Crítica | For All Mankind – 1X04: Prime Crew

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Agora sim! For All Mankind precisou chegar até seu quarto episódio, mas a série finalmente mostrou a que veio, combinando a Corrida Espacial em um cenário em que foi a União Soviética que colocou o primeiro homem na lua com uma abordagem que carrega a veia emancipatória de Mad Men. Depois dos dois episódios iniciais trabalharem roteiros quase que completamente auto-contidos, o terceiro, Nixon’s Women, tem sua trama carregada para e muito bem desenvolvida em Prime Crew, com os preparativos para a primeira mulher americana a pisar no cobiçado satélite que, de quebra, é uma bela homenagem à pioneira Geraldyn M. Cobb, falecida em 18 de maio de 2019, representada na série por Molly Cobb, personagem de Sonya Walger.

Em retrospecto, talvez eu tenha sido até muito duro com a trinca inicial de episódios liberados de uma vez no dia de lançamento do Apple TV+, o mais novo serviço de streaming do mercado, pois essa é claramente uma série de queima lenta, que precisa trabalhar seus personagens sem correrias e sem depender apenas de momentos importantes nesse cenário hipotético que Ronald D. Moore cria. Paciência é a palavra-chave e eu talvez tenha me afobado e faço um mea culpa agora.

Não é que os problemas da série tenham simplesmente desparecido agora, que fique bem claro. Eles persistem, mas ganham uma nova forma em Prime Crew, parecendo até que Naren Shankar está correndo atrás do tempo perdido ou mal-aproveitado, acelerando as interações humanas relevantes quando Deke Slayton (Chris Bauer), rebelando-se contra as instruções do assessor de Richard Nixon que requer o cancelamento do programa das mulheres para a NASA focar na colocação de uma base militar na lua, faz exatamente o contrário e acelera tudo, encampando publicamente como astronautas as quatro mulheres que ainda estavam no programa depois da tragédia que ceifou a vida de Patty ao final do último episódio. Com isso, Molly é marretada no programa Apollo 15 no lugar de Gordo (Michael Dorman) para a revolta de Edward Baldwin (Joel Kinnaman) e todo o desenvolvimento que vai do estranhamento entre os dois até a criação de uma conexão de confiança é infelizmente corrido, com elipses que nem sempre são bem resolvidas.

Mas o texto do roteiro é como se fosse uma cápsula do pensamento preconceituoso presente até os dias de hoje: mulheres não têm a mesma capacidade que os homens e ser gay é completamente inaceitável. O subtexto nada sutil é que não se pode ser quem você é se esse alguém que você é não está em conformidade com o que a maioria espera de você. Confesso que não gosto da forma expositiva com que isso é tratado, mas às vezes um tapa na cara logo de uma vez é melhor do que discretos olhares reprovadores e o que Shankar faz aqui, apesar de óbvio, é elegante, com o elenco realmente brilhando com o material que tem em mãos. E é importante reparar que o foco não é só em Molly que “só pode ser homossexual” ou em Ellen Waverly (Jodi Balfour) que “obviamente é heterossexual”, mas também em Margo Madison (Wrenn Schmidt) que precisa ser muito mais do que é para conseguir ter alguma chance de ser aceita no círculo masculino sem desdém ou olhares reprovadores.

Esse trio, separadamente, ganha espaço para ser desenvolvido, algo que já deveria ter começado antes, sem dúvida, mas que funciona bem no episódio graças a um roteiro inteligente e interconectado que, como já disse, não se esquiva de jogar na cara do espectador as questões que deseja enfrentar, incluindo a esperançosa menina mexicana Aleida (Olivia Trujillo) que, essa sim, está sendo lentamente construída para ser parte da futura geração de astronautas da série, presumo. Além disso, o roteiro também lida com o orgulho e a necessidade de adaptar-se, algo que cai mais no colo de Molly, impulsiva e inicialmente incapaz de aceitar que ela tem que ceder para alcançar um objetivo maior, com a atuação de Walger sendo o grande destaque. É essa, talvez, a verdade mais difícil de se aceitar no episódio, que você nem sempre pode ser você mesmo e precisa saber “comer pelas beiradas” para tornar possível vitórias que, de outra forma, seriam-lhe roubadas. É duro, por exemplo, ver Ellen ter que esconder sua orientação sexual para poder ter a chance de voar? Sem dúvida, mas é melhor chegar lá antes e revelar-se depois, quando não há mais volta, quando não há mais como apagar o que foi feito, do que arruinar tudo em razão do preconceito imbecil de outros. O jogo é cansativo, injusto e de revirar os olhos, mas é um jogo que, por vezes, precisa ser jogado.

Mesmo correndo com o desenvolvimento de seus personagens mais importantes, For All Mankind quebra a barreira episódica que impedia que a série deslanchasse e mostra, em Prime Crew, seu verdadeiro potencial. Há, ainda, muito o que avançar para tornar essa nova série de história alternativa algo realmente memorável, mas já possível vislumbrar esse caminho.

For All Mankind – 1X04: Prime Crew (EUA, 08 de novembro de 2019)
Criação: Ronald D. Moore
Direção: Allen Coulter
Roteiro: Naren Shankar
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Chris Agos, Matt Battaglia, Chris Bauer, Jeff Branson, Dan Donohue, Colm Feore, Ryan Kennedy, Eric Ladin, Steven Pritchard, Rebecca Wisocky, Tait Blum, Arturo Del Puerto, Noah Harpster, Krys Marshall, Tracy Mulholland, Dave Power, Mason Thames, Olivia Trujillo, Sonya Walger, Lenny Jacobson, Edwin Hodge
Duração: 62 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.