Crítica | For All Mankind – 1X08: Rupture

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Não há dúvida que, hoje em dia, muito mais do que em um mundo pré-internet ou, especialmente, pré-redes sociais, as pessoas querem cada vez mais resultados imediatos. E é alvissareiro notar que Ronald D. Moore não está muito interessado em chegar nos finalmentes em sua ambiciosa série de história alternativa, mantendo muito mais uma pegada verdadeiramente humana do que carregando para o lado da ficção científica como poderia fazer facilmente.

Rupture é o exemplo clássico disso. Depois de terminar Hi Bob com um cliffhanger sobre o destino de Shane Baldwin, filho de Ed e Karen, o roteiro de Nichole Beattie entrega-se quase que completamente à tarefa de desdobrar esse acontecimento específico apenas e isso sem perder tempo mantendo o destino do jovem um mistério por muito tempo, já que logo é revelado que suas lesões o levaram à morte cerebral. É um episódio triste, pesado, talvez até difícil de assistir já que uma tragédia dessas envolvendo crianças sempre toca fundo qualquer um com um mínimo de sensibilidade.

Mas Rupture não lida com a questão de forma barata ou simples e, no processo, abre espaço para Shantel VanSanten mostrar toda sua latitude dramática e entregar uma performance admirável e crível como uma mãe primeiro negando o inimaginável e, depois, fazendo de tudo para poupar o marido – isolado na lua – da terrível notícia que poderia desequilibrá-lo, arriscando sua vida. E o melhor de tudo é que a trama em solo lunar envolvendo os soviéticos é muito bem costurada com o drama na Terra, com a paranoia crescente de Ed culminando com uma mensagem dos cosmonautas (de coração ou de maldade – eu fico com a segunda opção) que começa a desfazer o silêncio sepulcral sobre Sean em um belo exemplo de roteiro que trabalha bem causas e consequências sem forçar absolutamente nada.

Há tempo também para lidar com questões importantes, mas que não são foco do episódio. A mais destacada delas é a surpreendente revelação de que Gordo está se consultando com um psiquiatra não sancionado pela NASA, o que tem o potencial de destruir sua carreira como astronauta. Michael Dorman parece um morto-vivo em cena, um homem perdido e sem rumo que, se não se adaptava bem à solidão na lua, parece também não mais conseguir adaptar-se à sua vida por aqui. É como se estivéssemos mesmo vendo seu efetivo fim, a corrosão final de seu equilíbrio emocional.

Além disso, vemos um pouco de Aleida e sua relação com Margo, que consegue para ela um lugar na prestigiada escola de matemática e física da NASA, o que pode garantir excelentes universidades em futuro próximo. O conflito entre a frieza de Margo, que se afastou de tudo e de todos para seguir sua carreira, tendo que se mostrar sempre muito superior aos homens ao seu redor para conseguir alguma coisa e só conseguindo efetivamente essa alguma depois de se valer de chantagem (isso deve destruí-la internamente) e a juventude de Aleida, ainda querendo aproveitar a vida e equilibrar estudo e namoro é algo que merecia mais destaque, não ganhando, aqui, o espaço que precisava para um bom desenvolvimento. Claro que o drama da família Baldwin era mais importante, pelo que espero ver a continuidade dessa linha narrativa nos dois episódios que restam para o encerramento da temporada.

Finalmente, o subtexto de todo o tipo de preconceito, apesar dos avanços dessa realidade alternativa em relação à igualdade entre o homem e a mulher continua a todo vapor, tendo como elemento principal a configuração da tripulação da Apollo 24, missão que, se tudo der certo, significará o retorno de Ed para a Terra. Composta de Ellen Waverly, que teve que se casar para evitar suspeitas de que é homossexual, no comando, Deke, visto como um “velho”, na segunda cadeira, e um astronauta de origem chinesa na terceira, o roteiro de Beattie marreta de forma bem pesada e direta – um pouco de didatismo é sempre bom nesses casos – aqueles que costumam dizer, com veneno nas palavas, que “hoje em dia tudo é em razão do sexo e da cor da pele e não do mérito”.

O drama pesado de Rupture funciona muito bem justamente por manter o foco na tragédia, mas sem perder de vista o panorama macro da série, com direito até mesmo a uma menção a Molly Cobb, ausência mais do que sentida desde que desapareceu da série depois de sua chegada à lua. Moore, ainda bem, vem acertando mais do que errando, mesmo que, com isso, ele arrisque afastar-se da ficção científica para mergulhar na humanidade das pessoas que constroem esse futuro que ele imaginou.

For All Mankind – 1X08: Rupture (EUA, 06 de dezembro de 2019)
Criação: Ronald D. Moore
Direção: Meera Menon
Roteiro: Nichole Beattie
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Chris Agos, Matt Battaglia, Chris Bauer, Jeff Branson, Dan Donohue, Colm Feore, Ryan Kennedy, Eric Ladin, Steven Pritchard, Rebecca Wisocky, Tait Blum, Arturo Del Puerto, Noah Harpster, Krys Marshall, Tracy Mulholland, Dave Power, Mason Thames, Olivia Trujillo, Sonya Walger, Lenny Jacobson, Edwin Hodge, Nate Corddry
Duração: 57 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.