Crítica | Fora de Série (2019)

“Nós temos que ir a uma festa essa noite.”

Há um parentesco de Fora de Série com a comédia Superbad – É Hoje, de Greg Mottola. Ao mesmo tempo, particularidades distinguem as obras em execução, a começar pelos protagonistas, antes masculinos, passarem a ser mulheres. A proximidade, por sua vez, começa a ser confirmada por causa de uma das personagens principais ser justamente irmã de Jonah Hill. Em ambas as produções, ademais, jovens amigos desde pequenos, prestes a saírem do colégio, buscam uma oportunidade de enfim “aproveitarem” as suas adolescências, como pensam ser aproveitar essa etapa da vida. Amy (Kaitlyn Dever) e Molly (Beanie Feldstein), que sempre priorizaram os estudos, confrontam-se com a notícia de que seus colegas de classe também irão para universidades, mas, ao menos, festejaram durante a jornada, enquanto elas não. A narrativa, consequentemente, irá conduzir essas duas garotas para a grande festa antes da formatura, onde planejam conquistar o que ainda não conquistaram. O problema é não saberem nem qual é o endereço em questão, que será procurado a noite toda pelas meninas, pulando de evento em evento até chegarem ao correto.

Agora, Olivia Wilde, responsável por comandar esse projeto, traz uma perspectiva feminina e uma repaginação para a contemporaneidade. O próprio roteiro é escrito apenas por mulheres, quatro, interessadas em explorar, sob um ponto de vista mais pessoal, esta mesma busca intensa por uma vivência nunca antes usufruída. As pessoas não conhecem essas garotas por quem elas são. E, paralelamente, elas não conhecem essas pessoas por quem elas são. Enquanto Molly, porém, quer se encaixar desesperadamente na festa, Amy possui mais receios, mais inseguranças. Nesse sentido, a proposta por pares românticos às meninas, que complementa em um nível mais privado os arcos, tem seus altos e baixos, como basicamente comporta-se o roteiro, inconstantemente. Se Ryan (Victoria Ruesga), que interessa à Amy, é uma personagem construída com naturalidade – o modo como Wilde nos apresenta à jovem subverte o olhar do espectador -, Nick (Mason Goodin) é um alguém muito genérico para ter o mesmo peso. Assim sendo, a estreia diretorial de Wilde prova ser importante para engrandecer o conjunto, com um apelo visual que contribui para uma simpatia.

Mediante a maneira como Olivia encena os relacionamentos e até as problemáticas respectivas, cena à cena, Fora de Série ganha muito coração, sentimento, em sua progressão. Primeiramente, a apresentação do choque de Molly ao perceber-se como não sendo superior aos demais colegas de sua classe é muito competente, comportando o impacto necessário para que a condição trágica, o clássico “tapa na cara” na garota, seja evocada e convincente. Mas é o medo pelas coisas se transformarem que move em essência o drama das personagens, com a questão da festa sendo mero pretexto para as jovens repensarem os seus destinos. Em paralelo, a estrutura narrativa do longa-metragem compartilha do discurso da obra a noção de renovação, passando a primeira hora recriando completamente os seus cenários. Entretanto, quando chega a festa e posteriormente o clímax, tal processo gradativo murcha bastante, passando a se ater a um senso mais previsível de causa e consequência. O uso de personagens secundários também é questionável, visto que usa-se narrativamente uns coadjuvantes que, até então, a comédia não tinha se importado em explorar.

Feldstein e Dever, no entanto, sustentam a química esperada em vista da grande amizade entre suas personagens. Para impulsionarem a comédia, que é o gênero do projeto, a trilha-sonora tem, por sinal, um papel relevante em termos de mover o espirituosismo intencionado pela cineasta. Olivia Wilde possui tato para o timing entre as protagonistas, muito orgânico e que ganha sustância quando o longa opta por entrar em caminhos mais ácidos, mais próximos de um Superbad, produto de sua época. A sexualidade das garotas, por exemplo, é exemplificada em gags naturais, como a piada relacionada a um urso de pelúcia. Em termos de inventividade para certas cenas, a confusão das protagonistas com um entregador de pizza, mais para frente, é um dos auges desse roteiro. E, dentre o elenco coadjuvante, Billie Lourd – que tem ninguém menos que a saudosa Carrie Fischer em sua árvore genealógica – precisa ser exaltada, interpretando uma personagem enigmática que é usada tanto para elevar uma veia cômica, com traços absurdistas, quanto para mover a narrativa. Em contrapartida, Jessica Williams perde-se em uma trama totalmente gratuita, um ponto negativo.

Wilde pensa, como Superbad comentava ao seu fim, que existe uma recompensa em se entregar ao mundo, contudo, igualmente existe uma importância inerente nas coisas “menores” construídas, como é o caso de uma amizade tão verdadeira e longínqua quanta a dessas amigas. Amy precisa tanto ir para Botsuana quanto reafirmar a sua relação com Molly. A quebra do conservadorismo das protagonistas, que não queriam se entregar à vida social, é marcada, por exemplo, pela cena na Biblioteca – que parece desnecessária à narrativa, mas serve à mensagem. Enquanto tentam encontrar certas respostas em uma ambientação mais tradicional, terminam abruptamente as encontrando numa rede social, espaço que antes rejeitariam por ser um suposto “impeditivo” às suas vidas. Transformações acontecerão, e Fora de Série encontra-se como parte da mudança de abordagem para comédias adolescentes. Mesmo assim, outras questões sempre se mantém. Na conclusão da comédia de 2007, Jonah Hill, também estando junto de um par romântico, observava com carinho Michael Cera passear com outra garota. Pois a única coisa que se conserva é o amor.

Fora de Série (Booksmart) – EUA, 2019
Direção: Olivia Wilde
Roteiro: Emily Halpern, Sarah Haskins, Susanna Fogel, Katie Silberman
Elenco: Kaitlyn Dever, Beanie Feldstein, Jessica Williams, Jason Sudeikis, Diana Silvers, Skyler Gisondo, Billie Lourd, Molly Gordon, Mason Gooding, Eduardo Franco, Lisa Kudrow, Will Forte, Victoria Ruesga
Duração: 102 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.