Crítica | Forças do Destino

Os deuses parecem interessados em unir o casal formado por Sandra Bullock e Ben Affleck nesta comédia romântica bem “mais ou menos”. Para fazer isso, utilizam as forças da natureza para coloca-los na mesma trilha dramática, isto é, pessoas que estão em busca do retorno. Ele, para casa. Ela, para encontrar o filho. Com necessidades dramáticas distintas e perfis antagônicos, os personagens passam por situações demasiadamente inusitadas e neste processo de encontros e desencontros, refletem sobre suas próprias condições.

Assim é Forças do Destino, uma comédia romântica meiga e que se esforça, mas não decola, tal como “aquela” promessa do Tinder que não avançou por conta do diálogo e da decepção depois que a realidade se estabelece. Trocando em miúdos: havia uma boa premissa, mas a execução não consegue dar conta do roteiro. É uma espécie de namoro que tentou de tudo, mas no final das contas não percebeu que o rumo da coisa era nada dar certo. Escrito por Marc Lawrence, dramaturgo que mais adiante fecharia parcerias interessantes com Sandra Bullock, em especial, no divertido e inteligente Amor à Segunda Vista, a produção em questão foi comandada por Bronwen Hughes.

O cineasta não consegue fazer muita coisa com o roteiro pouco inspirador, desde o enredo aos personagens sem brilhos, planos como uma tábua. Em seus 105 minutos, longos para uma narrativa com premissa pouco inspirada, Forças do Destino nos apresenta aos protagonistas Sarah Lewis (Sandra Bullock) e Ben Holmes (Ben Affleck). Ela é uma mulher aventureira e que se entrega a qualquer situação desafiadora. Ele, ao contrário, é o certinho, a pessoa que não se permite errar ou fazer coisas fora do comum.

Na união das forças da natureza, ambos aprenderão lições valiosas sobre amor, amizade, família e mudanças necessárias em suas respectivas vidas. Ele precisa voltar para casa, assumir o posto de marido e casar-se com Bridget (Maura Tierney), esposa dedicada e apresentada como pouco inspiradora pelo roteiro. No caso de Sarah, o seu retorno para Geórgia envolve questões matriarcais, pois o seu interesse é recuperar o contato com o seu filho. Será que neste processo os jovens conseguirão se apaixonar? Aparentemente sim, mas não há espaço para sentimentalismo quando os dois passam por situações vexatórias para conseguir o retorno tão caro quanto “a volta pra casa homérica”.

Antes do contato mais próximo, Sarah e Ben são surpreendidos com um pequeno incidente que impossibilita o avião em seu processo de decolagem. O que fazer? Ela precisa ver o filho. Ele precisa casar. Ambos decidem então voltar por meio de uma carona. As coisas, no entanto, não seguem o planejado. Traficantes, chuvas torrenciais, perda de documentos e outros desafios impedem que os dois consigam voltar ao lar. Rola até um strip-tease básico com o personagem de Affleck, tendo em vista recolher dinheiro para viajar.

Ao passo que a narrativa avança, os personagens começam a apresentar um vínculo, não apenas sentimental, mas desejos naturais mesmo, oriundos de duas pessoas numa situação adversa e propicia para emoções que podem não ser duradouras, mas que estão lá, latentes, desde um olhar captado pela direção de fotografia assinada por Elliot Davis, em meio ao design de produção de Lester Cohen, membro da equipe técnica que utiliza bastante material cenográfico externo para compor as cenas que em sua maioria, apresentam os personagens em corrida constante para o já apontado retorno para casa.

Em meio aos sons da condução musical de John Powell, Sarah e Ben repensam as suas prioridades, tomam decisões importantes, mas no final das contas, não cedem ao sentimentalismo que para o momento em questão, apresenta-se como dispersão. Ele tem um casamento para assumir, mesmo que os seus pais sejam a representação de como tal instituição nem sempre é a saída. Ela tem que focar no filho e no reajuste das suas tarefas maternas, relegadas por conta de “manobras do destino”.

Ambos possuem projetos que não permitem amar intensamente sem pensar nas consequências. Se fosse melhor conduzido e tivesse uma história mais amarrada, Forças do Destino seria uma comédia romântica memorável, pois não cede ao óbvio em seu desfecho. O problema é que ao chegarmos na reta final, já estamos cansados dos personagens, das situações forçadas e de qualquer coisa que não seja terminar o que já começamos, isso quando não desistimos do filme por conta da descarga de desanimo da história apresentada. Uma narrativa de boas intenções. E só. Alegorizando novamente, é aquele relacionamento que insistimos em fazer dar certo quando as próprias forças da natureza nos dizem que não vai decolar, tal como o avião dos protagonistas.

Forças do Destino (Forces of Nature – Estados Unidos, 1999)
Direção: Bronwen Hughes
Roteiro: Marc Lawrence
Elenco: Sandra Bullock, Ben Affleck, Blythe Danner, Maura Tierney, Steve Zahn, Blythe Danner, Michael Fairman, Ronny Cox, David Strickland,
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.