Home FilmesCríticas Crítica | Fireball: Mitos, Cometas e Meteoros

Crítica | Fireball: Mitos, Cometas e Meteoros

por Ritter Fan
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Werner Herzog não tem mais nada a provar para absolutamente ninguém e é livre dessas amarras que ele viaja pelo mundo criando fascinantes documentários que usam as respectivas premissas para ir muito além delas, por vezes até enfurecendo quem gostaria de mais profundidade sobre os temas que os títulos ou as sinopses prometem. No entanto, o cineasta alemão não tem interesse em fazer abordagens profundas sobre os objetos de seu estudo, mas sim em criar uma visão holística e conectada sobre o mundo que nos cerca e ele deixa isso absolutamente claro em sua costumeira – e muito gostosa – narração em inglês com forte sotaque de sua língua materna, como um avô simpático contando uma história de ninar para seus netinhos.

Como em Visita ao Inferno, que abordou vulcões ao redor do planeta e deixou claro o quão diminuta é a Humanidade perto das forças da natureza, os objetos de observação de Fireball são os meteoritos ou, mais genericamente, os corpos celestes que caem na Terra. Herzog sempre atrás das câmeras e na narração – e, aqui, apenas uma única vez “interferindo” na narrativa -juntamente com Clive Oppenheimer, o vulcanólogo de Visita ao Inferno que passou a acompanhar o cineasta alemão em suas empreitadas, que é o “rosto” do documentário para os espectadores, o filme nos leva a todos os recantos do mundo, começando por uma cratera gigantesca na Austrália, viajando até Meca para ver a Pedra Negra, considerada por muitos como um fragmento de meteoro (mas que o Islã não deixa ninguém estudar), passando pela cratera apocalíptica no Golfo do México cujo meteoro que a causou os cientistas consideram como tendo sido o catalisador do fim dos dinossauros, chegando a um milharal na França, a caçadores de meteoros na Holanda e no Texas, um observatório na residência de verão do Papa à margem de um lago que existe na cratera de um meteoro em que um padre cientista (sim!) estuda os visitantes espaciais, o sistema de detecção de corpos celestes que eventualmente possam ameaçar a Terra no Havaí, um centro de pesquisas sul-coreano na vastidão gelada da Antártica e retornando ao Pacífico, em uma ilhota cuja população venera meteoros.

Em cada lugar para onde a produção vai, especialmente em comunidades pequenas, Herzog procura entender se e como a queda de meteoros e meteoritos influenciaram a mitologia local, passeando por todas as regiões com comentários muito francos sobre, por exemplo, o mais completo abandono e esquecimento do vilarejo de Chicxulub, na Península de Yucatán, considerado o epicentro do impacto do gigantesco meteoro que mudou a face do planeta há 66 milhões de anos ou como toda uma comunidade em uma ilhota do Pacífico construiu sua mitologia de vida e morte a partir das estrelas cadentes. Como já mencionei, apesar de os aspectos científicos se fazerem presentes, com belas imagens amplificadas das estruturas cristalinas de meteoros e explicações simplificadas do que eles são e como eles potencialmente trouxeram os elementos extraterrestres que tornaram a vida possível no planeta, a abordagem de Herzog é muito mais preocupada com uma espécie de comunhão entre a Humanidade e esses eventos, ou seja, como a região e a população local lida com eles, como é o caso do vilarejo aborígene próximo à cratera que escolhi para ilustrar a presente crítica usa o evento geológico para construir suas lendas e para inspirar sua arte.

Claro que, por vezes, mesmo nesse seu intento, Herzog não vai até onde poderia. Um dos mais claros exemplos disso é a entrevista conduzida por Clive com o padre cientista mencionado mais acima que há 30 anos estuda meteoros e meteoritos no observatório histórico de Castel Gandolfo, a casa de veraneio do papado. A conversa é amistosa e Clive ensaia mergulhar no eterno debate entre ciência e fé, mas o entrevistador nunca sai da zona de conforto, jamais realmente desafiando de verdade o clérigo. Da mesma maneira, a entrevista com os cientistas do observatório em Maui, no Havaí, que trabalham na detecção de eventuais ameaças ao planeta, assim como a responsável pelo respectivo departamento na NASA, podiam ter se beneficiado de detalhamentos maiores, já que a perspectiva de um evento apocalíptico como o ocorrido há dezenas de milhões de anos é algo no mínimo angustiante.

Por outro lado, Herzog é muito feliz ao lidar com os cientistas da base da Coréia do Sul na Antártica, capturando imagens belíssimas não só do surpreendente interior do local (é enorme!), como também da mais absoluta desolação gelada para onde ele e Clive vão para encontrarem-se com o cientista que os convidou a ir até lá. O foco é na incrível e verdadeira alegria dele e de sua equipe em fazer o que fazem e que poderia ser resumido de maneira crua a procurar pedras pretas que contrastam incrivelmente com o fundo branco, facilitando a detecção. Nesses momentos e também com o uso de filmagem de arquivo em que o cientista encontra um enorme fragmento e ri sem freios, somente para depois chorar de emoção, é que notamos as recompensas do árduo trabalho científico de campo. Chega a genuinamente emocionar, especialmente porque por acaso é Clive que encontra um grande artefato – o maior da temporada! – e por Herzog aproveitar uma sequência para dar uma fortíssima estocada nas escolas formalistas de cinema mundo afora ao conscientemente deixar no documentário uma cena que seria normalmente extirpada.

Mais uma vez, Herzog e Oppenheimer triunfam em olhar para nosso planeta como um lugar só, levando o espectador a regiões pouco visitadas e sequer lembradas para deixar não só clara nossa pequenez diante do cosmos, como também, ironicamente, a vastidão da Terra. Fireball, portanto, cumpre sua função de aguçar nossa curiosidade e de trazer um olhar humano e antropológico sobre o pequeno geoide em que vivemos.

Fireball: Mitos, Cometas e Meteoros (Fireball: Visitors from Darker Worlds – EUA, 2020)
Direção: Werner Herzog, Clive Oppenheimer
Roteiro: Werner Herzog
Com: Clive Oppenheimer, Werner Herzog, Jan Braly Kihle, Jon Larsen
Duração: 97 min.

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