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Crítica | For All Mankind – 2X07: Don’t Be Cruel

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

É raro uma série com tantos personagens quanto For All Mankind ter um episódio focado simultaneamente em quase todos os núcleos e acertar na mosca em cada um deles. Don’t Be Cruel é um desses exemplos difíceis de encontrar por aí, reunindo um roteiro muito bem estruturado por Nichole Beattie e uma direção cuidadosa e sem pressa de Dennie Gordon que, com um elenco para lá de afiado em seus papeis e uma premissa baseada em fatos reais que consegue estabelecer toda a tensão necessária, entregam um episódio daqueles que poderia muito bem ser um final de temporada.

Até mesmo as subtramas não relacionadas com a destruição do voo 007 da Korean Airlines por um jato soviético, que aconteceu mesmo em 1983 e escalou a Guerra Fria para níveis preocupantes (e que levou a uma boa consequência, pois Reagan ordenou a liberação mundial do sistema GPS), como foram as que giraram ao redor da família Baldwin, foram bem executadas e não pareceram cartas fora do baralho. Afinal, mesmo aquilo que eu mais temia, um relacionamento amoroso entre Karen e Danny, ganhou abordagem elegante que inclusive batizou o capítulo, revelando de vez a existência de uma conexão entre os dois – provavelmente muito conectada com Sean – que, porém, não vai além de um ou dois beijos ao som de Don’t Be Cruel, demonstrando maturidade e independência a Karen que consegue enxergar a estranheza de toda a situação depois de, em um impulso, vender o The Outpost para o milionário Sam, marido atual de Tracy.

Da mesma maneira, Kelly ganha alguns segundos de exposição quando finalmente recebe o envelope da agência de adoção com a identidade de seus pais biológicos, descobrindo que sua mãe morreu no parto e seu pai imigrou para os EUA. Claro que não há desenvolvimento maior nessa sequência, mas ela claro que prepara momentos potencialmente dolorosos para Karen e Ed quando a jovem contar o que ela fez, potencialmente até mesmo depois de entrar em contato com seu pai. Outra subtrama desconectada com o estopim do episódio, mas que também é muito bem conduzida é a continuidade da reconexão de Margo com Aleida, potencialmente estabelecendo o começo de um relacionamento mais filial entre as duas.

Mas o prato principal fica mesmo pelas consequências da destruição do Jumbo 747 que mata 269 pessoas, dentre elas Thomas Paine, o burocrata de bom coração que realmente era investido no Programa Espacial. Até mesmo a forma como a morte dele é preparada, com Ellen quase contando seu segredo, funciona como um relógio suíço, retardando e até mesmo eliminando a janela que ela tinha para realmente fazer isso. Com ela assumindo o cargo de Tom e, ao final, revelando-se dura em seu posicionamento antissoviético ao sugerir ao Presidente Reagan o armamento da Pathfinder e a imediata retomada da mina de lítio na Lua, ela deixa sua ambição tomar a frente de tudo, muito provavelmente ameaçando seu recém-reiniciado relacionamento com Pam e, claro, sua saída do armário. Esse não é nem de longe o que eu imaginaria que aconteceria, mas esse caminho tortuoso que conflita carreira com sexualidade promete ser muito melhor do que a felicidade de Ellen da maneira mais fácil e objetiva.

Evidentemente que Ellen é apenas um exemplo de como o incidente afeta os personagens e a série como um todo e de como o roteiro consegue lidar bem com absolutamente tudo. Eu poderia escrever pelo menos o dobro do que este já longo trecho analisando cada detalhe, mas basta dizer que é fascinante notar como tudo é relativizado, criando ambiguidade. Enquanto não há dúvidas sobre o absurdo que é o ataque soviético ao avião comercial, as indicações de que os americanos estariam usando aeronaves civis para espionar seus inimigos criam a impressão de culpa concorrente, transformando os passageiros civis não em vítimas de um império sanguinário, mas sim de toda uma frágil situaçãos geopolítica provocada e capitaneada por dois impérios sanguinários. Da mesma maneira, o aprisionamento de Dani Poole (e do outro astronauta cujo destino ninguém se importa) em Star City é trabalhado de maneira a revelar o respeito do engenheiro soviético a ela e ao que ela representa, em uma sequência belíssima em fica muito claro que a tensão existe entre os governos, mas não entre os cidadãos.

E o mesmo vale para Margo e sua decisão de salvar vidas a todo custo. O diálogo – ou, melhor dizendo, monólogo – dela com Sergei revelando em mensagem cifrada que os planos americanos roubados pelos soviéticos e espionados pelos americanos tem um defeito fundamental (também retirado da vida real, com a fatídica explosão da Challenger, em 1986), reitera a conexão entre os civis apesar do que seus governos acham um do outro. Pode até parecer clichê, e provavelmente é, mas essa relativização das caracterizações maniqueístas que esperamos ganha contornos extremamente verossímeis na série que se mantém absolutamente focada no desenvolvimento de personagens.

Isso fica até mais evidente pelo momento climático de ação lunar. Reparem como o foco é no quanto os soldados respeitam Tracy Stevens, a coragem da astronauta e sua habilidade em pilotar o módulo, com a sequência em si do “ataque” ser quase comicamente anticlimática, com os cosmonautas correndo desesperados para fugir dos astronautas armados, ainda que esse momento, provavelmente, marque a completa militarização das missões espaciais dos dois países.

Mesmo que Ed e Gordo tenham ficado de fora quase que totalmente de fora deste episódio, Don’t Be Cruel é uma aula magna de como fazer um capítulo tumultuado de série sem deixar o tumulto transparecer por um momento sequer. Aliás, mais do que apenas isso, o trabalho de Gordon e Beattie surpreende, prende a atenção e, de quebra, ainda faz a história macro avançar a passos largos para um futuro incerto e não sabido, mas desde já extremamente interessante.

For All Mankind – 2X07: Don’t Be Cruel (EUA, 02 de abril de 2021)
Criação: Ronald D. Moore, Matt Wolpert, Ben Nedivi
Direção: Dennie Gordon
Roteiro: Nichole Beattie
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Krys Marshall, Sonya Walger, Nate Corddry, Dan Donohue, Noah Harpster, Michael Benz, Leonora Pitts, Teya Patt, Coral Peña, John Marshall Jones, Nikola Djuricko, Jeff Hephner
Duração: 59 min.

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