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Crítica | For All Mankind – 2X01: Every Little Thing

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

A 1ª temporada de For All Mankind decididamente demorou a engrenar, com Ronald D. Moore preferindo uma abordagem no estilo queima lenta para essa intrigante série de história alternativa que lida com as consequências da Corrida Espacial em um mundo em que os soviéticos chegaram primeiro na Lua. Enquanto de um lado houve o recrudescimento e a extensão da Guerra Fria para o espaço, com tecnologias que conhecemos sendo desenvolvidas antes, o que naturalmente ecoou na Terra como um todo, por outro a igualdade efetiva de gênero entre homens e mulheres ganhou destaque, mesmo que com as naturais ressalvas aqui e ali.

E o co-criador da série – juntamente com Matt Wolpert e Ben Nedivi – continua por esse caminho em Every Little Thing, episódio inaugural da 2ª temporada que chega ao Apple TV+ quase um ano e dois meses depois do fim da 1ª, pois, desta vez, o roteiro precisa dar conta do salto temporal de sete anos que é estabelecido na cena pós-créditos de A City Upon a Hill, com a decolagem do Sea Dragon, gigantesco foguete de carga lançado do mar que chegou a ser efetivamente projetado na vida real, acrescentado de mais dois anos para chegarmos em 1983, quando a temporada começa. É inclusive interessante assistir aos bem produzidos extras que o serviço de streaming oferece na forma de trechos de telejornais ao longo dos anos que lidam com as mudanças científicas, geopolíticas e socioeconômicas nesse universo e as comparam com o nosso.

Com isso, grande parte de Every Little Thing é dedicado a aclimatar o espectador a esse novo status quo mundial, o que acaba amornando talvez demasiadamente esse começo ao relegar a ação propriamente dita para alguns minutos finais. Usando o artifício do enquadramento, Moore começa e termina o episódio da Lua, com uma equipe de astronautas na agora enorme colônia de Jamestown, preparando-se para ver o último “nascer do sol”, já que eles estão para serem substituídos como parte da rotação normal, entoando Everything’s Gonna Be Alright, de Bob Marley, um sinal um tanto quanto óbvio de que algo muito errado está para acontecer.  Retrocedendo 24 horas no tempo, a história então passa a girar em torno de Margo Madison, agora diretora da NASA e ainda morando em seu escritório e afastando todo e qualquer vida social, de Edward Baldwin, agora chefe dos astronautas e, finalmente, de Gordo Stevens, afastado da profissão, fora de forma e entregando-se à bebida em meio a palestras sobre suas experiências.

Tudo é feito de forma a reapresentar esses três personagens, mas pouco realmente é acrescentado ao que já sabíamos ou esperávamos sobre eles. Margo continua mergulhada em seu trabalho, com uma breve menção a Aleida Rosales, a menina filha do faxineiro mexicano que ela parece ter colocado sob suas asas, mas que ainda não dá as caras. Edward continua casado com Karen que, agora, é uma bem-sucedida dona de um bar, com os dois tendo adotado uma menina oriental que está prestes a ir para a faculdade, provavelmente como forma de amenizar a tragédia que foi a perda do filho deles. Gordo é que ganha o esperado ar trágico, algo que é inteligentemente amplificado de maneira indireta, com sua ex-esposa Tracy anunciando que se casara com um magnata em Las Vegas em pleno programa de entrevistas na televisão, pegando todo mundo de surpresa e, claro, jogando quilos de sal na já aberta ferida do ex-astronauta que precisa reviver a mentira de seu retorno à Terra.

Em meio a essas narrativas boas, mas fundamentalmente burocráticas – talvez com exceção à de Gordo, admito – vamos aprendendo sobre os grandes eventos mundiais, como a eleição de Ronald Reagan como presidente dos EUA quatro anos antes do que aconteceu na realidade, John Lennon tendo sobrevivido ao atentado ao passo que o Papa João Paulo II não, o Príncipe Charles casando-se com Camilla (a prova irrefutável de que se trata de ficção científica!), Yuri Andropov chegando à liderança da União Soviética também mais cedo e o programa Pathfinder tendo também começado décadas antes com sucesso e assim por diante, ou seja, com a narrativa oscilando entre o macro e o micro. Claro que a Guerra Fria ganha óbvio destaque, algo que é refletido em uma situação absurdamente kafkaniana quando uma gigantesca erupção solar ameaça não só a comunicação na Terra, com sua rede de satélites – o que potencialmente torna um país ainda mais desconfiado do outro e prestes a iniciar o fim do mundo – como também todos os astronautas em órbita e, claro, na Lua.

É essa erupção solar que, aliás, faz a narrativa chegar novamente ao presente da série, com as medidas tomadas por Ellen Wilson, líder de Jamestown, para proteger seus astronautas. O problema é que mesmo esse aspecto mais repleto de ação é anticlimático, com os “astronautas cantores” retornando muito facilmente à base, deixando todo o foco recair na veterana Molly Cobb e seu colega genérico e desimportante em uma missão mais afastada em solo lunar que exige que eles se escondam em uma caverna. Claro que o tal colega não chega a tempo por ter um acidente e Molly, então, em uma atitude incompreensível diante da óbvia perda de não uma, mas duas vidas, sai em seu resgate, sendo bombardeada pela radiação mortal que ela provavelmente tentará esconder por um tempo já que ela propositalmente deixa sua pulseira de detecção na caverna. Será uma pena se a personagem for limada da série tão cedo, mas, diante do que é didaticamente explicado sobre doses de radiação no episódio, não vejo outra alternativa.

Mesmo não sendo um grande recomeço para a série, Every Little Thing continua a tendência de amplificar inteligentemente as “ondas no lago” que a chegada soviética à Lua antes dos americanos causou, algo que é visto inclusive no design de produção que faz com que a década de 80 retratada não “grite” anos 80, mas sim pareça muito mais uma continuidade da década anterior. É, decididamente, Moore novamente escolhendo a queima lenta para sua segunda temporada, o que, a julgar pela primeira, parece ser mesmo a maneira acertada de se encarar essa fascinante história alternativa.

For All Mankind – 2X01: Every Little Thing (EUA, 19 de fevereiro de 2021)
Criação: Ronald D. Moore, Matt Wolpert, Ben Nedivi
Direção: Michael Morris
Roteiro: Ronald D. Moore
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Krys Marshall, Sonya Walger, Nate Corddry, Dan Donohue, Noah Harpster, Michael Benz, Leonora Pitts, Teya Patt
Duração: 56 min.

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