Home TVEpisódio Crítica | For All Mankind – 2X10: The Grey

Crítica | For All Mankind – 2X10: The Grey

por Ritter Fan
883 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Há muito tempo que eu não via uma narrativa de conflito durante a Guerra Fria tão bem construída e tão tensa quanto a que a 2ª temporada de For All Mankind fez, desaguando no primoroso The Grey, episódio de encerramento que nos leva a mais um salto temporal de algo como 10 anos, com a chegada do homem em Marte, o que mergulha a série mais ainda no campo sci-fi puro. Acho que a última vez que me senti segurando nos braços do sofá em uma história desse tipo cujo final geral é conhecido de antemão, pois os showrunners não começariam uma guerra de verdade entre os EUA e a União Soviética foi em Deutschland 83

O episódio concentrou seus holofotes no conflito espacial entre os países em três frentes: a invasão de Jamestown pelos soviéticos para eles recuperarem o astronauta que havia pedido asilo, a missão Pathfinder comandada por Ed Baldwin para proteger o foguete não-tripulado Sea Dragon de possível ataque por parte da Buran, primeiro ônibus espacial da URSS e, finalmente, a missão em tese de paz Apollo-Soyuz. E, mesmo com muita coisa acontecendo fora da Terra, o roteiro de Matt Wolpert e Ben Nedivi ainda tem tempo para lidar com a revelação por Kelly a Karen sobre sua busca por seus pais biológico e encerrar essa subtrama a contento, além de acenar para diversos pequenos desenvolvimentos envolvendo Margo, Aleida e Ellen.

É fascinante notar o cuidado de Ronald D. Moore e equipe em replicar incidentes reais que nos levaram muito próximo à Terceira Guerra Mundial no espaço, mantendo a verossimilhança a todo o momento e continuando a nos dar um gostinho do que poderia ser o início de conflitos espaciais que tanto lemos e vemos nas mais variadas obras, mas que muito raramente são abordados nessa minúcia. Claro que toda a ação, para manter-se realista, precisa ser rápida e consideravelmente simples, mas é mantendo-se com os pés firmes no chão que a produção realmente consegue criar uma fascinante atmosfera para a série, conseguindo ao mesmo tempo criar uma “batalha de naves espaciais” e uma “retomada de forte” que poderiam muito bem, sozinhos, serem longas-metragens cinematográficos.

O combate em Jamestown foi, para mim, o grande destaque, não só pela forma como a efetiva ação dentro da base foi conduzida – Tracy vendo o soviético chegando com a arma e sem poder avisar seu colega foi angustiante – como também pelos papeis dados ao casal Tracy e Gordo Stevens no desenrolar da pancadaria, tendo que andar pela superfície lunar sem oxigênio e sem traje espacial, apenas envoltos em duct tape (que, claro, serve para absolutamente tudo) e com uma máscara simples. Ver a condução dessa sequência assustadora e tensíssima em superfície lunar ao mesmo tempo em que testemunhamos a acoplagem da Apollo e da Soyuz graças à desobediência de Danielle e o conflito dentro da Pathfinder, com Ed tentando fazer o certo em uma situação impossível, resultou em uma das melhores sequências de ação de toda a série, com a direção de Sergio Mimica-Gezzan destacando-se pela decupagem perfeita que tornou possível esse entrelaçamento complexo das tramas, com direito até mesmo à já mencionada conversa de Kelly com a mãe no porão do restaurante.

E foi muita coragem do episódio nos dar esperança de que Tracy e Gordo sobreviveriam, somente para vermos os dois mortos “romanticamente” juntos depois de serem bem-sucedidos na missão suicida. Com uma penada, o roteiro eliminou dois personagens importantes e, para todos os efeitos, toda uma família da série, ainda que eu desconfie que Danny, assim como Kelly, serão importantes na vindoura 3ª temporada. Seja como for, apesar de ser doloroso perder dois personagens que conseguiram se tornar muito interessantes na medida em que o segundo ano progredia, era a escolha correta, assim como foi correta a decisão de Ed de explodir a Sea Dragon como única alternativa não letal de evitar a guerra.

