Crítica | Fim de Verão

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Penúltimo filme de Yasujiro Ozu e a última de seis colaborações do diretor com a atriz Setsuko Hara — nos filmes Pai e Filha (1949), Também Fomos Felizes (1951), Era Uma Vez em Tóquio (1953), Crepúsculo em Tóquio (1957) e Dia de Outono (1960) — Fim de Verão (1961) é um olhar bem doce do diretor para a velhice e para o fim da vida. Em torno de temas que estiveram presentes em toda a sua filmografia, o cineasta nos conta a história do clã Kohayagawa, onde o patriarca vivido por Ganjirô Nakamura revive um velho amor, onde a filha mais nova tenta viver o seu primeiro amor e onde tudo parece seguir como em qualquer símbolo de estação do ano: prestes a encerrar um ciclo para, em meio ao que “sobrou” da estação anterior, começar um outro momento… [vale dizer que a tradução literal para o título deste filme é O Outono da Família Kohayagawa, mas pelos dias ensolarados e pela quantidade de calor que os personagens sentem, é geograficamente possível afirmar que o filme se passa ainda nos primeiros dias dessa estação].

A primeira coisa que o diretor faz com que a gente se acostume é o convívio familiar, em torno do qual acertos entre as pessoas vão sendo feitos. O casamento é um dos assuntos novamente em pauta, mais ou menos nos mesmos parâmetros que conhecemos do diretor desde os anos 1950, ou seja, colocado como uma obrigação social mas ganhando diversas cores e adereços ao longo da trama. No presente caso, existem duas mulheres ligadas à essa questão (uma viúva cotada para casar novamente e uma jovem solteira) e ao redor delas se cria uma preocupação não-agressiva em relação ao casamento. Aqui, Ozu segue o mote de dar liberdade à mulher para escolher, e ainda ressalta a consciência dessas mulheres em relação à visão social sobre o status em que estão no momento, ou seja, elas sabem o que é ser um “mulher solteira” aos olhos dos outros, mas isso não as incomoda. Elas procuram o parceiro e a hora certas para então tomarem sua decisão final.

Além desse aspecto, temos também a questão financeira presente no cotidiano dessa família. Eles são donos de uma fábrica de saquê e percebem que os novos tempos trazem mais concorrência e, a longo prazo, dificuldades para uma empresa tão pequena sobreviver no mercado. Sendo basicamente a única conexão fora de algo puramente familiar no filme, o trabalho desses personagens é aquilo que também os mantém afastados e “ligados ao mundo”. Cada obrigação que vemos, no entanto, é observada por Ozu com imensa leveza, com sua câmera baixa e sua contemplação clássica da realidade. À parte algumas cenas no “escritório” da empresa, todo o restante da obra flui de maneira impecável, jamais nos deixando esquecer do tema que está sendo trabalhado e, mais para o fim, alimentando o máximo possível a ideia de encerramento simbólico de uma estação e chegada da outra; de colheira de frutos e semeadura de novas sementes.

SPOILERS!

A direção de fotografia vai pouco a pouco se escurecendo, a escolha dos figurinos idem e os planos se tornam um pouquinho mais curtos, especialmente depois do primeiro ataque cardíaco do patriarca. O fim do verão traz algumas reflexões e algumas novidades para a família, algo que propositalmente o diretor colocou mais para o final da fita, como se quisesse mostrar o aproveitamento dos últimos momentos da vida de um homem que ama estar vivo. Ele está brincando com o neto, demonstrando preocupação com o casamento das mulheres e tentando viver o seu antigo amor sem reservas.

A maneira como Ozu conclui mais esta jornada familiar é de uma verdadeira poesia. Ele traz à tona o simbolismo do corvo ligado à morte e à fertilidade (a dualidade simbólica aqui não é mostrada apenas esteticamente, mas também através dos diálogos nesta referida cena), cerca com muita naturalidade o velório e deixa fluir as diferentes reações dos membros da família diante da morte de seu membro mais velho. O ciclo natural se fecha com um tremendo respeito à vida, à decisão das mulheres sobre seu destino, aos novos tempos de dificuldades e a um sólido olhar esperançoso pelo que virá. O verão chega ao fim, mas o outono, como todos nós sabemos, também tem a sua beleza e sua marca na vida dos homens, física e simbolicamente.

Fim de Verão (Kohayagawa-ke no aki) — Japão, 1961
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Kôgo Noda
Elenco: Ganjirô Nakamura, Setsuko Hara, Yôko Tsukasa, Michiyo Aratama, Keiju Kobayashi, Masahiko Shimazu, Hisaya Morishige, Chieko Naniwa, Reiko DanHaruko Sugimura, Daisuke Katô, Haruko Tôgô
Duração: 103 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.