Crítica | Fixação

Uma parte da crítica especializada alegou que Fixação, lançado em 2004, era uma apresentação de Atração Fatal para as plateias mais jovens. Com um arsenal de avaliações negativas, o filme conquistou excelente posicionamento nas bilheterias, mas foi um fracasso tremendo e tornou-se uma destas narrativas sobre “mulheres obcecadas” que ficavam nas prateleiras das videolocadoras (quando existiam) ou passavam nos sábados à noite como tramas quentes e repletas de momentos de tensão.

A comparação com o filme de Adrian Lyne, uma trama bem orquestrada e com a ótima dupla formada por Glenn Close e Michael Douglas, é apenas por sua aproximação temática. Fixação não chega nem perto do filme de 1987 e traz uma trama tão estéril que a tensão transforma-se em riso e a sensação é a de que os personagens estão tão perdidos quanto os atores que os interpretam. O que acompanhamos ao longo dos breves 85 minutos é uma adolescente desocupada que deveria estar engajada nos estudos da faculdade, ao invés de tentar arrancar praticamente à força um rapaz mais atraente da escola.

Se em Atração Fatal tínhamos o escritório, em Fixação a ambientação é o clima colegial. As salas de aula, as atividades esportivas, os hormônios em ebulição, elementos pormenorizados pelo roteiro irregular de Charles F. Bahl e Philip Schneider, oportunistas que juntamente com o cineasta John Polson, pois sabem da falta de qualidade do material e poderiam buscar alguma estratégia de revitalização, no entanto, preferem ficar na superfície, abusando de todos os clichês possíveis dos filmes deste subgênero.

No filme, Bem Cronin (Jesse Bradford) é um rapaz além do seu belo rosto e do seu corpo atraente. Inteligente, ele é um respeitado membro do time de natação da escola, o cara que chama à atenção das garotas, com seu futuro promissor e uma namorada meiga e atenciosa, Amy (Shiri Applebey). O problema começa quando certo dia, a desequilibrada e repulsiva Madison Belle (Erika Christensen) o coloca numa situação constrangedora e altamente erótica, daquelas que se configuram como uma escapada que só aconteceu porque nossos hormônios não aguentaram a pressão, sabe? O resultado vem em doses generosas de loucura: ele diz que foi só um momento, ela insiste que desejar ir além, há cenas que fazem ligação direta com o clássico de 1987, num espiral de confusões que culmina em sabotagens misteriosas nos exames do rapaz, anteriormente um exemplo, agora a vergonha da instituição, haja vista a acusação por uso de drogas, além da perda do emprego e da responsabilidade por ter causado um acidente de carro que quase ceifou a vida de sua namorada.

Diante do exposto, o leitor deve imaginar que há apenas duas possibilidades: assumir os erros e seguir adiante, reconstruindo outra vida em um lugar distante, ou então, lutar para comprovar a inocência e recuperar o emprego, a namorada e a confiança do treinador Simkins (Dan Hedaya), figura que o protagonista considera um mentor em sua trajetória.

O final, cheio de reviravoltas, quase transforma Madison em uma versão feminina de Jason ou Michael Meyers. Há uma lista imensa de excessos cometidos por um tipo de narrativa que precisa apelar quando não há muita coisa a se dizer. O resultado é muito abaixo da média. Até diverte por alguns instantes, mas de entretenimento “burro” nós, espectadores, estamos um pouco saturados, não é mesmo? Se você quiser ver um filme com atmosfera erótica e doses generosas de tensão, prefira rever constantemente a obra inspiradora de 1987, bastante atual e ainda muito atraente.

Fixação — (Swinfan) Estados Unidos, 2002.
Direção: John Polson
Roteiro:  Charles Bohl, Phillip Schneider
Elenco:  Clayne Crawford, Dan Hedaya, Erika Christensen, Jason Ritter, Jesse Bradford, Kate Burton, Kia Goodwin, Shiri Appleby
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.