Crítica | For All Mankind – 1X05: Into the Abyss

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Se o episódio anterior, Prime Crew, veio para finalmente mostrar a que For All Mankind veio de verdade, Into the Abyss, que marca a metade da temporada, continua essa veia positiva e estabelece, de vez, a pegada de ficção científica da nova série de Ronald D. Moore. Claro que, de maneira ampla, uma série que tem como premissa uma história alternativa da Corrida Espacial já mereceria esse rótulo, mas é apenas aqui que começamos a entrever um planejamento potencialmente muito ambicioso por parte do showrunner e da Apple TV+ que parece ter como objetivo contar os primórdios da “conquista do espaço” pelos humanos, algo que foi raramente visto – se é que foi – nas telonas e telinhas.

O único elemento narrativo que apontava nessa direção até agora era a presença razoavelmente discreta da imigrante mexicana Aleida (Olivia Trujillo), uma menina apaixonada por tudo relacionado ao espaço que, em razão de sua idade, indicava a possível intenção de Moore de fazer saltos temporais significativos em sua criação, de forma a fazer com que a personagem pudesse, de alguma maneira, fazer parte do programa espacial americano. Ainda que Aleida não apareça no episódio, temos o primeiro grande salto temporal nos últimos segundos, que finca com vontade a bandeira de ficção científica em For All Mankind, com o estabelecimento da primeira base lunar americana perto da cratera Shackleton depois que Molly Cobb (Sonya Walger) efetivamente descobre a presença de gelo na lua, algo que hoje, em 2019, ainda não aconteceu.

É a busca pela água, impulsionada pela necessidade de os EUA mostrar pioneirismo em alguma coisa – perderam o posto de primeiro país a chegar à lua e também o de primeiro a colocar uma mulher na lua – a NASA arrisca tudo em uma missão que era para “apenas” pousar na superfície lunar, alterando trajetória e missão no meio do caminho. Em outras palavras, o afã de se conseguir mostrar para o mundo algum pioneirismo levou a agência a mais riscos e, aqui, um retumbante sucesso. Moore coloca, então, a pergunta: será que esse seria mesmo um potencial resultado da chegada soviética à lua em primeiro lugar? Na vida real, o que tivemos foi quase que a desistência completa da URSS em continuar seu programa espacial e os EUA esfriando bastante suas explorações lunares até o encerramento por completo em 1972, com a Apollo 17, perfazendo um total de apenas seis alunissagens humanas. Em For All Mankind, o efeito é o oposto, com as conquistas espaciais ganhando relevo e, muito provavelmente, se a série continuar ainda por um bom tempo, alterando radicalmente a face pelo menos de nosso Sistema Solar.

Em Into the Abyss, apesar de ser fascinante ver Molly e Ed (Joel Kinnaman) arriscarem tudo em uma missão feita na base de clipe e fita adesiva (ou quase), com elipses eficientes que evitam protrair demais o suspense de uma missão que, lá no fundo, sabemos que vai dar certo (afinal uma mulher já havia morrido em treinamento no terceiro episódio e a Apollo 11 já trouxera o suspense devido no primeiro episódio) e que, de forma alvissareira, permitem que haja tempo para focar naqueles que ficaram na Terra. Vemos um pouco da tensão no Controle da Missão, mas o destaque fica mesmo na relação entre Karen, esposa de Ed e Wayne (Lenny Jacobson), marido de Molly, em uma bem-vinda inversão de papeis, com a mulher sendo a forte e durona e o homem sensível e emocional, com os dois chegando a um belo meio-termo. Seus estilos de vida completamente diferentes, suas profissões e suas formas de encarar o mundo colorem o episódio e trazem toda a humanidade que Molly e Ed, no espaço, demonstram não ter em um diálogo particularmente duro e pesado com os dois em suas redes na capsula lunar (vale reparar na sujeira nos rostos dos dois, um detalhe minúsculo, mas importante em razão da duração do voo e, claro, da ausência de banhos).

Com menos destaque, mas igualmente interessante, o episódio aborda a volta de Clayton Poole (Edwin Hodge), marido da astronauta Danielle (Krys Marshall) do Vietnã, depois do armísticio que acontece bem mais cedo e de maneira mais honrosa do que na vida real e sua desconfortável e confrontativa conversa com o depressivo e alcoólatra Deke Slayton (Chris Bauer) que fora substituído por Molly na Apollo 15. O horror da guerra está estampado no rosto desgostoso de Clayton, mas Deke mesmo assim insiste no assunto desconcertante, revelando suas fragilidades e sua própria relativa covardia ao não ter lutado sequer na Coréia como Ed. Prevejo a queda vertiginosa do personagem que, provavelmente, jamais chegar à lua.

Agora que a “cortina caiu” e Ronald D. Moore revelou de verdade a natureza de sua série, as possibilidades são infinitas e potencialmente muito interessantes. Se a colonização dos planetas de nosso Sistema Solar é lugar-comum em uma infinidade de filmes, séries e obras literárias, ver os primórdios disso sendo abordado de maneira tão detalhada é, sem dúvida alguma, gratificante.

For All Mankind – 1X05: Into the Abyss (EUA, 15 de novembro de 2019)
Criação: Ronald D. Moore
Direção: Sergio Mimica-Gezzan
Roteiro: David Weddle, Bradley Thompson
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Chris Agos, Matt Battaglia, Chris Bauer, Jeff Branson, Dan Donohue, Colm Feore, Ryan Kennedy, Eric Ladin, Steven Pritchard, Rebecca Wisocky, Tait Blum, Arturo Del Puerto, Noah Harpster, Krys Marshall, Tracy Mulholland, Dave Power, Mason Thames, Olivia Trujillo, Sonya Walger, Lenny Jacobson, Edwin Hodge
Duração: 62 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.