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Crítica | Fique Longe do Porão (Goosebumps #2), de R.L. Stine

Uma mudinha inocente...

por Luiz Santiago
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Quando a Scholastic lançou os dois primeiros livros da série Goosebumps, em julho de 1992, não havia qualquer expectativa de que o projeto virasse fenômeno — o próprio R.L. Stine chegou a duvidar que a série passaria do sexto volume. Fique Longe do Porão chegou junto com o ruinzinho Bem-Vindo à Casa dos Mortos, e onde o primeiro apostava no terror sobrenatural das casas assombradas, este segundo trazia a ficção científica do cientista maluco, arquétipo consagrado pelos anos 1950, após dezenas de filmes B baseados em experimentos de laboratório que dão errado. Nesta narrativa, o personagem Dr. Brewer é o ponto de partida: botânico demitido da universidade onde trabalhava há anos e agora isolado no porão de casa, ele passa os dias no porão misturando DNA vegetal e animal, enquanto os filhos Margaret e Casey tentam entender por que o pai usa boné o tempo todo, come argila e está cada vez mais distante.

Fique Longe do Porão traz um problema bem aparente logo de cara: Stine constrói Margaret e Casey com o mínimo possível de personalidade, dois recipientes de reações emocionais sem características que os tornem memoráveis além de a irmã mais velha ser preocupada e o irmão mais novo ser intrometido. Na maior parte do livro, o leitor acompanha a dupla fazendo perguntas ao pai, descendo ao porão quando não deveria e subindo correndo quando ouve passos, num ciclo que cansa antes de assustar. A trama tem estrutura de capítulos-gancho, um recurso que Stine usaria ao longo de toda a série para manter os leitores (lembrando que seu público-alvo é o infantojuvenil) presos às páginas, mas que aqui oscila entre o eficiente e o repetitivo porque não há profundidade humana suficiente para sustentar o interesse entre um susto e outro, e esse vazio pesa, embora não tire a qualidade da última parte da história.

O livro ganha fôlego quando finalmente cumpre o que construía desde a primeira página, e a reta final assume a sua característica body horror, elencando plantas com feições humanas que respiram, chiam e gemem como pessoas; um clone do pai capaz de enganar os próprios filhos e uma cena onde Margaret precisa usar sangue como prova de identidade para salvar a família. Para o público ao qual se destina, esse tipo de perturbação funciona de maneira específica: o medo de que o adulto responsável pela sua segurança seja, na verdade, outra coisa. É um terror que não precisa de explicação filosófica para atingir o alvo, e Stine sabe disso. O humor mórbido do desfecho, com a florzinha aleatória que sussurra “sou seu pai de verdade“, fecha o volume com um tipo de humor torto que a série aprenderia a usar como assinatura e que me agradou muitíssimo aqui.

Ainda há muito nessa equação que pesa contra o livro, porque o autor não decidiu se queria explorar o horror da dissolução da identidade paterna ou o terror ecológico da ciência fora de controle (ou qualquer coisa entre essas partes), e tal indecisão prende um pouco a narrativa. Mesmo assim, Fique Longe do Porão sai na frente de seu antecessor por ter uma reta final que dá mais corpo ao seu núcleo narrativo e por mostrar, ainda que em modo relativamente cuidadoso, o body horror como ferramenta que a série saberia usar com muito mais consistência nas histórias seguintes. O que salva o livro é justamente o que está no título: a promessa do porão com uma “coisa” assustadora, e o quanto o texto cumpre essa promessa de susto quando finalmente abre as portas para mostrar “o quê” realmente está lá dentro e o que “aquilo” é capaz de fazer.

Fique Longe do Porão — Goosebumps #2 (Stay Out of the Basement) — EUA, julho de 1992
Autor: R.L. Stine
Editora original: Scholastic Press
No Brasil: Editora Fundamento (2007)
Tradução: Gabriel Zide Neto
Capa original: Jim Thiesen
122 páginas

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