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Crítica | Fleabag – 1ª Temporada

por Luiz Santiago
1008 views (a partir de agosto de 2020)

Quando criou Fleabag, em 2016, Phoebe Waller-Bridge tinha no currículo o trabalho como produtora e escritora da fantástica série Crashing (2016) e uma pequena passagem pelos roteiros de Drifters (2013 – 2016), além de seus trabalhos como atriz, claro. Fleabag, no entanto, foi um ponto de virada em sua carreira, em termos de amadurecimento e temáticas que ela traz para o público, nunca deixando de jogar pesado, abordar situações constrangedoras ou tensas e ainda fazer graça nos momentos mais estranhos possíveis.

Numa medida de tormentos psicológicos e emocionais, sua Fleabag me lembrou os atormentados personagens de Please Like Me, constantemente em uma relação complicada — mas nunca indiferente — com a família, além de expor atitudes moralmente questionáveis da protagonista, seus vícios e outras formas de lidar com a solidão e a angústia que a consome, coisas das quais descobrimos o ponto de virada (para pior) no último episódio desta primeira temporada da série. Com um formato de conversa com o público, com quebra de quarta parede um pouco mais intensa no início e de maneira bem mais leve e orgânica no fim, o show nos apresenta crônicas da vida da personagem, que tenta sobreviver em Londres gerenciando um Café, ao mesmo tempo que lida com as consequências de uma tragédia em sua vida.

Phoebe Waller-Bridge é definitivamente o tipo de atriz perfeita para esse papel. Fleabag é irônica, cínica, intragável, imprevisível e não é qualquer atriz que consegue segurar uma personagem tão “insuportável” assim durante seis episódios sem fazer com que ela atrapalhe o show e faça o espectador querer desistir de vê-la. Ao contrário, na verdade. Por mais difícil de digerir que Fleabag seja (na verdade, à exceção da falecida Boo, interpretada pela cativante Jenny Rainsford, todo mundo nessa temporada é difícil de digerir) a maneira como ela é construída e a forma como Waller-Bridge escreve os diálogos para todo mundo torna as coisas imensamente interessantes, aquele tipo de show que nos faz sentir vergonha alheia e ao mesmo tempo não perder o fascínio pela estranheza de tudo o que está acontecendo na tela, uma característica que também vemos nos textos da autora para Killing Eve, por exemplo, só que dentro de outro gênero.

O sexo aqui é um assunto bastante importante e permeia as decisões de Fleabag como sublimação de seus problemas. No Finale da temporada, o espectador tem uma boa noção do desespero e desprezo que ela tem para com tudo o que ela realmente é, pensa e faz, exceto o sexo. E justamente por ter o corpo como “a maior coisa de valor”, a personagem se vê atormentada pelo fato de envelhecer. Colocada à parte a sua libido, Fleabag é apenas um saco de remorso e confusão, o que não significa que ela faz tudo errado o tempo todo (embora pense assim), mas que sua aproximação em relação à maioria dos assuntos dá uma aparência de desastre, de algo que poderia ser feito de outra forma. Bom… com exceção de sua relação com a madrinha/madrasta interpretada pela incrível Olivia Colman.

Inseguranças, desejos e tentativas de ser feliz são linhas centrais dessa temporada, que serve como uma longa apresentação para a vida dessa mulher viciada em sexo, cheia de medos e que parece nunca encontrar seu lugar no mundo. Sem inventar muito, o principal diretor do ano, Harry Bradbeer, procurou jogar com a simplicidade na maioria do tempo (com exceção do episódio com a Sexposition, onde ele ousa mais), sendo amparado por uma montagem afiadíssima e uma boa variação da direção de fotografia entre o presente e os flashbacks, dualidade que mesmo aparecendo por tão pouco tempo ao longo dos episódios, dá o seu recado e deixa claro para o espectador o por quê da morte de Boo ter uma importância tão grande para a vida de Fleabag e o estágio em que ela se encontra no momento.

O espectador não deve esperar aqui uma série de humor fácil, com temáticas leves ou o tempo inteiro irônicas. A autodepreciação, a tragédia, a depressão, co-dependência e tantos outros temas e problemas são trabalhados de forma direta, cortados por um riso amargo (mas genuíno) no meio de todo esse tsunami de sentimentos. Um pedaço da vida que chega a nos incomodar de tão próximo que chegam de nós, ao menos em alguns aspectos. É aquela coisa dos humanos: se sacudir um pouco, todos deixarão cair suas pulgas pela estrada da vida afora.

