- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
Jamais imaginaria que For All Mankind fosse chegar à quinta temporada e, mais ainda, que ela seria renovada para a sexta e última, tornando-se a segunda mais longa série do Apple TV em número de temporadas, atrás somente de Slow Horses, que foi renovada até a sétima, e primeira em número de episódios (serão 60 se a última temporada também tiver 10 contra 42 de Slow Horses se o padrão de seis for mantido). Afinal, estamos falando de uma série de ficção científica de queima lenta, que demorou muito tempo para realmente mergulhar no sci-fi propriamente dito e, mesmo assim, o mergulho foi relativamente discreto, com a História Alternativa sendo contada com os dois pés firmemente fincados no chão como deveria mesmo ser. E olha que nem estou aqui falando do vindouro spin-off Cidade das Estrelas, que promete abordar o lado soviético da história.
No entanto, a estrutura da ambiciosa série criada por Ronald D. Moore, Matt Wolpert e Ben Nedivi traz, embutida, um problema difícil de lidar com eficiência: cada nova temporada começa quase uma década depois da anterior, o que exige que o primeiro episódio de cada ano lide com uma mudança drástica de status quo, mudança essa que precisa ser abordada tanto no aspecto macro quanto no micro e, mesmo considerando os filmetes separados no estilo telejornal que o serviço de streaming oferece para criar uma ponte narrativa, é muita coisa para lidar ao mesmo tempo, especialmente porque há tanto personagens legado quanto novos personagens que exigem atenção. Ou seja, o já costumeiramente complexo episódio inicial de temporada ganha um peso extra que nem sempre, por melhor que a equipe de produção seja, acerta no alvo. E esse é o caso de Primeiro Voo (vide meus comentários sobre esse título em português no final da crítica).
Nove anos se passaram do furto de Cachinhos Dourados, um asteroide rico em metais, especialmente o cobiçado irídio. Ao evitar que ele fosse levado para a Terra, a colônia em Marte progrediu, sustentando, agora, mais de cinco mil habitantes, com expansões que contam com um escudo eletromagnético para evitar a exposição à radiação solar, o que torna possível a vida mais próxima da superfície. Mas, como eu disse, For All Mankind conta uma história divergente da nossa, imaginando o que aconteceria se a União Soviética chegasse primeiro à Lua, só que sem se esquecer da realidade dos fatos e não há realidade mais arraigada do que a ambição de poucos que concentram renda e controlam tudo, deixando os muitos cada vez mais empobrecidos. Com isso, o irídio, festejado como uma forma de permitir prosperidade homogênea à Terra, tem o efeito contrário, com os seis países que formam o M-6 (e que não preciso listar aqui, pois são óbvios) controlando a oferta do metal raro e tão importante e permitindo que algumas poucas pessoas acumulem fortunas inacreditáveis enquanto o restante do mundo sofre. Ou seja, a história se repete, só que de outra maneira.
Nesse ambiente complexo por si só, o roteiro de Wolpert e Nedivi tenta se desdobrar nos diversos personagens da série, lidando, na Terra, com Aleida Rosales (Coral Peña) que, de imigrante ilegal, agora é CEO da Helios Aerospace, mas não consegue encontrar felicidade em seu trabalho e Margo Madison (Wrenn Schmidt), vivendo sua velhice encarcerada por traição e, se certa forma, tendo encontrado sua paz a ponto de ajudar Aleida com conselhos. Mas a maior parte do episódio se passa em Marte, com uma nova personagem relevante sendo apresentada, Celia Boyd (vivida por Mireille Enos em um papel de uma Peacekeeper, a força policial de Vale Feliz inspirada na força pacificadora da ONU, mas que lembra sua inesquecível detetive Sarah Linden em The Killing, série coprotagonizada por ninguém menos do que Joel Kinnaman), que, ao recolher um corpo de um imigrante ilegal no Planeta Vermelho que todos acham que se suicidara, percebe que há algo errado, o que acaba revelando o primeiro assassinato no planeta, com o primeiro suspeito sendo o norte-coreano (e primeiro a botar os pés por lá) Lee Jung-Gil (C. S. Lee), o que promete ser um dos mistérios da temporada.
