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Crítica | Flash Gordon (1980)

por Ritter Fan
420 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3

Sem dúvida alguma, a característica mais marcante da primeira versão cinematográfica de Flash Gordon é a inusitada – e sensacional – trilha sonora composta por ninguém menos do que o Queen, super-grupo britânico então no auge de sua fama e que lançara, no mesmo ano, o álbum The Game. Mas Flash Gordon é ao mesmo tempo mais e menos do que sua trilha sonora, sendo um dos raros exemplos de filmes que, se forem revistos pelos adultos que o assistiram pela primeira vez quando crianças, consegue sobreviver à mais inclemente crítica.

Claro que a trilha sonora é responsável por grande parte do apelo nostálgico da fita e por sua, digamos, importância histórica, mas sua gênese desavergonhadamente camp – ou brega, para falar português claro –  é de um charme irresistível, mesmo que saibamos que as atuações são tenebrosas, que os efeitos especiais são ruins mesmo para a época em que foram feitos e que o roteiro mais parece uma colcha de retalhos. Mas é que essa releitura do personagem criado por Alex Raymond, em 1934, na verdade, não é uma releitura e sim uma clara e direta homenagem aos quadrinhos do autor e, também, aos famosos serials dos anos 30, especialmente o primeiro, Flash Gordon no Planeta Mongo.

O famoso produtor italiano Dino de Laurentiis era, nas décadas anteriores ao lançamento, detentor dos direitos de adaptação do personagem e ele queria Federico Fellini na direção, que efetivamente chegou a entabular conversas com o produtor e a exercer o direito de opção de dirigir o filme. Mas o projeto não seguiu adiante (uma pena, pois seria interessantíssimo ver a pegada de Fellini sobre um material tão diferente das obras dele). George Lucas – sim, ele mesmo – tentou adquirir os direitos de De Laurentiis na década de 70, mas não conseguiu, decidindo então partir para seu “pequeno” projeto próprio, Star Wars (imaginem, caros fãs, se Lucas tivesse conseguido os direitos, talvez Star Wars não existisse!). O próximo da lista foi o britânico Nicolas Roeg (diretor dos excelentes A Longa Caminhada e Inverno de Sangue em Veneza), fã de Alex Raymond e que reescreveu o roteiro, o que gerou rusgas entre ele e De Laurentiis e que culminou em sua saída. Em seguida, o produtor procurou Sergio Leone , mas ele não aceitou, pois surpreendentemente considerou  o roteiro pouco fiel à criação de Alex Raymond (mais um diretor que eu pagaria para ver dirigindo ficção científica). Sem saída, De Laurentiis acabou contratando Mike Hodges, do clássico Carter – O Vingador e que vinha de uma ficção científica razoável – O Homem Terminal – seis anos anos antes e que dirigira parte de Damien: A Profecia II, em 1978, até ser defenestrado pela produção.

O roteiro ficou ao encargo de Lorenzo Semple Jr., que escrevera os ótimos Papillon (1973) e Três Dias do Condor (1975), além do tenebroso remake de King Kong, em 1976. A diretiva de De Laurentiis era clara: ele queria humor, que o filme se parecesse com o material fonte. O problema é que, para o produtor, “parecer com quadrinhos” efetivamente significava ser engraçado, algo que Flash Gordon nunca foi, mas o roteirista, bebendo diretamente da fonte, fez o que pode dentro desse estranho conceito, criando uma história de origem e primeira aventura de Flash Gordon no planeta Mongo exatamente como Alex Raymond desenhara e escrevera quase 50 anos antes. O resultado, como disse, pode causar arrepios em muitos hoje em dia pela mais pura “ruindade” de tudo que é visto na tela, mas o mero fato de a película ser uma espécie de serial dos anos 30 em plenos anos 80 (a década dos filmes inesquecíveis de ação, não é verdade?) já merece aplausos. E o espectador que simplesmente esnobar o filme como uma porcaria qualquer não terá capturado a essência do que se tentou fazer.

