Crítica | Film Noir, de Alain Silver e James Ursini

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Film Noir, de Alain Silver e James Ursini sob edição de Paul Duncan, é um daqueles típicos livros que, ao terminarmos, pensamos com forte desapontamento: “fui tapeado!“. Parte de uma série de volumes sobre a História do Cinema e importantes realizadores, atores e atrizes, este lançamento da excelente editora Taschen se propõe abordar um dos estilos mais interessantes da Sétima Arte, mas só faz mesmo é iniciar a discussão (de maneira excelente, diga-se de passagem) e logo depois abandona completamente o elemento teórico, técnico e puramente histórico do movimento para perder tempo com sinopses gigantescas de diversos filmes, num estrondoso e irresponsável festival de spoilers.

A melhor coisa de todo o livro é o seu primeiro capítulo: O Que é ‘Noir’?, que vai da página 8 à página 24. Não fosse esse pedaço do volume e mais algumas outras poucas informações que temos nos capítulos seguintes, a qualidade geral da obra seria ainda mais questionável. No decorrer do livro, vemos analisados diversos aspectos estéticos e narrativos dos “filmes negros“, sempre começando com uma breve abordagem de conteúdo e depois mergulhando em “leituras de caso” que saem totalmente do controle, ocupando praticamente 90% de todo o material escrito sem servir para nada, uma vez que para ter essas informações o leitor precisa assistir aos filmes citados, não ler descrições detalhadas sobre o que acontece neles.

Este, aliás, foi o elemento que mais me irritou no livro, ainda mais se compararmos o excepcional primeiro capítulo — onde uma porção de informações relevantes nos são fornecidas — com todo o restante da obra, da qual bem pouco de novidade e conhecimento retiramos. Temos na sequência os capítulos O Crime Perfeito, O Pesadelo Fatalista, O Peso do Passado, Filmes de Assaltos, Docu-Noir — o segundo melhor capítulo do livro, embora sua proposição seja aberta a muitos questionamentos e debates, algo que o livro sugere, mas não faz –, Amor em Fuga, Violência MasculinaAs Mulheres no Filme Noir, O Detetive Particular e Perversidade e Corrupção.

Cada um dos capítulos citados dão a entender um foco diferente dos autores em camadas do noir, mas não há nada diferente daquilo que comentei antes: uma exaustiva exposição das tramas de alguns filmes para “explicar” como a linguagem noir funciona em cada um deles, sendo que essas questões já haviam sido parcial ou totalmente definidas no capítulo de abertura. E como se não bastasse, o final de cada capítulo recebe uma ou duas páginas de encheção de linguiça com mini biografias dos seguintes diretores: Billy Wilder, Edgar G. Ulmer, Jacques Tourneur, Robert Siodmak, Anthony Mann, Joseph H. Lewis, Nicholas Ray, Max Ophüls, Robert Aldrich e Orson Welles. Sinceramente: se você está lendo um livro sobre o cinema noir, a última coisa que você espera é uma sequência de biografias que nem se dedicam exclusivamente a analisar a filmografia desse estilo concebida pelos biografados…

Na parte final há algo bem positivo e bem negativo a ser considerado. O primeiro ponto é a boa cronologia de eventos, retomando alguns conceitos trabalhados na abertura do volume ao referir-se ao naturalismo literário de Émile Zola e seguindo-se até o ano de 1981, com a citação de Profissão: Ladrão, de Michael Mann. Já o segundo ponto é uma vergonhosa filmografia que nos traz apenas 10 filmes, todos organizados fora de ordem e repetindo outras dezenas de citações a eles no meio do livro. A indicação nem é de um “Top 10” ou qualquer forma de recorte, nada disso. Só “Filmografia” mesmo, e a citação dos seguintes filmes, nesta exata ordem: Baixeza (1949), Curva do Destino (1945), Pacto de Sangue (1944), Mortalmente Perigosa (1950), No Silêncio da Noite (1950), A Morte num Beijo (1955), Fuga do Passado (1947), Na Teia do Destino (1949), Moeda Falsa (1947) e A Marca da Maldade (1958).

Mais preocupado em apresentar uma excelente coleção de fotografias de produção ou cenas icônicas num livro dedicado a um estilo com muita coisa para falar, Film Noir serve apenas como uma obra rasa de curiosidade. Seu prólogo é excelente e no decorrer dos capítulos há algumas informações soltas, mas o livro vai por um caminho totalmente diferente daquele que é o de analisar um estilo e as camadas de linguagem que propõe. A ideia de estudo de caso poderia funcionar se apenas algumas cenas fossem destacadas e estivessem em menor quantidade nos capítulos, dando espaço para o desenvolvimento de outras ideias. No entanto, não é isso que acontece aqui: os autores insistem em discorrer sobre coisas que a gente já viu (e tenho dó de quem não viu os filmes citados, pois terá spoilers de absolutamente tudo) e ficam devendo muito conteúdo inédito em 10 dos 11 capítulos da obra. Como álbum de boas fotografias, sugestão cronológica final e apresentação geral do estilo, até que funciona um pouco. Mas para valer o título de Film Noir como uma produção relevante… este aqui está um tanto longe.

Film Noir (Alemanha, 2012)
Autores: Alain Silver e James Ursini
Editor: Paul Duncan
Editora: Taschen
192 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.