Crítica | Final Space – 2ª Temporada

A 1ª temporada de Final Space foi um achado. Apesar de eu ter demorado dois episódios para começar a apreciá-la de verdade e ter concluído que Gary Goodspeed, o protagonista, é um dos personagens mais chatos já criados na animação, o resultado final foi para lá de interessante, com uma história bem estruturada e que ao mesmo tempo conseguiu reverenciar os grandes clássicos da ficção científica. Tinha esperanças, portanto, que Olan Rogers conseguisse, logo na 2ª temporada, que ganhou três episódios a mais que a original, desenvolver sua premissa ainda mais e entregar algo realmente especial. Infelizmente, porém, não foi isso que aconteceu.

Inicialmente, achei que a temporada demoraria a realmente “começar” como na primeira, mas, quando estava lá pelo quinto episódio e nada mais especial do que uma competição de dança com Gary fazendo um hilário cosplay emo de Marion Cobretti havia acontecido, notei que estava diante de um retrocesso narrativo, algo típico das continuações cinematográficas hollywoodianas que acham que, para fazer melhor, precisam exagerar em todos os quesitos sem precisar dar atenção ao roteiro. Aqui, Rogers joga tudo o que consegue imaginar nos episódios, até a pia da cozinha, como os americanos dizem, mas o que ele consegue é tirar o que a 1ª temporada tinha de original e enxertar banalidades e clichês forçados que cansam já no primeiro terço.

Mas nem tudo se perde. Gary Goodspeed (Rogers) ganha ótimo desenvolvimento como personagem. O chato repetitivo da temporada anterior não existe mais todo o tempo e, em seu lugar, temos um personagem que muito claramente aprendeu com suas perdas, que sente a falta de seu amor Quinn (Tika Sumpter) e de seu melhor amigo Avogato (Coty Galloway) e toda a responsabilidade que é cuidar de Gatito (Steven Yeun), agindo de acordo e ganha toda a profundidade que uma animação de humor insano consegue estabelecer. Da mesma forma, a trama que envolve seu passado e sua mãe Sheryl (Claudia Black), apesar de por vezes enrolado demais, consegue trazer significado pessoal para toda a trama da temporada, com um bom tecido conectivo com a primeira. As novas formas de KVN (Fred Armisen) e principalmente da I.A. HUE (Tom Kenny), agora com o corpo de um robô quase completamente inútil, e a introdução de uma nova e bonita nave batizada de Luz Escarlate e que tem toda a vibe da Millenium Falcon, além de sua própria IA., AVA (Jane Lynch) que logo estabelece uma relação de amor e ódio com HUE são boas alterações e novidades que trazer frescor sem mudar tudo.

Acontece que, tomando o lugar de Gary no quesito chatice absoluta, eis que entra Clarence (Conan O’Brien) como personagem fixo da temporada juntamente com seus filhos Ash (Ashly Burch) e Fox (Ron Funches). Com a quase completa ausência do ótimo Lorde Comandante de David Tennant, é Clarence que assume o papel de vilão ou, melhor dizendo, de “aliado somente quando lhe convém”, em um papel extremamente cansativo e repetitivo que pouco realmente acrescenta à narrativa para além da introdução de seu casal de filhos – interessantes, mas ordinários – e, claro, da já mencionada nave vermelha. Some-se a isso a “nova missão” da temporada, o recolhimento de aleatórias cinco chaves dimensionais de forma que o titã Bolo (Keith David) possa ser libertado e, com isso, Gary possa salvar Quinn, perdida lá no “espaço final”.

O que acontece, a partir daí, é uma gincana espacial com corridas, viagens no tempo, estações espaciais surreais, histórias de origem, revelações sobre Mooncake e sobre os titãs, a introdução do grande e verdadeiro vilão Invictus (Vanessa Marshall) e assim por diante, com a equipe da Luz Escarlate transpassando obstáculos de maneira extremamente episódica, sem uma cola narrativa fluida como na temporada inaugural. Sim, dou valor para o arco de Gary-Avogato-Gatito e gostei muito de episódios esparsos como o completamente “startrekianoO Outro Lado, com a nave dividida em dois momentos temporais diferentes e a nojeira escatológica volume 11 de Espião Perdido que aborda o casamento de Clarence com uma rainha asquerosa, além de ter apreciado algumas sequências inspiradas como a de Gary vestido de Cobretti como salientei logo no começo e até mesmo a introdução dos Aracnitetos. Mas, ainda que algumas partes funcionem bem separadamente, o todo que elas formam não é coeso e perde massa crítica muito rapidamente, quase desfazendo completamente o que Rogers contruiu na 1ª temporada.

A animação em computação gráfica, porém, continua de boa qualidade, ainda que nada espetacular ou fora do comum em relação ao que se espera dos padrões atuais. Por outro lado, o grau de criatividade na criação de equipamentos, mundos e raças alienígenas merece todo o destaque possível, já que e é aqui que o exagero da narrativa de Rogers acaba compensando, com a equipe de artistas realmente podendo soltar os freios para trazer para a telinha uma vasta pluralidade de personagens novos completamente diferentes e insanos, além de algumas manifestações galáticas realmente interessantes como a cachoeira temporal ou o plano astral dos Aracnitetos. Vê-se muito cuidado e carinho nesse quesito.

Final Space tinha um grande potencial a realizar, mas sua 2ª temporada caiu na armadilha do “quanto mais melhor” que é uma praga de proporções bíblicas no audiovisual americano. Claro que há muito ainda que se aproveitar e pode ser que uma nova temporada até consiga reparar alguns dos estragos feitos, mas a impressão que fica é que Olan Rogers resolveu trilhar o caminho mais viajado, acomodando-se aos mandamentos hollywoodianos e entregando algo simplesmente mediano. Um grande desperdício.

Final Space – 2ª Temporada (EUA, 24 de junho a 23 de setembro de 2019 // Distribuição Internacional pelo Netflix: 24 de novembro de 2019)
Criação: Olan Rogers
Showrunner: David Sacks
Direção: Ben Bjelajac, Yoriaki Mochizuki, Anne Walker Farrell, Mike Roberts, Dan O’Connor, Chris Paluszek
Roteiro: Olan Rogers, David Sacks, Dan O’Keefe, Cameron Squires, Kelly Lynn D’Angelo, Nick Watson, Deirdre Devlin
Elenco: Olan Rogers, Fred Armisen, Tom Kenny, Tika Sumpter, Steven Yeun, Conan O’Brien, Claudia Black, Ashly Burch, Ron Funches, Jane Lynch, David Tennant, Coty Galloway, Vanessa Marshall
Produtora: TBS
Duração: 276 min. (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.