Como todo mundo que não mora em uma caverna sabe muito bem, Flash Gordon conta a história do herói do título (Sam J. Jones), um jogador de futebol americano que, junto com a repórter Dale Arden (Melody Andeson), é “sequestrado” pelo amalucado Dr. Hans Zarkov (Chaim Topol). A Terra está sendo afetada pela proximidade do planeta Mongo e o desacreditado doutor quer usar seu foguete para investigar o que está acontecendo. Chegando ao planeta, os três são logo levados à majestosa presença do Imperador Ming, o Impiedoso (Max von Sydow) que logo se interessa por Dale e pelo intelecto do Dr. Zarkov. Flash, por sua vez, é alvo da lascívia da Princesa Aura (Ornella Muti), que o ajuda a escapar depois da inesquecível sequência em que o herói usa “ovos” cerimoniais para derrubar o exército de Ming em uma espécie de jogo de futebol americano letal. A partir dali, o roteiro é como uma corrida de obstáculos em que Flash conhece o Príncipe Barin (Timothy Dalton), pretendente à mão de Aura e o avantajado e alado Príncipe Vultan, que se tornariam seus aliados para derrubar o Imperador.

É, em poucas palavras, diversão do começo ao fim. Uma diversão boba (estúpida até), extremamente colorida e mal-atuada (nem Max von Sydow consegue escapar da mais completa caricatura) e com figurinos que cosplayers fazem muito melhor sem qualquer esforço.  Faz-se necessário entrar no espírito da obra e se deixar levar pela magnética e excitante trilha do Queen (sei que você está cantando mentalmente “Flash – a-ah!!!”…) e pela canastrice loira de Sam J. Jones e pela beleza brega de Melody Andeson e Ornella Mutti em suas roupas de odaliscas e maquiagem de circo. Nada funciona de verdade, mas tudo estranhamente se encaixa na proposta de Semple Jr. e na direção burocrática de Hodges, o que acabou contribuindo para a imortalidade da produção ao ponto de ela ser referenciada em diversas outras mídias e de receber gigantesca e hilária homenagem em Ted, de 2012, homenagem essa que deixou muita gente mais nova sem entender patavinas, mas curiosa para descobrir quem raios era aquele ator decadente e que “Jet Ski” voador dos infernos ele pilotava…

Flash Gordon é um daqueles estranhos exemplares cinematográficos inexplicáveis, que simplesmente tem que ser visto (com o espírito certo) para ser devidamente compreendido. Ajuda, claro, se o espectador tiver lido as tiras originais de Raymond ou ao menos assistido a algum serial dos anos 30. Ou simplesmente gostar do Queen

Flash Gordon (Idem, EUA/Reino Unido – 1980)
Direção: Mike Hodges
Roteiro: Lorenzo Semple Jr., Michael Allin (baseado em personagens criados por Alex Raymond)
Elenco: Sam J. Jones, Melody Anderson, Max von Sydow, Chaim Topol, Ornella Muti, Timothy Dalton, Brian Blessed, Peter Wyngarde, Mariangela Melato, John Osborne, Richardo O’Brien
Duração: 111 min.

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30 comentários

elioricardoalves 16 de dezembro de 2020 - 14:42

Vai me desculpar o filme e um Lixo a bilheteria nem pagou o filme nos brinquedos devem ter faturado algum star wars O IMPÉRIO CONTRA ATACA da de dez nesse filme

Responder
planocritico 16 de dezembro de 2020 - 14:43

Lá vem você de novo comparar Flash Gordon com Império Contra-Ataca. Muda o disco!

– Ritter.

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elioricardoalves 16 de dezembro de 2020 - 16:49

Vou repetir você e outros devem ter gostado eu achei péssimo difícil até de passar na TV

Responder
Leonardo Marques 27 de dezembro de 2018 - 05:19

Sobre essa ideia do De Laurentiis querer um “filme de quadrinhos engraçado”, acho que isso influenciou na escolha do roteirista, já que o Lorenzo estava envolvido naquela famosa (e muito legal, na minha opinião) série do Batman dos anos 60. De qualquer forma, eu o assisti com uma dublagem muito antiga (com direito a cortes nas cenas importantes e tudo) e até achei impressionante a produção, apesar de que não entendi absolutamente nada da história mesmo assistindo mais algumas vezes.

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planocritico 28 de dezembro de 2018 - 16:06

Pô, mas aí não vale! Cata para assistir o filme completo com as vozes originais! É muito divertido!

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 10 de maio de 2018 - 10:28

A bilheteria desse filme foi de 27.1 milhões contra um orçamento de 20. Ou seja, deu prejuízo. Mas eram outros tempos. Hoje uma pegada moderna e séria poderia encontrar seu nicho.

Abs,
Ritter.

