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Crítica | FormiguinhaZ

por Davi Lima
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FormiguinhaZ

O artifício da animação no cenário cinematográfico e em toda a sua idealização é abranger possibilidades de se contar histórias e maneiras de contar histórias, tanto utilizando o digital 3D quanto o manual 2D, e todas as variações entre esses extremos. Nisso, o projeto da Dreamworks com FormiguinhaZ parece em parte limitar a liberdade da animação quando se absorve o alto realismo textual e interpretativo do longa-metragem, mas na verdade transgride bolhas infantis e “categorizantes” das animações no mercado com o mesmo artifício que tanto valoriza o live-action. Dessa forma, a presença de Woody Allen como voice actor e toda a emulação de seus filmes, dentro de um cenário digital que busca captar a realidade biológica e antropomórfica do mundo das formigas, acabam fundamentando, dentro da mesma obsessão pelo realismo do cinema com atores, o artifício máximo da animação em sua liberdade narrativa.

Ao se pensar na apresentação do filme, na ideia de adentrar o cenário das formigas por meio de uma chamada Z, o protagonista interpretado por Woody Allen, busca-se a narrativa clássica e “woodyalleana”. Enquanto um personagem é colocado como centro da história, como nos padrões clássicos de roteiro, os diálogos e a cena de uma formiga num divã introduz a linguagem dos filmes do diretor apaixonado por Nova Iorque, de histórias que representem seus medos, inseguranças como um ser insignificante num realismo cruel da verdadeira realidade, e até mesmo seu jeitinho de falar que dita um ritmo para as cenas.

Nesse sentido, o longa vai se ajustando em colocar esse modelo autoral de Allen dentro de uma história mais grandiosa, mitológica e emulativa de jornadas clássicas de heroísmo, revolução, guerra e romance. A escolha em representar as formigas digitalmente numa busca de fidelidade biológica de anatomia e a metáfora inerente aos termos biológicos quanto à estrutura de vivência dos insetos, seja sociedade ou colônia, permitem à história dinamizar amplos assuntos, ditos adultos, de política, fascismo, socialismo, monarquismo, utopia, etc. Logo, há uma reunião do útil e do agradável muito precisa para compor tantas dimensões discursivas, como Woody Allen faria em seus filmes e também faz por interpretar o protagonista Z, como de provocar efeito cinematográfico dos variados gêneros cinematográficos.

Diante disso, pode-se pensar que o digital é um mero artifício para conseguir fazer mais um clichê hollywoodiano efetivo com o espírito Woody Allen, em vista que a ideia parece maleável o suficiente para se propor em 2D. Porém, o caráter 3D coloca camadas ambíguas, semelhantes ao live-action, como a emulação de planos cinematográficos de profundidade de campo, permitindo que mesmo na limitação da época com gráfico digital, haja um efeito mais acoplado à linguagem realista dos longas em live-action. Não que o 2D seja impossibilitado de disponibilizar semelhantes efeitos, no entanto a interface do 2D para o olhar do espectador, seja público médio ou cinéfilo, transpassa pela categorização imposta do mercado da animação para crianças, assim como perde o grau de verossimilhança que tanto o público almeja ver nos filmes.

Além disso, a força de compreender espacialmente a moral “woodyalleana” do ser insignificante, das formigas que descobrem suas proporções entre si e diante do mundo dos humanos, ou dos diálogos metalinguísticos da diversão da animação com o realismo, como quando Z fala sobre judiciário, pestes e sistemas democráticos, são mais intensos quando o digital desafia não só as possibilidades de se trabalhar narrativamente como o efeito de imersão discursiva da imagem com o espectador. 

Porque tratar com o realismo não é apenas expor crueza, palpabilidade e cenários reais, como a captação da câmera de cidades, etc. O realismo se baseia na perda de percepção de que se está assistindo a um filme pela naturalidade da construção de cenas, das transições da montagem das imagens, entre outros fatores que questionam o falso e o verdadeiro. Compreendendo isso, parece que há uma antítese no cerne do filme, já que formigas não falam, não são antropomórficas e muito menos vão ao divã, a bares e dançam na pista de dança para provarem algum individualismo esquisito numa colônia em que todos pensam com a mesma cabeça, sobre o destino de ser uma formiga trabalhadora ou soldado. Nessa descrição conflitante consta a harmonia que o filme desafia, de associar estruturas sociais e narrativas verossimilhantes a formigas que biologicamente vivem em sociedade como senso comum, o 3D busca aproximar isso pelos voice actors conhecidos de Hollywood, como Danny Glover, Jennifer Lopez, Sylvester Stallone, Sharon Stone e Christopher Walken. Pelo antropomorfismo e na construção de diferenciações de esqueletos e faces para associar a cada ator e atriz, acaba por se tornar possível captar o realismo, graças ao universo da animação.

Desse jeito, FormiguinhaZ é um filme expansivo em saber se significar no realismo que tanto o público adulto reclama que pouco existe no mundo das animações. A Dreamworks com este longa-metragem parece em parte se vender a essa reclamação, entretanto vende a tecnologia e como o cinema de animação é na verdade para todos os públicos, como sempre pode ser apreciado.

FormiguinhaZ (Antz) – EUA, 1998
Direção: Eric Darnell, Tim Johnson
Roteiro: Todd Alcott, Chris Weitz, Paul Weitz
Elenco: Woody Allen, Anne Bancroft, Dan Aykroyd, Jane Curtin, Danny Glover, Gene Hackman, Jennifer Lopez, John Mahoney, Paul Mazursky, Grant Shaud, Sylvester Stallone, Sharon Stone, Christopher Walken
Duração: 83 minutos

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