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Crítica | Fogos de Artifício

por Kevin Rick
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Em 1994, Takeshi Kitano sofreu um acidente de moto, deixando parte de seu rosto temporariamente paralisado, além de ter passado por vários meses de recuperação, na onde o cineasta japonês buscou uma maneira de passatempo/distração com o pontilhismo – técnica de pintura com pequenos pontos ou manchas de cor, justapostos para criar uma espécie de ilusão de óptica ao vermos os pequenos sinais assumirem uma forma completa. Tal acontecimento extra-fílmico é importante, pois Kitano utiliza Fogos de Artifício para contextualizar seu cenário de quase-morte e a busca por uma experiência “colorida” e feliz através de contrastes; destruição (violência) e renovação (arte e amor).

A trama que acompanha Nishi (Kitano), um policial que recentemente perdeu sua filha e agora atravessa o diagnóstico de que sua esposa tem leucemia, e também seu parceiro Horibe (Ren Ôsugi) que foi abandonado pela mulher e filha após ficar paraplégico, constantemente faz uma espécie de dicotomia sobre a beleza e a crueldade da vida. Tal indicação está logo no título original da obra, Hana-bi. Apesar da tradução literal da palavra ser “fogos de artifício”, os caracteres japoneses de “hana” e “bi” significam “flor” e “fogo”, respectivamente. Além disso, ao longo do filme, vemos vários elementos fazendo um exercício contraditório do nosso mundo. Se por um lado a história contada envolve depressão, remorso e violência gráfica, o ambiente ao redor dos personagens é sempre sereno, intercalado por paisagens atraentes, a trilha sonora encantadora e quase-fabular de Joe Hisaishi, e as imagens tranquilas e simbólicas das pinturas de Horibe.

O trabalho de câmera contemplativo de Kitano está novamente evidenciado, fazendo com que a câmera se detenha nas expressões faciais dos sujeitos trágicos ou ansiosamente em uma paisagem, transmitindo a perspectiva introspectiva com a mudez das emoções e os extremos da violência. Mas Fogos de Artifício contém um refinamento do cineasta japonês. É bem menos sobre uma juventude transviada e pessimismo social de Policial Violento Boiling Point, ou então sobre amadurecimento e autodescoberta de O Mar mais Silencioso Daquele Verão De Volta às Aulas, que Kitano trabalhou em filmes anteriores. Não, Fogos de Artifício é mais sobre a perseguição e o sentimento inescapável da tragédia, nossas diferentes reações em meio a desgraça e, principalmente, sobre as várias contradições da vida, como tenho citado.

Um homem paraplégico e deprimido parado em frente a imensidão lírica do oceano, criando arte com flores sobre tentar suicídio. Uma mulher tentando regar plantas mortas, e dizendo obrigado ao mesmo tempo que pede desculpas. Outro homem tendo uma viagem terna com sua esposa entre jogos, acampamentos e fotos, constantemente relembrado da doença terminal da sua amada, além de estar sempre sendo interrompido pelas perseguições da Yakuza, como um fantasma do passado ou um choque de realidade. Nesses momentos, assim como em vários outros durante o longa, é como se Kitano estivesse sempre colocando em foco uma ironia trágica – às vezes até cômico, com algumas skits e piadas – na imagem, entre forças internas e externas opostas. É até interessante pontuar como a obra trabalha a violência entre cortes rápidos de uma situação melodramática para uma sangrenta, como se as explosões pontuais de crueldade fossem a única forma de emoção, ou até retaliação ao destino, do protagonista enclausurado.

Narrativamente falando, tenho alguns probleminhas no ato inicial não-linear, mas fui entendendo como a montagem preza por uma atmosfera de meditação das calamidades, e não tanto de um sentido narrativo. É bem mais sobre a essência do acontecimento, do que pelo seguimento da história – por isso o filme acaba sendo bastante aleatório, num bom sentido. Ao longo da obra, seguimos Nishi em um caminho autodestrutivo, pegando dinheiro emprestado da Yakuza e roubando um banco para poder entregar um final de vida especial à sua esposa, enquanto Horibe expurga sua depressão e pensamentos suicidas através do pontilhismo, daí o amor (Nishi) e arte (Hirobe) que citei anteriormente, no qual Takeshi trabalha a síntese de duas imagens opostas, uma sendo um agente de destruição e a outra um símbolo de regeneração.

Assim, entre a inevitabilidade da morte e a tragédia da vida, Fogos de Artifício faz um tratamento reflexivo dos caminhos divergentes dos personagens. Seja encerramento ou renascimento, Kitano está interessado na criação de um conto poético sobre a fragilidade do homem em um mundo contraditório. No final, em meio às notas elegíacas de Hisaishi, a poesia melancólica de Kitano encontra seu desfecho no encanto do amor, a pureza de uma criança e a beleza do mar, abruptamente interpostos por tiros. Existir significa atravessar a graciosidade e a tragédia do que é viver. Flor e fogo.

Fogos de Artifício (花火, Hana-bi – Japão, 1998)
Direção: Takeshi Kitano
Roteiro: Takeshi Kitano
Elenco: Takeshi Kitano, Kayoko Kishimoto, Ren Osugi, Susumu Terajima, Tetsu Watanabe, Hakuryu
Duração: 103 min.

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