Crítica | Filhos de Duna, de Frank Herbert

  • Leia, aqui, as críticas dos livros anteriores. Há spoilers somente de Duna e Messias de Duna.

Duna construiu um magnífico universo e colocou Paul “Muad’Dib” Atreides como Imperador. Messias de Duna desconstruiu esse mesmo universo e fez Paul ver que suas ações causaram reações, guerras e genocídios em um caminho que ele até consegue compreender ser o único possível para salvar a Humanidade, mas que ele não consegue mais seguir sem questionar-se. O resultado foi sua cegueira física (ainda que também metafórica) e sua caminhada em direção ao deserto do planeta Arrakis para morrer conforme a tradição Fremen, deixando sua irmã pré-nascida Alia, agora envolvida com o ghola Duncan Idaho como regente do trono reservado para seus filhos gêmeos, Leto II e Ghanima, também pré-nascidos.

As “crianças” ou “filhos” de Duna do título, portanto, são os três Atreides com vastos poderes que permanecem no planeta desértico. Lady Jessica, mãe de Alia e avó dos gêmeos e que voltara às suas raízes Bene Gesserit, também tem seu papel neste terceiro capítulo, mas um que a levará a ser mentora da casa Corrino, deposta por Paul do poder, mas que o deseja de volta.

Mas, como dizem acertadamente, o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Alia representa, assim como seu irmão representara, o Estado e a Igreja, o governo e a religião. O Jihad pelo universo iniciado pelo fanáticos Fremen continua sem sinal de fim e Alia bebe e regozija-se desse poder todo, com o texto de Frank Herbert empregando muito de seu foco no crescente desequilíbrio mental da regente e sua transformação no grande receio daqueles que conseguem acessar consciências anteriores: a abominação, ou a possessão por uma ou mais personalidades do passado.

Leto II e Ghanima, por sua vez, têm, narrativamente, uma função dupla. A primeira delas é servir de “comentadores” das mudanças em Alia, deixando mais claro para o leitor o que pode estar acontecendo na capital do Império. Nesse aspecto, a completa maturidade das crianças de apenas nove anos (e que são crianças apenas fisicamente) – esse é o menor tempo de transição entre livros até agora, “recorde” que só viria a ser quebrado de Hereges para Herdeiras de Duna – nos permite perceber as sutilezas das ações de Alia e entender exatamente a natureza da abominação, algo que, mais tarde, é reforçado pela efetiva entrada de Lady Jessica na história.

A segunda função dos gêmeos, que permanecem por muito tempo no deserto, é justamente atestar o avanço na terraformação de Arrakis, com as regiões completamente secas e arenosas retraindo, a umidade vagarosamente aparecendo junto da vegetação ao ponto de ser possível que alguns Fremen – logo eles! – passem a viver sem suas vestimentas que colhem respiração, suor, urina e fezes e convertem em água potável. É o sinal do fim desse povo como o conhecemos, com as tradições sendo inevitavelmente quebradas pelos “luxos” trazidos pela tão desejada, mas ao mesmo tempo tão temida água.

Esse “temor” da água, vale dizer, reflete também na existência vital dos vermes de areia, as fontes únicas da cobiçadíssima especiaria que permite a navegação em velocidade de dobra, a longevidade e a “agonia” que torna possível a existência das Bene Gesserit e que revelou Paul como o Kwisatz Haderach da ordem exclusivamente feminina e como o messias dos Fremen. Com a água e a umidade cada vez mais reduzindo o deserto, os gigantescos seres podem vir a desaparecer, ameaçando o equilíbrio do universo e o desenvolvimento da raça humana.

Tematicamente, portanto, Filhos de Duna desenvolve os elementos principais da obra-prima de Herbert. Não só os aspectos climáticos e ambientais se fazem fortemente presentes, marcando a grande virada há muito tempo desejada e colocada em movimento por Liet Kynes, pai de Chani, amor e concubina de Paul e mãe de Leto II e Ghanima, para o planeta Duna, como os males do poder e a cobiça pelo poder ganham outros contornos não só lidando mais uma vez com uma ameaça externa, como também como a corrupção interna, que destrói os alicerces construídos de boa-fé (mas, de boas intenções…) por Paul. Ao mesmo tempo, o aspecto religioso ganha relevo, com o fanatismo apenas mencionado em Messias de Duna ganhando destaque nas cerimônias em adoração à Alia e nas ordens que emanam daí, em contraste com o surgimento do Pregador, um homem cego que, vindo do deserto acompanhado de um jovem guia, começa a abertamente enfrentar a regente com palavras que ferem profundamente a ordem das coisas. Sua identidade é evidente e Herbert não faz muito mistério em relação a ela, mas a presença desse conflito religioso torna ainda mais evidente o grau de horror que a fusão de estado e religião chegou aqui, mas que seria ainda mais desenvolvida no volume posterior.

Mas Filhos de Duna é, também, ostensivamente, o começo de uma nova “fase” na saga Duna. Apesar de muitos o considerarem como o final da primeira trilogia – e em razão de um aspecto em particular ele realmente o é – tenho para mim que ele é muito mais o primeiro volume do que deveria ter sido pelo menos uma pentalogia (a partir desse ponto) caso Herbert não tivesse falecido em 1986, um ano após o lançamento de Herdeiras de Duna, o sexto volume da história (descontando, claro, o que foi escrito por e a mando de Brian Herbert, seu filho). Afinal de contas, é aqui que o importantíssimo Caminho Dourado, apenas vislumbrado por Paul Muad’Dib, começa a ser verdadeira e inexoravelmente trilhado por Leto II, depois que ele passa pela agonia da especiaria por ordem de Lady Jessica. Sua presciência adquirida em cima de seu pré-nascimento cria um ser único que também escolhe passar por transformações físicas sem precedentes e que marcam o começo do referido caminho. O que é ele? Bem, em Filhos de Duna, seus detalhes não são ainda conhecidos – e diria que nem no próximo – mas, em linhas gerais, ele se refere ao único futuro possível que asseguraria a sobrevivência da Humanidade. Parece simples em termos de ficção científica pelo menos, mas a complexidade que Herbert incute nesse termo é impressionante, mesmo que ele, ainda bem, jamais escreva a seus leitores um manual detalhado e expositivo sobre o que exatamente essa salvação pode significar.

Depois de trazer um segundo capítulo que, de certa forma (apenas de certa forma!), desaponta por não ser muito mais do que um epílogo estendido, Frank Herbert volta com força total, sete anos depois, para essencialmente recomeçar sua saga e elevá-la a um patamar ainda mais ambicioso e estranho para esse fascinante futuro da Humanidade. E olha que ele nem arranha a superfície de seus planos aqui…

Filhos de Duna (Children of Dune, EUA – 1976)
Autor: Frank Herbert
Editora original: Putnam Publishing
Datas de publicação: abril de 1976
Editora no Brasil: Editora Aleph
Data de publicação no Brasil (Aleph – versão atual): agosto de 2017
Tradução (edição atual da Aleph): Maria Silvia Mourão Netto
Páginas (edição atual da Aleph): 528

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.