No centro de comando, as mulheres dominaram, com Aleida sendo tutelada por Bill e ganhando seu momento para brilhar ao dar seguimento à missão Apollo-Soyuz e Ellen justamente decidindo, apesar da ordem presidencial, em deixar Dani tentar o cumprimento espacial, o que, mesmo com a sequência agridoce em que televisões são mostradas com as imagens históricas, mas sem ninguém assistindo em razão do DEFCON 2, acaba sendo o catalisador para o arrefecimento das tensões entre os países. Tudo parece indicar uma crescente importância para as duas personagens e, claro, para Margo que os soviéticos parecem achar que estão manipulando, mas que eu duvido que ela seja tão inocente assim para cair na armadilha. Será particularmente interessante ver como isso será manejado agora, considerando o salto temporal.

Com The Grey, For All Mankind encerra magistralmente mais uma temporada, temporada essa que conseguiu ser ainda melhor que a primeira. Mal posso esperar para ver como a elipse de tempo será preenchida e como os eventos de nossa História serão abordados na cada vez mais fascinante História Alternativa de Moore.

For All Mankind – 2X10: The Grey (EUA, 23 de abril de 2021)
Criação: Ronald D. Moore, Matt Wolpert, Ben Nedivi
Direção: Sergio Mimica-Gezzan
Roteiro: Matt Wolpert, Ben Nedivi
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Krys Marshall, Sonya Walger, Nate Corddry, Dan Donohue, Noah Harpster, Michael Benz, Leonora Pitts, Teya Patt, Coral Peña, John Marshall Jones, Nikola Djuricko, Jeff Hephner
Duração: 78 min.

Você Também pode curtir

14 comentários

cleverton 28 de abril de 2021 - 04:03

Episódio sensacional, resolveu bem tudo. Eu realmente achei q ia ter uma batalha russia x Eua kkkk fui ingênuo, pensando melhor realmente não faria sentido. Uma dúvida cientifica que vou pesquisar daqui a pouco, o ser humano n sobrevive 15 segundos daquele jeito na lua né? Fiquei me perguntando o resto do episódio todo kkkk .Agr é esperar a colonização de marte, uma pena q provavelmente muitos poucos personagens serão reaproveitados, o núcleo dos Baldwin inclusive eu acho q n veremos mais, inclusive eu interpretei no fim por estarem com carros diferentes que eles se separaram, será isso mesmo?

Responder
planocritico 28 de abril de 2021 - 22:35

Não tenho ideia se dá para sobreviver 15 segundos no espaço enrolado em duct tape…

Mas foi um baita finale mesmo, que promete uma terceira temporada ainda mais desafiadora justamente pela necessidade de se trocar alguns dos protagonistas. E sim, eu entendi que Ed e Karen estão separados ali. O que não dá para saber é se é algo definitivo. Mas descobriremos!

Abs,
Ritter.

Responder
cleverton 29 de abril de 2021 - 18:13

Será q descobriremos msm? Ele é um dos personagens que com esse salto dá pra limar da história, a não ser que ele volte a ser chefão da nasa, mas acho que ele n aceita mais esse cargo.

Responder
planocritico 29 de abril de 2021 - 19:07

Sobre o que aconteceu com Ed e Karen? Acho que sim. Nem que seja por via indireta, com Kelly já adulta. Mas eu acho que não vão limar o Kinnaman completamente da 3ª temporada. Minha suspeita é que no mínimo ele aparecerá para dizer tchau.

Abs,
Ritter.