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elioricardoalves 10 de maio de 2018 - 16:08

É eu concordo outro que não foi tão bem o HE-MAN achei que seria uau não foi

Em Qui, 10 de mai de 2018 09:28, Disqus escreveu:

Responder
Kajisan1 . 9 de setembro de 2016 - 00:47

“sei que você está cantando mentalmente “Flash – a-ah!!!”. – Sim! Eu estava, no momento que li essa frase! kkkkkkkkkkk
Concordo, Flash Gordon é um filme que é preciso ser assistido com o senso de exigência adequado, do mesmo jeito que se assiste um tokusatsu.
Como foi dito, esse filme, descaradamente, tenta ter a mesma energia dos quadrinhos e seguir o mais fiel possível o material fonte, e isso é louvável, pois muuuito poucos roteiristas fazem o mesmo em filmes de heróis e, só por isso, Flash Gordon é um filme único. Nunca mais existirá um filme como ele.
Sei que vc deu essas 3 estrelas avaliando ele como um filme convencional, mas, caramba, é difícil de avaliar esse filme! Como vc disse, tem uma coisa especial nele que parece conspirar a favor pra que tudo que vc vê na tela seja justificada para compor o conjunto da obra! E, sério, não estou brincando, eu realmente acho legal esse filme(“Flash ahhhhh!”).

Obs: nos quadrinhos o Flash Gordon era um jogador de polo. Foi bem-vinda a mudança para jogador de futebol americano. Polo é muito aristocrático hehehe

Responder
planocritico 10 de setembro de 2016 - 03:30

@kaji_san:disqus , eu adoro Flash Gordon. Cresci com esse filme. Passei a idolatrar o Queen por causa dele. Ele é divertido mesmo hoje em dia, mas tenho que reconhecer seus diversos problemas, como abordei na crítica. Uma coisa é gostar, outra é abordar o filme como um filme. São coisas diferentes, mas que podem andar lado a lado. E 3 estrelas não é, no final das contas, uma nota ruim.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 10 de setembro de 2016 - 03:30

@kaji_san:disqus , eu adoro Flash Gordon. Cresci com esse filme. Passei a idolatrar o Queen por causa dele. Ele é divertido mesmo hoje em dia, mas tenho que reconhecer seus diversos problemas, como abordei na crítica. Uma coisa é gostar, outra é abordar o filme como um filme. São coisas diferentes, mas que podem andar lado a lado. E 3 estrelas não é, no final das contas, uma nota ruim.

Abs,
Ritter.

Responder
Kajisan1 . 9 de setembro de 2016 - 00:47

“sei que você está cantando mentalmente “Flash – a-ah!!!”. – Sim! Eu estava, no momento que li essa frase! kkkkkkkkkkk
Concordo, Flash Gordon é um filme que é preciso ser assistido com o senso de exigência adequado, do mesmo jeito que se assiste um tokusatsu.
Como foi dito, esse filme, descaradamente, tenta ter a mesma energia dos quadrinhos e seguir o mais fiel possível o material fonte, e isso é louvável, pois muuuito poucos roteiristas fazem o mesmo em filmes de heróis e, só por isso, Flash Gordon é um filme único. Nunca mais existirá um filme como ele.
Sei que vc deu essas 3 estrelas avaliando ele como um filme convencional, mas, caramba, é difícil de avaliar esse filme! Como vc disse, tem uma coisa especial nele que parece conspirar a favor pra que tudo que vc vê na tela seja justificada para compor o conjunto da obra! E, sério, não estou brincando, eu realmente acho legal esse filme(“Flash ahhhhh!”).

Obs: nos quadrinhos o Flash Gordon era um jogador de polo. Foi bem-vinda a mudança para jogador de futebol americano. Polo é muito aristocrático hehehe

Responder
Heleno Junior 24 de agosto de 2016 - 18:35

Sinceramente esse filme é tão idiota que faria o próprio Ed Wood ficar envergonhado.É preciso estar de muito bom humor ou como diz a crítica,entrar no clima do filme e ter uma paciência extrema para se chegar ao seu final.

Responder
Heleno Junior 24 de agosto de 2016 - 18:35

Sinceramente esse filme é tão idiota que faria o próprio Ed Wood ficar envergonhado.É preciso estar de muito bom humor ou como diz a crítica,entrar no clima do filme e ter uma paciência extrema para se chegar ao seu final.

