Home TVMinisséries Crítica | Filhos de Duna (minissérie – 2003)

Crítica | Filhos de Duna (minissérie – 2003)

Dois vermes com uma cajadada só.

por Ritter Fan
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  • spoilers somente da minissérie anterior.

Primeiro, Alejandro Jodorowsky tentou levar Duna, de Frank Herbert, para os cinemas, passando anos envolvido em um projeto lisérgico que, infelizmente, nunca viu a luz do dia para além de um interessante documentário décadas depois. Em seguida, depois de muito vai-e-vem, David Lynch, em 1984, colocou nas telonas uma obra esteticamente fascinante, mas narrativamente falha do romance sci-fi que ele mesmo desgosta e que, mais tarde, ganharia uma fraquíssima versão estendida que o cineasta detestou mais ainda e se recusou a ter seu nome ligado a ela. O resgate veio no ano 2000, de um lugar improvável: o canal então conhecido como Sci-Fi, hoje SyFy, bancou uma ousada produção do primeiro livro em forma de uma minissérie em três episódios, cada um com duração de um longa metragem, que fez o caminho inverso da criação de Lynch, privilegiando a história e a fidelidade ao material fonte, mas pecando nos visuais.

Tamanho foi o sucesso e a boa recepção, que essa aposta inusitada praticamente lançou o canal para o mundo, canal esse que um dia produziria o sensacional reboot de Battlestar Galactica, uma das melhores, senão a melhor série de ficção científica já feita, isso no mesmo ano em que a segunda minissérie baseada nos livros de Frank Herbert foi lançada, Filhos de Duna. Também com roteiro de John Harrison e mantendo quase exatamente a mesma duração da primeira, a segunda investida do Sci-Fi no universo de Duna foi ainda mais ousada e ainda mais interessante, pois abordou não um, mas dois livros da série, Messias de Duna, que pode ser interpretado como um epílogo de Duna, e Filhos de Duna, o volume seguinte que lida, como o título deixa entrever, com os filhos de Paul Atreides (Alec Newman), Leto II, vivido por James McAvoy em seu mais relevante trabalho televisivo antes de finalmente migrar para o Cinema, e Ghanima, interpretada por Jessica Brooks.

Se a primeira minissérie já havia acertado na forma como adaptou o primeiro romance, a segunda consegue alcançar um outro patamar justamente por condensar os volumes 2 e 3 da série literária original de maneira exemplar, dedicando a primeira parte, batizada simplesmente de Messias, à Guerra Santa – ou Jihad – empreendida por todo o universo em nome de Muad’Dib e os planos dos descontentes, especialmente os Tleilaxu e a vingativa Princesa Wensicia (Susan Sarandon), irmã de Irulan (Julie Cox) e filha mais velha do imperador deposto Shadam IV, para derrubar do trono o déspota que ele se tornou, plano esse que inclui o retorno de Duncan Idaho (Edward Atterton) como um ghola geneticamente alterado. Esse primeiro capítulo trabalha substancialmente com os eventos de Messias de Duna e tem seus holofotes também virados para Chani (Barbora Kodetová), amor da vida e concubina de Paul Muad’Dib, que não consegue engravidar apesar dos 12 anos que se passaram e Alia (Daniela Amavia), a irmã pré-nascida do Imperador que comanda a devastadora religião a partir de Arrakis.

Os dois capítulos seguintes fazem exatamente o que o livro que eles adaptam faz para a série literária, ou seja, estabelece um recomeço que parte dos eventos decisivos do final de Messias de Duna e constrói a noção de legado, primeiro abordando o desenvolvimento de Alia e, depois, de Leto II e Ghanima, repaginando Irulan, trazendo Lady Jessica (Alice Krige) mais para próximo da filha e dos netos e introduzindo a figura de um misterioso Profeta anti-Muad’Dib, cuja identidade não é mantida em segredo por muito tempo, em uma escolha sensata de roteiro. Há uma sensível barriga na segunda parte justamente porque é um recomeço e as “novas regras” precisam ser apresentadas, algo que o roteiro procura fazer da maneira mais clássica possível, ou seja, trazendo diálogos expositivos que arrastam um pouco a história, mas nada realmente muito grave considerando a ponte efetiva que ele faz entre as duas pontas da minissérie.

No entanto, o que realmente diferencia Filho de Duna da minissérie anterior é o que eu poderia chamar de um bom equilíbrio entre narrativa, direção de arte e efeitos visuais, sejam práticos ou em CGI. Enquanto Duna foi muito pesadamente marcada por figurinos e cenários dignos de escolas de samba das mais espalhafatosas possíveis com um CGI horroroso mesmo para a época, Filhos de Duna pisa no freio dos exageros e cria visuais muito mais sóbrios e bonitos que realmente fazem jus à mitologia, algo que é acompanhado pelos belos figurinos de Alia, Irulan e de Wensicia. E o mesmo vale para o CGI que consegue ser incomparavelmente melhor ao da primeira minissérie, mantendo-se razoavelmente bons até mesmo para os padrões atuais se tivermos em mente de que se trata de uma obra feita para a TV há quase duas décadas e que procura adaptar dois romances carregados em exigências visuais.

Filhos de Duna, em seu conjunto, é um feito televisivo memorável que sabe evoluir as fraquezas da obra que a antecedeu e construir em cima do universo de Frank Herbert sem pensar duas vezes em abordar dois livros de uma só vez. Chego a realmente ficar triste em lembrar que o elã do Sci-Fi não foi forte o suficiente para chegar à adaptação do capítulo literário seguinte, Imperador Deus de Duna, que reputo ser muito mais complexo para levar às telonas ou telinhas do que qualquer outro da série.

Filhos de Duna (Children of Dune, EUA/Alemanha – 2003)
Direção: Greg Yaitanes
Roteiro: John Harrison (baseado em romances de Frank Herbert)
Elenco: Alec Newman, Julie Cox, Edward Atterton, Ian McNeice, Barbora Kodetová, Steven Berkoff, Daniela Amavia, P. H. Moriarty, Alice Krige, Susan Sarandon, James McAvoy, Jessica Brooks, Jonathan Brüün, Rik Young, Martin McDougall, Gee Williams, Jakob Schwarz, Klára Issová, Zuzana Geislerová, Karel Dobrý
Duração: 266 min. (três partes)

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