Crítica | Fleabag – 2ª Temporada

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Quando a gente chega ao final desta 2ª Temporada de Fleabag, fica muito claro o por quê de Phoebe Waller-Bridge ter dito inúmeras vezes, desde 2016, que havia pensado a série apenas em duas temporadas. Independente do arrependimento dela ou da “pressão amiga” da BBC que porventura gerem um terceiro ano (especialmente após o sucesso no Emmy 2019), o fato é que o projeto inicial de duas temporadas faz todo o sentido aqui. E até segunda ordem, é um incrível final para uma série sobre fuga dos próprios sentimentos, sobre busca da felicidade, de paz, de algum descanso… e sobre reconectar-se.

O tom do excelente primeiro episódio é a grande pista em relação à temática do ano: o amor. A passagem do tempo também é um ponto de destaque no processo. Ela se dá de maneira simples, retirando de cena a necessidade de um contexto imediato para mudanças e abrindo caminhos para que o espectador veja “tudo diferente e, ao mesmo tempo, igual”. O fato é que o recurso teatral — vale lembrar que a série é adaptação da bem-sucedida peça de Phoebe Waller-Bridge — está bem aplicado na construção narrativa e os roteiros dos seis episódios dão facilmente conta dessa passagem do tempo, apresentando mudanças que fazem sentido dentro do espaço de pouco mais de um ano transcorrido (diegeticamente) entre o final da 1ª e o início da 2ª temporada do show. E tudo recomeça com um jantar de noivado, por assim dizer, onde a família conhece o padre que irá celebrar o casamento do pai e da madrasta de Fleabag, um papel confiado ao excelente Andrew Scott.

Quando uma obra aborda o amadurecimento ou a mudança de personagens, é sempre importante que o texto faça o novo momento ter os seus próprios desafios para confrontar os indivíduos e, a partir daí, o espectador comprovar por si mesmo a mudança. Nesta temporada, Fleabag está, em inúmeros sentidos, diferente. Sua abordagem para as coisas é bem similar àquela que já conhecemos. O que muda é a sua visão de mundo. Dessa forma, somos fisgados imediatamente para o plot da temporada, procurando descobrir os desdobramentos desse novo olhar e justamente por isso é que o primeiro episódio tem o peso necessário para estabelecer todas as ideias. A maneira como Fleabag reage à infâmia do cunhado, seu silêncio na maior parte da noite e sua reação cada vez mais simpática à figura do padre se estendem pelos capítulos seguintes e marcam a relação entre os dois, afastados pelas crenças e unidos por um sentimento inesperado e cada vez mais forte. Em torno deles, alguns dramas amorosos ou de experimentos apaixonados acontecem (com seu pai e sua irmã) e para eles, as conversas, os encontros, a estranheza e a dificuldade/impossibilidade do relacionamento se torna a coisa mais interessante do encontro, porque abre possibilidades dramáticas e dá um peso bem maior para o que deve acontecer no final.

Até a quebra da quarta parede recebe uma mudança importante e, juntamente com o ritmo de toda a temporada, tem cortes precisos, com início e fim bem colocados dentro de uma sequência. O padre é o único que percebe um “desaparecimento” de Fleabag toda vez que se conecta com o nosso Universo, uma das melhores sacadas da temporada, que também tem o seu McGuffin simbólico na figura da raposa que persegue o religioso, como um lembrete ameaçador cobrando-lhe atenção. É o tipo de símbolo que dá uma camada de interpretação poética ou fabular à questão, linha de análise bastante curiosa quando levamos em consideração que um de seus dilemas é justamente uma armadilha do Cupido, um “amor impossível”  que se apresenta para um homem que escolheu Deus e para uma mulher que já tinha desistido de de muitas coisas na vida, inclusive de amar. Toda essa construção se afunila para um final poderoso, doloroso, realista.

A temporada se abre com uma promessa e termina com uma despedida. A nossa impressão de que algo grandioso se ergueu e se concluiu é plena, e tudo isso ocorre em apenas seis episódios, todos dirigidos de maneira elogiável e editados com perfeição. A química entre Phoebe Waller-Bridge e Andrew Scott é algo difícil de se colocar em palavras, apenas vale dizer que a dupla conseguiu incorporar a grandeza do texto e torná-lo definitivamente inesquecível. Sem facilidades, esta temporada de Fleabag mostra que mesmo para os desesperançados ou para os que não contam com o amor, o sentimento pode aparecer e fazer a sua pequena revolução, tomando tudo de assalto e deixando um largo rastro de coisas para se lembrar, sentir e recolocar no lugar. O que vem daí para frente já não importa. O que importa agora é que se tem esperança.

Fleabag – 2ª Temporada (Reino Unido, 2019)
Criadora: Phoebe Waller-Bridge
Direção: Harry Bradbeer
Roteiro: Phoebe Waller-Bridge
Elenco: Phoebe Waller-Bridge, Olivia Colman, Andrew Scott, Maddie Rice, Mark Christian Subias, Ben Aldridge, Jenny Rainsford, Sian Clifford, Brett Gelman, Bill Paterson, Ty Hurley, Fiona Shaw, Eileen Dunwoodie, Jo Martin, Amelda Brown, Michael Mears, David Hargreaves, Hugh Skinner, Angus Imrie, Kristin Scott Thomas, Jenny Robins, Nicola Alexis, Christian Hillborg, Sarah Hammond, Manpreet Bachu, Rebecca Johnson, Harry Bradbeer, Hugh Dennis, Kadiff Kirwan, Ray Fearon, Kae Alexander
Duração: 6 episódios de 23 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.