Fleabag – 1ª Temporada (Reino Unido, 2016)
Criadora: Phoebe Waller-Bridge
Direção: Harry Bradbeer, Tim Kirkby
Roteiro: Phoebe Waller-Bridge
Elenco: Phoebe Waller-Bridge, Ben Aldridge, Jamie Demetriou, Hugh Skinner, Hugh Dennis, Sian Clifford, Sean Richards-Mulzac, Jenny Rainsford, Bill Paterson, Olivia Colman, Brett Gelman, Kevin McNally, Jeff Mirza, Anthony Welsh, London Hughes, Camilla Roholm, Jenny Galloway, Adam Ewan, Kae Alexander
Duração: 6 episódios de 23 min.

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15 comentários

Cesar 10 de outubro de 2019 - 14:38

Cara, eu amei esse série. Tracei as duas seasons em um dia. Num pulo. Incrível como em um episódio eu ja estava apaixonado pela protagonista, e nunca tinha visto nada da Phoebe. Quanto talento. Espero que dure por mais algumas temporadas.

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 10 de outubro de 2019 - 16:33

Já era. A série foi pensada apenas para duas temporadas.

Desculpa pisotear seus sonhos. hahahahahahahaha

Responder
Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 10 de outubro de 2019 - 16:33

Já era. A série foi pensada apenas para duas temporadas.

Desculpa pisotear seus sonhos. hahahahahahahaha

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Cesar 10 de outubro de 2019 - 18:04

Oh loko, Luís. Mas tu não acha que ela é do tipo de série que facilmente pode continuar “além dos planos iniciais? Ainda mais depois da cacetada de prêmios no emmy??

De toda forma, já vou atrás das outras coisas que ela escreveu/produziu/atuou.

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 10 de outubro de 2019 - 23:29

Rapaz, boatos começaram a correr sobre isso e a própria Phoebe meio que fez piado sobre “se arrepender” de ter dito desde o começo que só iria fazer duas temporadas.

Mas até segunda ordem é isso mesmo. Se vier algo além, com certeza será fora do previsto e para surfar na onda dos Emmys. E a gente agradece, né.

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Fernanda Siqueira 9 de janeiro de 2020 - 19:15

Acabei de assistir em duas tacadas, rs… ontem e hj, maratonei, e me apaixonei por ela e pelo padre tb…

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 10 de janeiro de 2020 - 08:25

Não tem como não se apaixonar.

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Daniel Barros 10 de outubro de 2019 - 13:26

A série parece mais voltada para drama do que comédia. Ao menos no primeiro episódio.
Atuação da Phoebe está sensacional, mas ainda não achei as 5 estrelas.

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 10 de outubro de 2019 - 14:31

É o humor britânico que confunde a gente. O tom geral é mesmo de maior peso para o drama, mas a veia cômica está lá o tempo todo.

Só não entendi se você viu a temporada inteira ou não. Você citou especificamente o primeiro episódio.

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Daniel Barros 10 de outubro de 2019 - 17:43

Ainda no primeiro episódio..

Maldita hora que fui olhar o face antes de dormir e logo em destaque vem é exibida uma crítica sobre essa série que já estava na lista do tv time…e o pior: 5 estrelas do cara que indica a Bates Motel…

Hoje, enquanto não saiu o próximo episódio da The Terror, The Deuce, Mr Robot, acabei indo de Fleabag…

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 10 de outubro de 2019 - 23:29

Nós somos uma má (boa) influência hahahahahahahhah

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Celso Ferreira 10 de outubro de 2019 - 10:41

Já assisti a série toda.
É muito boa, mas superestimada.
É bem executada. A quebra da quarta parede ficou ótima. A mistura de drama e comédia é o melhor da série. Aborda temas delicados que eu gosto.
É interessante como a pessoa se torna autodepreciativa como forma de defesa contra a realidade, as responsabilidades e as críticas interiores e exteriores.
Porém não me adaptei com a contação da história em si. Faltou formar um clímax e faltou um desfecho definido. A série é pura aleatoriedade.
Mas só em ser uma série emocionalmente inteligente já valeu a pena.

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 10 de outubro de 2019 - 11:38

Não vejo nenhum traço dessa “pura aleatoriedade” que você citou, tampouco senti a necessidade de desfecho definido. Na minha leitura, se terminasse aqui na 1ª Temporada, a série terminaria muitíssimo bem. Como é um show no formato de crônica de uma vida, o final maleável é parte coerente do jogo. Também não acho que a série é superestimada. Achoa-a estimada na medida certa.

Mas concordamos em duas coisas: que é uma série emocionante e inteligente e como essa questão depreciativa da personagem está ali marcando território em algo bem mais sério para ela. Infelizmente é algo que vemos bastante no nosso dia a dia.

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planocritico 9 de outubro de 2019 - 00:51

1. Maldito usurpador!!!!!!!!!!!!

2. A cena dela em frente à parede de falos da madrastra foi espetacular. Chorei de rir dela reconhecendo sem querer o do pai!

Abs,
Ritter.

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 9 de outubro de 2019 - 08:18

Essa sequência da sexposition é hilária mesmo.

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