Responder
planocritico 24 de agosto de 2016 - 19:45

Entendo, mas não acho esse filme idiota não, simplesmente porque ele não se leva a sério. Se se levasse, aí a conversa seria outra. Ele é a perfeita homenagem aos serials dos anos 30 e 40 e precisa ser assistido com isso na cabeça.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 24 de agosto de 2016 - 19:45

Entendo, mas não acho esse filme idiota não, simplesmente porque ele não se leva a sério. Se se levasse, aí a conversa seria outra. Ele é a perfeita homenagem aos serials dos anos 30 e 40 e precisa ser assistido com isso na cabeça.

Abs,
Ritter.

Responder
elioricardoalves 9 de maio de 2018 - 18:39

Eu concordo e bem ruim e aquela história de gosto mais guerra nas estrelas da um banho refiro-me a o Império contra ataca foi show estar lá para ver

Responder
planocritico 9 de maio de 2018 - 18:43

Mas eu não acho nem possível comparar Império com Flash Gordon…

– Ritter.

Responder
elioricardoalves 9 de maio de 2018 - 21:10

É o que disse e questão do gosto das pessoas eu vi flash Gordon não gostei do filme se outros gostaram tudo bem

Responder
Anônimo 23 de janeiro de 2016 - 21:46

Interessante. Será que um remake com uma trama séria de sci fi daria certo?

Responder
planocritico 24 de janeiro de 2016 - 15:07

Não necessariamente um remake, mas um filme sério sobre o Flash Gordon poderia sim funcionar!

Abs,
Ritter.

Responder
elioricardoalves 9 de maio de 2018 - 18:41

Pelo que li acima eles queriam algo sério outro humor ai deu no que deu

Responder
elioricardoalves 9 de maio de 2018 - 18:44

E alguém sabe responder? como foi a bilheteria na época de flash gordon?

Responder
elioricardoalves 16 de dezembro de 2020 - 16:49

Infelizmente para quem gostou deu prejuízo muita gente lembra da música do saudoso queem

Responder
planocritico 16 de dezembro de 2020 - 16:49

Aprenda uma coisa: bilheteria não tem relação com qualidade.

– Ritter.

elioricardoalves 16 de dezembro de 2020 - 16:51

Se tivesse teriam feito outro he man infelizmente foi fracasso o protagonista disse a época que nunca mais faria outro de novo mesmo hoje tem muitos filmes e fracasso de bilheteria ver o planeta das mil cidades acho que e isso deu o maior prejuízo

Adriano De Arruda Botelho 5 de dezembro de 2015 - 22:36

Lembrando que Flash Gordon foi plágio de Buck Rogers.

Responder
planocritico 6 de dezembro de 2015 - 01:45

Olha, que Flash Gordon foi inspirado na ideia genérica de “exploração espacial” de Buck Rogers e foi criado para concorrer com Buck Rogers eu não tenho dúvida, mas daí a dizer que é plágio eu diria que é uma distância bem grande. Plágio, para ser configurado, exige mais do que o reaproveitamento de uma ideia ou conceito e Flash Gordon tem personagens e mitologia próprios e bem diferentes de Buck Rogers. Se fosse assim, Buck Rogers também seria plágio de Uma Princesa de Marte e outras obras anteriores com o mesmo tipo de ideia.

Abs,
Ritter.

Responder
paulo ricardo 5 de dezembro de 2015 - 18:22

Adoro Queen , mas Flash Gordon é muito ruim , vi aqui em POA n cine cacique n lançamento em 80 ! Ritter o King Kong de 76 é ruim mas o q falar da maravilhosa Jessica Lange , q coxas hhehehehheheh

Responder
planocritico 5 de dezembro de 2015 - 21:14

Ah, não é não, vai! Tem que ver no espírito da coisa, basicamente uma homenagem aos sensacionais seriais dos anos 30 e 40! Vale até a pena ver o primeiro serial do Flash Gordon para ganhar essa perspectiva, caso não tenha visto.

Sobre King Kong 76, sim, Jessica Lange – sensacionalmente sensual – é o que salva aquele filme do lixo total…

Abs,
Ritter.

Responder
elioricardoalves 16 de dezembro de 2020 - 16:49

Olha se tivesse feito algo legal para a época talvez fosse melhor na bilheteria fizeram algo muito escrachado tudo bem que pessoas gostaram eu particularmente não gostei muito não

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