Responder
Barry, o Lanterna 26 de abril de 2021 - 10:47

O episódio foi perfeito mesmo. E meu deus, a Tracy e o Gordo! Não estava à espera que morressem, principalmente os dois!! Que cena incrível que foi. Uma série já não me deixava tão tenso há imenso tempo, e este ep me arrasou mesmo. Arrisco a dizer que é o melhor da série (tanto que no imdb até está com 9.7/10). Que venha a t3!!!
A minha única ressalva é mais um salto temporal. Embora seja preciso para avançar a história (porque se fosse ainda nos anos 80 e eles fossem logo para Marte poderia parecer forçado), acho que há muitas coisas que se perdem pelo caminho. Mas agora já confio plenamente nos roteiristas

Responder
planocritico 26 de abril de 2021 - 12:40

Possivelmente é mesmo o melhor da série até agora.

Sobre os saltos temporais, eu acho muito importante que eles sejam feitos, de maneira a criar “temas” para cada temporada e, ao mesmo tempo, fazer a tecnologia evoluir e a “linha temporal divergente” afastar-se ainda mais da nossa até podermos ver os contornos de filmes sic-fi clássicos que retratam a Terra como colonizadora do Sistema Solar e vislumbrarmos a capacidade até de irmos a outras galáxias.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 26 de abril de 2021 - 16:40

Possivelmente é mesmo o melhor da série até agora.

Sobre os saltos temporais, eu acho muito importante que eles sejam feitos, de maneira a criar “temas” para cada temporada e, ao mesmo tempo, fazer a tecnologia evoluir e a “linha temporal divergente” afastar-se ainda mais da nossa até podermos ver os contornos de filmes sic-fi clássicos que retratam a Terra como colonizadora do Sistema Solar e vislumbrarmos a capacidade até de irmos a outras galáxias.

Abs,
Ritter.

Responder
Barry, o Lanterna 27 de abril de 2021 - 12:46

Concordo, é só que por exemplo, agora a trama dos problemas de casamento da Karen e do Ed vai ser “esquecida” (ou resolvida off-screen), assim como a trama dos pais da Kelly, por exemplo. É como na t1, saltaram o trauma dos Baldwin com a perda do filho e já começaram a t2 com isso +- resolvido. De qualquer das formas, se for bem feito, nem se nota muito a diferença, mas são coisas que me pareciam que fossem mais importantes

Contudo, adoro a série à mesma e acreditam que a t3 vá ser muito importante para uma mudança de elenco caso continuem a saltar mais décadas (tipo a Aleida a assumir o papel do Bill)

Responder
planocritico 27 de abril de 2021 - 16:54

Sim, o lado pessoal dos personagens sofre com os pulos, mas acho que faz parte do jogo. Considerando que eu achei que Moore lidou muito bem com o primeiro salto temporal, mesmo tendo que começar de maneira ainda mais lenta a temporada, creio que teremos bons desenvolvimentos na próxima.

Abs,
Ritter.

Responder
alison b 27 de abril de 2021 - 13:37
Eduardo Silva 26 de abril de 2021 - 09:22

Uma das melhores séries Sci-fi que ninguém cometa e acho que merece uns Emmys técnicos pelo menos, se fosse da Netflix faria mais sucesso ou talvez seria cancelada, assim como Away.

Responder
planocritico 26 de abril de 2021 - 16:37

@disqus_5FFbPbPOa5:disqus , infelizmente, pelo menos aqui no Brasil, as séries do Apple TV+ são quase que completamente ignoradas, apesar de muitas serem incríveis como esta aqui.

Abs,
Ritter.

Responder
Maitê 26 de abril de 2021 - 00:21

De coração partido por Gordo e Tracy, mas acredito ter sido uma escolha acertada. Agora, as imagens finais ao som de Nirvana não têm preço. Episódio para guardar se não no coração, guardá-lo na memória. Obra-prima, de fato e de direito.

Responder
planocritico 26 de abril de 2021 - 03:35

Também fiquei de coração partido, mas foi um baita fim para os dois, fim esse que eu duvidei até o último segundo que dariam a eles, mas que, felizmente, deram!

E sim, obra-prima mesmo!

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais