Crítica | Fim do Mundo

“Ele está com raiva por causa de seu cachorro. Já assistiu à Marley e Eu ou Beethoven? É um laço primitivo. Ele quer vingança. Pergunte ao John Wick.”

Quando uma nave alienígena aparece nos primeiros segundos de Fim do Mundo, é imediata a comparação que McG cria com Star Wars. O planos de abertura, nos dois casos, capturam por debaixo uma aeronave gigantesca, que ganha a nossa atenção e promove um senso de ameaça ao espectador. Em ambas as situações, os inimigos abordam os mocinhos no espaço, que aqui são astronautas terráqueos, testemunhando uma invasão que comprometerá a segurança da Terra. Porém, serão crianças, sempre crianças, a receberem a missão de cancelarem o apocalipse. Fim do Mundo, nesse meio tempo, entre o chamado pela jornada e a sua conclusão, reunirá muitas piscadinhas a filmes que marcaram época. Limite, contudo, não existe. Qualquer inventividade própria, homenagem sincera, morre na muleta que é a obra, basicamente uma coletânea de referências que reúne extraterrestres, militares e crianças. Quatro crianças versus vários monstros.

Diante de uma premissa consideravelmente simples e um objetivo ainda mais, McG inicia muito bem o seu longa-metragem. O cineasta apresenta quais são as crianças principais do enredo com bastante espirituosidade. Alex (Jack Gore) é o protagonista, que sofre de um trauma gerado pelo seu passado. Já ZhenZhen (Miya Cech) é uma garota asiática mais quieta, que nos cativa rapidamente por conta do seu atrevimento. Por fim, Benjamin Flores Jr., encerrando o trio de protagonistas primeiramente apresentados, vive o amigo gordo, arrogante e negro, juntando três estereótipos em um. E é incrível a quantidade imensa de citações que Dariush, seu personagem, faz. Assim sendo, McG não deixa de dar mão a uma necessidade imperativa por arquétipos enquanto visa moldar os seus personagens. Mais tarde, por exemplo, junta-se aos três um garoto mais descolado e com pinta de herói, vivido por Alessio Scalzotto. Gabriel carrega certos mistérios.

Uma pequena cena entre alguns funcionários do acampamento onde esses jovens se encontram mostra o quão Zack Stentz, roteirista, não está muito preocupado em construir personagens mais críveis. O coadjuvante interpretado por Andrew Bachelor, no caso, comenta sobre as maneiras estereotipados com que os personagens negros dos anos 80 conversavam. A mesma coisa pode ser inferida sobre o filme, nostálgico até demais. Enquanto isso, McG tenta desconstruir algumas coisa ao longo das jornadas das crianças, que são pegas desprevenidas por uma missão para salvar o mundo. Os garotos vão desabafando as suas inseguranças, que os transformam mais em pessoas do que símbolos, paulatinamente. O texto, em contrapartida, não consegue nos convencer das emoções em questão, retornando aos clichês. Quebra-se as desventuras dos protagonistas em momentos-chave, para que as trajetórias sejam pensadas. Mas a dramaticidade não convence.

Tudo que precisa ser exposto acaba sendo de uma forma desinteressante. Já o começo, que tem até uma amostra do passado de Alex em um curto vislumbre, era mais instigante. Quem são esses personagens? Quais são as suas funções nessa narrativa? Fim do Mundo maneja esse nosso atiçamento bem para enfim entrar no apocalipse com uma fotografia amarelada. McG imprime um estilo com tal toque. Quando Alex chega ao acampamento, a sequência com o personagem de Bachelor o apresentando ao local cresce nossas expectativas. O que acontece, no entanto, é que o longa termina tornando-se uma versão de Stranger Things sem a mesma aura ou carisma. Um pouco da personalidade de cada um dos protagonistas vai sumindo, por exemplo. E o único dos quatro que realmente possui um arco estruturado, mas clichê, é Alex. Já a tentativa do projeto em tratar de dislexia é desengonçada, e também mina-se totalmente as particularidades de ZhenZhen.

Há todo um coming-of-age mais gracioso nas entrelinhas que não é verdadeiramente assumido, que transformaria o amadurecimento dos seus personagens na redenção do Planeta Terra. O primeiro passeio de bicicleta de Alex, assim como a descoberta de sua sexualidade, é o que importa para McG. Isso tudo é possibilitado por uma obra que reverencia à atmosfera oitentista, de tornar crianças o centro do mundo e serem a chave do sucesso. O que seria de Jurassic Park sem a sua dupla de personagens-mirins? Pois Fim do Mundo, nesse universo que embarca numa proposta por nostalgia e nostalgia, traz uma cena que remete-se àquela com os velociraptors na cozinha. Se McG consegue tratar bem dos perigos para as crianças com planos que, juntamente a uma computação gráfica mais lúdica, menos realista, adentram com espirituosidade no teor catastrófico da obra, Stentz prefere uma quantidade absurda de referência barateada e oportunista.

Fim do Mundo (Rim of the World) – EUA, 2019
Direção: McG
Roteiro: Zack Stentz
Elenco: Jack Gore, Benjamin Flores Jr., Miya Cech, Alessio Scalzotto, Lynn Collins, Annabeth Gish, Punam Patel, Michael Beach, Tony Cavalero, Dean S. Jagger, Andrew Bachelor
Duração: 98 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.