No seio da família Baldwin, somos reapresentados a Alex Poletov Baldwin (agora vivido por Sean Kaufman), filho de Kelly (Cynthy Wu) e neto de Ed (Kinnaman) que acabou de graduar na primeira escola marciana, mas que não tem perspectivas de futuro, sendo atormentado por suas saudades da Terra que ele não pode voltar por ter sido levado para Marte ainda muito pequeno. Kelly, por seu turno, depois de 10 anos tentando achar vida nativa em seu novo lar, tem poucas esperanças de que isso acontecerá e Ed, escondendo seu câncer da família e tendo sido condenado por ter ajudado no furto do asteroide, continua firme e forte em suas intenções revolucionárias. No entanto, a revolução original parece sobreviver mesmo somente nas ações clandestinas – basicamente pichações de protesto – Lily Dale (agora vivida por Ruby Cruz), filha mais nova de Miles (Toby Kebbell) e Amanda (Shannon Lucio) que se formou com Alex, já que seu pai, líder original do levante, agora tenta navegar a diplomacia das negociações.
E a navegação é que o maior problema do episódio, pois há gente demais, situações novas demais (nem falei do Presidente Bragg – Randy Oglesby – e da procura de vida nas lutas de Saturno e Júpiter pela Helios e por sua concorrente soviética e mencionei apenas por alto a questão da imigração ilegal, outro aspecto que espelha nossa realidade atual por aqui) e tempo de menos em um episódio que precisa dar conta de nove anos de acontecimentos entre temporadas. A narrativa fluida perde espaço para a narrativa episódica, com a dedicação de muito pouco tempo para cada núcleo, com o objetivo de fazer um grande apanhado de tudo que acaba se resumindo, em termos de relevância, ao assassinato ocorrido em solo marciano, com todos os demais dramas pessoais simplesmente não tendo o peso que deviam ter pela minutagem acanhada que recebem. Por outro lado, o visual de Vale Feliz ficou muito bom, realista como deve ser, mas ao mesmo tempo dando a clara impressão de expansão de uma comunidade realmente complexa, com direito a restaurantes, feiras, plantações e diversas camadas que replicam as camadas socioeconômicas da Terra, mas, claro, espaço comprimido. Alguns podem dizer que o CGI parece artificial, mas ele, para mim, mais do que cumpre sua função de facilitar o mergulho do espectador nessa colônia em um literal Novo Mundo.
Se não foi um começo fora de série, temos que lembrar que For All Mankind é justamente assim, com inícios menos do que ideais que vão abrindo espaços para episódios sensacionais e temporadas de se tirar o chapéu. Não há razão para duvidar que teremos uma repetição dos sucessos passados nesse que, agora, é o penúltimo ano de uma série que já fez história (mesmo que alternativa, he, he, he).
Obs: Quem quer que tenha traduzido o título do episódio para o português deve ter lido errado o original, First Light, que significa Primeira Luz (ou Luz da Manhã, no contexto, para ser mais poético) e que faz sentido dentro da história. First Flight é que seria Primeiro Voo… Mas eu deixei como oficialmente traduzido, até alguém se tocar e mudar, como volta e meia acontece.
For All Mankind – 5X01: Primeiro Voo (For All Mankind – 5X01: First Light (EUA, 27 de março de 2026)
Criação: Ronald D. Moore, Matt Wolpert, Ben Nedivi
Direção: Sarah Boyd
Roteiro: Matt Wolpert, Ben Nedivi
Elenco: Joel Kinnaman, Wrenn Schmidt, Cynthy Wu, Coral Peña, Toby Kebbell, Mireille Enos, Costa Ronin, Sean Kaufman, Ruby Cruz, Shannon Lucio, C. S. Lee, Dimiter Marinov, Randy Oglesby
Duração: 59 min.
