Crítica | For All Mankind – 1X01 a 1X03: Red Moon / He Built the Saturn V / Nixon’s Women

Média dos episódios:

For All Mankind é uma das séries originais de lançamento do serviço de streaming da Apple, o Apple TV+, que ingressou no mercado mundial no dia 1º de novembro de 2019. A ideia é lançar os episódios semanalmente, mas, para dar peso à estreia e volume inicial ao serviço, cada uma das obras de produção própria teve seus três primeiros episódios disponibilizados e são eles que passo a criticar em conjunto.

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“Para Toda a Humanidade” ou “For All Mankind” é a expressão inscrita na placa lunar deixada na superfície de nosso satélite pelos astronautas da Apollo 11 e marca o que seria o fim da corrida espacial entre os EUA e a União Soviética, ainda que a alunissagem de humanos pela NASA tenha sido repetida mais cinco vezes até 1972 e jamais conseguida por qualquer outro país até agora. Pegando o título emprestado da placa e que foi utilizado também no excelente documentário de Al Reinert, de 1989, e marcando o cinquentenário da chegada do Homem à lua, a Apple aposta suas fichas em uma série de história alternativa que imagina o que teria acontecido se fosse a União Soviética o primeiro país a colocar um cosmonauta na lua.

Sem dúvida que muitos logo conectarão esse tipo de abordagem com The Man in the High Castle, série produzida pela Amazon baseada em obra homônima de Philip K. Dick que especula sobre o terrível cenário em que as forças do Eixo teriam saído vitoriosas da Segunda Guerra Mundial. E, de fato, a conexão existe, mas a série do serviço de streaming concorrente é muito mais dramática e aterradora, pelo que é necessário que o espectador ajuste suas expectativas de acordo. Em linhas gerais, a alunissagem soviética não faz os EUA desistirem, mas sim ampliarem seu programa especial, aquecendo ainda mais a corrida espacial.

Como protagonista, temos o astronauta americano Edward Baldwin (Joel Kinnaman) que, apesar de ser fictício, substitui o comandante Thomas P. Stafford, que realmente ficou à frente da expedição Apollo 10 que chegou a pouco mais de 15 quilômetros da superfície lunar em 22 de maio de 1969, menos de dois meses depois que Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisariam na inóspita superfície pela primeira vez. Na série, os soviéticos conseguem colocar o seu próprio homem na lua entre as duas missões americanas, o que coloca Baldwin – e paralelamente seu colega de missão Gordo Stevens (Michael Dorman) – no centro das atenções pelo que ele poderia ter sido se a NASA fosse um pouco mais ousada (ou descuidada, dependendo do ponto de vista).

Trata-se, sem dúvida, de uma premissa interessante que aos poucos é desdobrada em outros acontecimentos que vão mudando a história desse mundo alternativo, algumas ficando apenas nos bastidores, como o possível armistício no Vietnã e a uma espécie de “adiantamento” da agenda de paridade de gêneros entre homens e mulheres em razão da posterior alunissagem de uma mulher soviética, que faz com que Richard Nixon, o presidente americano, queira fazer o mesmo. De um lado, portanto, a série mostra que o espírito americano nunca se renderá, o que é piegas, e, por outro, quer tentar dizer que a União Soviética teria uma agenda progressista, o que chega a ser hilário, mas que faz parte do jogo dramático.

À frente desse projeto televisivo (que, tecnicamente, não é exatamente “televisivo”), a Apple colocou ninguém menos do que Ronald D. Moore, um dos responsáveis pelo sucesso de Star Trek: A Nova Geração (e depois Deep Space Nine e Voyager) e o homem que desenvolveu o sensacional reboot de Battlestar Galactica, transformando-a de uma série camp setentista para uma das melhores obras de ficção científica dos anos 2000. Pelo menos nos três primeiros episódios de sua ficção alternativa, porém, Moore não demonstra quase nada da sutileza e profunda inteligência que marcou sua revisita ao universo originalmente criado por Glen A. Larson.

Para começar, apesar de ser uma série contando uma história única, a impressão que passa é que cada episódio conta uma história quase estanque. Red Moon é dedicado à chegada dos soviéticos à lua, as consequências imediatas para a NASA e, depois, a missão Apollo 11, estabelecendo, portanto, a linha narrativa principal. No segundo, He Built the Saturn V, porém, o foco muda para a investigação do senado americano para o que é percebido como a perda da oportunidade de os EUA serem o primeiro país na lua, com o alemão Wernher Von Braun (Colm Feore), então diretor da agência espacial americana, na berlinda. Finalmente, em Nixon’s Women, um terceiro assunto é abordado: a entrada forçada de mulheres no programa espacial. A costura narrativa, porém, é falha, com personagens novo sendo introduzidos a cada episódio sem que sequer haja tempo para que a conexão do espectador com aqueles que já haviam sido apresentados seja solidificada, esvaziando, por exemplo, o drama pessoal de Baldwin por ter sido o homem que quase chegou lá, ou o de Margo Madison (Wrenn Schmidt) como a controladora de voo protegida de von Braun ou mesmo as esposas dos astronautas principais, Karen Baldwin (Shantel VanSanten), a dona de casa modelo, e  Tracy Stevens (Sarah Jones), que tem outras ambições. E, no meio dessa profusão de personagens pouco explorados, ainda há a abordagem paralela de uma menina mexicana (Aleida Rosales, vivida por Olivia Trujillo) que imigra ilegalmente para os EUA e que parece preparar uma “segunda geração” de astronautas, demonstrando um plano de longo prazo de Moore, mas que talvez caminhe demasiadamente em cima da linha do maniqueísmo.

Apesar de uma produção de época impecável, com uma direção de arte invejável e uma bela fotografia árida, For All Mankind sofre de uma certa frieza, de um distanciamento que incomoda e que, apesar de fazer sentido estar presente em uma obra como O Primero Homem pela forma como o assunto é abordado, não tem vez de verdade na série, deixando de realmente animar ou envolver o espectador no potencialmente fascinante drama que se desenvolve. Considerando que são apenas 10 episódios (cada um disponibilizado tem ligeiramente mais de uma hora, ou seja, são longos), esse primeiro terço, se ele efetivamente marcar o passo narrativo fragmentado em histórias quase estanques dentro de um mesmo tema, arrisca de afastar mais gente do que atrair.

Sem dúvida alguma, porém, narrativas de história alternativa são, por natureza, fascinantes e For All Mankind, mesmo não parecendo muito atraente de primeira, pode ganhar o espectador pelo rigor técnico, por seu enfoque interessante para uma corrida espacial que nunca termina e pelo que um dia poderá ser. Tomara, porém, que a série não demore muito para decolar de verdade.

For All Mankind – 1X01 a 1X03: Red Moon/He Built the Saturn V/Nixon’s Women (EUA, 1º de novembro de 2019)
Criação: Ronald D. Moore
Direção: Seth Gordon (1X01 e 1X02), Allen Coulter (1X03)
Roteiro: Ronald D. Moore (1X01), Matt Wolpert & Ben Nedivi (1X02), Nichole Beattie (1X03)
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Chris Agos, Matt Battaglia, Chris Bauer, Jeff Branson, Dan Donohue, Colm Feore, Ryan Kennedy, Eric Ladin, Steven Pritchard, Rebecca Wisocky, Tait Blum, Arturo Del Puerto, Noah Harpster, Krys Marshall, Tracy Mulholland, Dave Power, Mason Thames, Olivia Trujillo, Sonya Walger
Duração: 65 min. (1X01), 62 min. (1X02 e 1X03)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.