade. Assim, Filhos da Esperança acaba funcionando como uma obra esteticamente excepcional e dramaticamente soberba, e que no processo se revela hábil ao transmitir uma mensagem urgente e mais atual do que nunca.

Filhos da Esperança (Children of Men, EUA/Reino Unido/Japão, 2006)
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón, Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus, Hawk Ostby (baseado no romance de P. D. James).
Elenco: Clive Owen, Michael Caine, Julianne Moore, Clare-Hope Ashitey, Pam Ferris, Chiwetel Ejiofor, Charlie Hunnam, Peter Mullan, Oana Pellea, Danny Huston
Duração: 109 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.