Crítica | Filme Socialismo

Jean-Luc Godard não pertence ao reino da lógica. Durante toda sua filmografia, o lógico jamais foi adotado pelo diretor francês. Desde a nouvelle vague, quando desafiava as leis pétreas do cinema hollywoodiano, até o advento do vídeo e do digital, Godard renuncia toda e qualquer convenção a respeito do cinema. Gostar ou não do cinema da autoria do jovem turco é questão subjetiva; mas não há maior consenso entre cinéfilos que o autor de O Demônio das Onze Horas (1965) é quem mais desafia o veículo cinematográfico desde 1960. As mídias digitais foram um ponto de virada na carreira de Godard, tendo ele redirecionado suas atenções para maiores experimentações com as novas possibilidades que o cinema lhe trouxe. Em Filme Socialismo, essa tendência godardiana não muda. Nesse experimento caleidoscópico, um cruzeiro de luxo vagueia sem rumo pela Europa e uma pequena família que tem como principal renda um posto de gasolina é entrevistada por jornalistas. O filme estuda os problemas econômicos e sociais da pós-modernidade assim como as mazelas da sociedade perante o capitalismo.

Antes de qualquer análise mais aprofundada, é necessário afirmar que por mais que o filme tenha definido pontualmente seus distintos movimentos, estudá-lo por meio das partes é falho; o filme é, antes de mais nada, um exercício dialético – que compara duas estéticas distintas dentro de uma obra. O fundamental, nesse caso, é entender as intersecções dessas sequências. A capacidade que Godard apresenta em criar um dos filmes mais multifacetados dos últimos anos e, ainda assim, criar uma unidade estilística é impressionante. O elemento que une cada uma dessas é o discurso imposto pelo diretor.  

Inicia-se com uma produção constante de imagens que se misturam com uma composição sonora caótica e vai-se para uma linguagem similar àquela adotada pelos documentários de Eduardo Coutinho – sofisticada, porém de maneira observativa. O contraste entre a polissemia da primeira metade do filme e o caráter documental do segmento final é importante para expor as diferentes faces do capitalismo e como elas se expressam.

No movimento inicial, o sistema capitalista em grande escala, apresentado por meio cruzeiro (uma espécie de torre de Babel do mundo contemporâneo), uma possível representação do mundo capitalista. Ali não há personalidades próprias, tudo está misturado em uma confusão imagética, criando um universo morto. Já o segundo movimento descreve o capitalismo em pequena escala, focando em uma humilde família francesa que se vê absorvida pelo cruel sistema econômico vigente no país.

Compreendidas as primeiras fases da película, chega-se, assim, no ponto chave de Filme Socialismo: a arte. Ao longo de sua carreira Godard sempre se mostrou próximo do mundo artístico. Suas obras Passion (1975), versando sobre pintura, e O Desprezo (1973), a respeito do cinema, são reflexos disso. Durante ambos movimentos do filme, há um ponto em comum entre os poucos momentos de ruptura das linguagens estabelecidas. Dentro das sequências no barco, a mise en scène opta por um conceito rápido e de ruptura, criando imagens de curta duração e impacto visual. Mas, durante poucos instantes, a ferocidade do capitalismo é substituída pela plenitude de momentos artísticos – por exemplo, quando Patti Smith simplesmente performa perante a câmera. Seria, então, a arte o único escape dentro da frenética lógica capitalista? Para Godard, a resposta é sim.

Quando, durante a invasão de repórteres jornalísticos ao posto de gasolina, um dos garotos da família pinta um quadro, Godard inova e suprime a anterior linguagem documental. A imagem assume um comportamento similar àquele visto no barco. Nesse momento, é a arte que muda o panorama do selvagem capitalismo. Segundo o diretor, fica claro que é o comportamento artístico que tira o cidadão médio da alienação do sistema.

Jean-Luc Godard é um gênio à frente de seu tempo. Além de ter revolucionado o cinema depois de Acossado (1960), seguiu redefinindo conceitos e, quem sabe, a História do próprio cinema. Em Filme Socialismo, definições e limites do cinema experimental são colocados em dúvida. Com indescritível maestria, o diretor utiliza uma infinidade de formatos audiovisuais, construindo um cinema que vai além do estruturalismo de Hollis Frampton e experimentalismo avant-garde de Brakhage. Em Godard, há um discurso político por trás, regido por sua polissemia semiótica. Não cabe, nesta breve análise, etiquetar o experimental godardiano; basta, apenas, senti-lo.

É por meio do cinema que Jean-Luc Godard idealiza seus (sempre fortes) pensamentos político-sociais. Junto de sua caméra-stylo, escreve aquilo que pensa por meio da película do cinema. Em Filme Socialismo tudo é política. Se para Oscar Wilde a caneta é o poder, em Godard a câmera é muito mais forte que uma pedra da rua, e seu uso é tão agressivo quanto um apedrejamento. 

Filme Socialismo (Film Socialisme) – França, Suíça, 2010
Direção: Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard
Elenco: Catherine Tanvier, Christian Sinniger, Jean-Marc Stehlé, Patti Smith, Robert Maloubier, Alain Badiou, Nadège Beausson-Diagne, Élisabeth Vitali, Eye Haidara
Duração: 102 min.

FREDERICO FRANCO . . . Estudante de cinema de Porto Alegre, RS, que pretende ser professor de cinema. Ocupo meu tempo com literatura, música e cinema. No mundo da literatura, Borges é meu padrinho; na música, sou regido pelo sintetizador de Charly García; e, junto de Michael Snow e Michelangelo Antonioni, caminho pelo mundo do cinema.