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Crítica | “For the First Time” – Black Country, New Road

por Matheus Camargo
249 views (a partir de agosto de 2020)

“IT’S BLACK COUNTRY OUT THERE!”

O primeiro álbum da banda Black Country, New Road, For the first time, pode ser descrito como um trabalho que conta o ciclo de um relacionamento falho. Mas prefiro descrevê-lo como uma espiral. Uma rua sem saída. Quando as memórias obscuras surgem, quando as dúvidas são cantadas, e os arrependimentos são trazidos à luz por instrumentos conciliados em ímpeto, você percebe que não tem para onde correr, pois não há mais chão, nem luz, nem espaço, ou tempo. Tudo que você enxerga é a si mesmo, derretendo enquanto paranoias são regurgitadas e ferimentos são reabertos, e não há ópio no mundo para anestesiar a dor. Um álbum composto por seis faixas que vão dos quatro aos dez minutos de puro rock experimental, onde cada peça desse quebra cabeça soa industrial, amargo e profano. It’s black country out there.

Instrumental é a faixa de abertura, construindo um suspense épico a cada batida, repetição e linha melódica que escolhe tramar. É uma anomalia. Uma abertura incômoda por não te dar nas mãos um roteiro a seguir. Não há o que almejar. Cada segundo de silêncio é seguido por instrumentos que cantam por si só, modulando em poder um reino psicodélico de incerteza, porém, resultando em minutos memoráveis. Athens, France adiciona os vocais nublados de Isaac Woods e sua composição carnal. A primeira estrofe direciona o álbum numa linha tênue de sentimentos. É como andar em cima de um muro, questionando em que extremo emocional iremos cair. A vulnerabilidade aflora a cada palavra solta numa voz embargada acompanhada de fantasmas que mal conhecemos, mas já nos parecem tão familiares.

Entretanto, Science Fair e Sunglasses são o rosto da obra. Feche os olhos e enfrente seus maiores pesadelos. A primeira faixa acrescenta, pouco a pouco, uma dose a mais de fúria, enquanto a história caminha, flertando com a ambiguidade e reflexão em cada uma de suas letras. Caminhada essa que explode na segunda metade da música, colapsando em pura ilusão e descontentamento. E, se a canção anterior insere certos elementos conforme o tempo avança, Sunglasses retira, rompendo com os compromissos e expectativas que depositamos. Um diário aberto que expressa indignação com o comodismo, a mediocridade dessa rotina exaustiva, se sentir reduzido a um frame que estacionou na memória. Essa inconstância, essa imperfeição, não poder esperar nada, não poder se apegar a nada, porque tudo pode ser retirado ou acrescentado a qualquer momento. É a tradução perfeita do momento que vivemos, da cólera de uma geração inteira. 

E, como uma lufada de ar fresco, Track X nos dá tempo para respirar. Um arranjo simples e uma impressão, ainda que leve, de que o céu começou a clarear. É um prazo necessário, para que possamos absorver as bagagens antecedentes e, ainda assim, entender que mesmo nos momentos mais calmos, ainda lutaremos para ter nossas indagações respondidas. E não há resposta. Temos arte, temor e contemplação. Parte de nós o sentido a dar para tantas interrogações. E o significado que a banda dá para essa jornada vem da única forma possível, em Opus: uma construção de tensão e nostalgia deliciosa de presenciar, seguida da libertação dos demônios interiores, que marca o fim do ciclo de derrota após o fim dessa relação. “What we built must fall to the rising flames”, e aqui se encerra. Que o esforço que investimos em criar algo queime, e que de suas cinzas erga-se nova vida. 

For the first time é um álbum brutal. Um clássico moderno. Uma possível marca na indústria. Poucas vezes me senti tão absorto a instrumentais e na maneira que eles criam, desmantelam, reerguem e desmancham novamente, em instantes arquitetados perfeitamente, mas que nunca soam engessados. Cada canção é sua própria obra, seu próprio mundo, seu próprio clímax. Nada vai ser entregue mastigado, e uma vez capturado por essa realidade, haverá muito para analisar, para descobrir, para se perder. E após toda euforia, após todo êxtase, após seus rebentos e remendos e relentos, fica fácil de chegar, com estrelas nos olhos e alívio nas costas à conclusão de que eu nunca ouvi nada assim

Aumenta!: Sunglasses
Diminui!:
Minha canção favorita do álbum: Science Fair

For the first time
Artista: Black Country, New Road
País: Reino Unido
Lançamento: 05 de Fevereiro de 2021
Gravadora: Ninja Tune
Estilo: Rock Experimental, Post-Punk, Rock

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