Crítica | Fleabag – 1ª Temporada

Fleabag - 1ª Temporada PLANO CRITICO SÉRIE

Quando criou Fleabag, em 2016, Phoebe Waller-Bridge tinha no currículo o trabalho como produtora e escritora da fantástica série Crashing (2016) e uma pequena passagem pelos roteiros de Drifters (2013 – 2016), além de seus trabalhos como atriz, claro. Fleabag, no entanto, foi um ponto de virada em sua carreira, em termos de amadurecimento e temáticas que ela traz para o público, nunca deixando de jogar pesado, abordar situações constrangedoras ou tensas e ainda fazer graça nos momentos mais estranhos possíveis.

Numa medida de tormentos psicológicos e emocionais, sua Fleabag me lembrou os atormentados personagens de Please Like Me, constantemente em uma relação complicada — mas nunca indiferente — com a família, além de expor atitudes moralmente questionáveis da protagonista, seus vícios e outras formas de lidar com a solidão e a angústia que a consome, coisas das quais descobrimos o ponto de virada (para pior) no último episódio desta primeira temporada da série. Com um formato de conversa com o público, com quebra de quarta parede um pouco mais intensa no início e de maneira bem mais leve e orgânica no fim, o show nos apresenta crônicas da vida da personagem, que tenta sobreviver em Londres gerenciando um Café, ao mesmo tempo que lida com as consequências de uma tragédia em sua vida.

Phoebe Waller-Bridge é definitivamente o tipo de atriz perfeita para esse papel. Fleabag é irônica, cínica, intragável, imprevisível e não é qualquer atriz que consegue segurar uma personagem tão “insuportável” assim durante seis episódios sem fazer com que ela atrapalhe o show e faça o espectador querer desistir de vê-la. Ao contrário, na verdade. Por mais difícil de digerir que Fleabag seja (na verdade, à exceção da falecida Boo, interpretada pela cativante Jenny Rainsford, todo mundo nessa temporada é difícil de digerir) a maneira como ela é construída e a forma como Waller-Bridge escreve os diálogos para todo mundo torna as coisas imensamente interessantes, aquele tipo de show que nos faz sentir vergonha alheia e ao mesmo tempo não perder o fascínio pela estranheza de tudo o que está acontecendo na tela, uma característica que também vemos nos textos da autora para Killing Eve, por exemplo, só que dentro de outro gênero.

O sexo aqui é um assunto bastante importante e permeia as decisões de Fleabag como sublimação de seus problemas. No Finale da temporada, o espectador tem uma boa noção do desespero e desprezo que ela tem para com tudo o que ela realmente é, pensa e faz, exceto o sexo. E justamente por ter o corpo como “a maior coisa de valor”, a personagem se vê atormentada pelo fato de envelhecer. Colocada à parte a sua libido, Fleabag é apenas um saco de remorso e confusão, o que não significa que ela faz tudo errado o tempo todo (embora pense assim), mas que sua aproximação em relação à maioria dos assuntos dá uma aparência de desastre, de algo que poderia ser feito de outra forma. Bom… com exceção de sua relação com a madrinha/madrasta interpretada pela incrível Olivia Colman.

Inseguranças, desejos e tentativas de ser feliz são linhas centrais dessa temporada, que serve como uma longa apresentação para a vida dessa mulher viciada em sexo, cheia de medos e que parece nunca encontrar seu lugar no mundo. Sem inventar muito, o principal diretor do ano, Harry Bradbeer, procurou jogar com a simplicidade na maioria do tempo (com exceção do episódio com a Sexposition, onde ele ousa mais), sendo amparado por uma montagem afiadíssima e uma boa variação da direção de fotografia entre o presente e os flashbacks, dualidade que mesmo aparecendo por tão pouco tempo ao longo dos episódios, dá o seu recado e deixa claro para o espectador o por quê da morte de Boo ter uma importância tão grande para a vida de Fleabag e o estágio em que ela se encontra no momento.

O espectador não deve esperar aqui uma série de humor fácil, com temáticas leves ou o tempo inteiro irônicas. A autodepreciação, a tragédia, a depressão, co-dependência e tantos outros temas e problemas são trabalhados de forma direta, cortados por um riso amargo (mas genuíno) no meio de todo esse tsunami de sentimentos. Um pedaço da vida que chega a nos incomodar de tão próximo que chegam de nós, ao menos em alguns aspectos. É aquela coisa dos humanos: se sacudir um pouco, todos deixarão cair suas pulgas pela estrada da vida afora.

Fleabag – 1ª Temporada (Reino Unido, 2016)
Criadora: Phoebe Waller-Bridge
Direção: Harry Bradbeer, Tim Kirkby
Roteiro: Phoebe Waller-Bridge
Elenco: Phoebe Waller-Bridge, Ben Aldridge, Jamie Demetriou, Hugh Skinner, Hugh Dennis, Sian Clifford, Sean Richards-Mulzac, Jenny Rainsford, Bill Paterson, Olivia Colman, Brett Gelman, Kevin McNally, Jeff Mirza, Anthony Welsh, London Hughes, Camilla Roholm, Jenny Galloway, Adam Ewan, Kae Alexander
Duração: 6 episódios de 23 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.