Crítica | Forrest Gump, O Contador de Histórias

Há quem ainda insista na velha afirmação de que quase todos os livros que serviram de inspiração para filmes são superiores a suas adaptações. O caso de Forrest Gump, do diretor Robert Zemeckis, é um daqueles em que a obra cinematográfica se tornou tão aclamada que pouco se suscita essa comparação. Ainda que o escritor da obra original, Winston Groom, tenha declarado seu desgosto profundo pela obra, o mais acertado seria reconhecer que a adaptação para o cinema ganhou vida própria tanto por seu impacto no público e na crítica na época de seu lançamento como pela enorme diferença de tom se comparada ao romance original. Na adaptação de Zemeckis, Gump tornou-se mais infantil, mais inocente e mais doce. Se a opção deu errado? Basta assistir ao filme e tentar não se sentir capturado pelo carisma do personagem principal.

Em primeiro lugar, é preciso compreender o cenário em que as histórias do protagonista acontecem. Forrest é um personagem singular vivendo em um país imbuído na guerra do Vietnã, na eclosão do movimento hippie, na luta contra o preconceito racial (o subtexto é inserido na passagem dos panteras negras), dentre outras convulsões sociais importantes na história estadunidense do século XX. Deve-se ter isso como norte, pois todos os personagens principais de Forrest Gump relacionam-se diretamente a esses eventos históricos – a amiga de infância Jenny, o tenente Dan e o amigo Buba. Desse modo, ao contrário de todos os demais personagens, Gump é o único que conserva a doçura e o humor do começo ao fim. Em um ambiente tão beligerante e tão cheio de maldade, ser um outsider que transmite tamanha ternura é possivelmente o maior de todos os atos de rebeldia. E essa rebeldia transborda e conquista o público de saída.

Vale notar também como o filme trabalha bem a ideia de autenticidade com seu personagem principal. Enquanto a vida de Jenny, que sofrera abusos quando criança, não parece ter nenhuma rota nem objetivo (a cada vez que ela aparece, sua situação é completamente diferente, embora o sofrimento se mantenha todo lá), a vida de Forrest parece seguir uma gramática própria, na qual a existência contém um sentido si mesmo e bastante claro para o personagem. Por isso, todas as ações do protagonista que parecem tão insólitas despertam tanta comoção no público. Correr por todo o país, sem qualquer razão prática, não faz qualquer sentido a priori. Mas é isso que inspira tantas pessoas a segui-lo sob o sol e a chuva, quer fosse dia ou noite.  Da mesma forma, correr para salvar todos os amigos de um bombardeio de napalm seria no mínimo improvável. Mas é esse ato absurdo que salva tantas vidas na guerra. A vida de Forrest encontra um sentido fechado em si mesmo. Incompreensível para os outros e, por isso mesmo, tão valioso.

É essa ressignificação do sentido da vida, em um mundo cheio de pessoas que correm de um lado para o outro, em busca de dinheiro, fama e poder, que torna a história de Forrest Gump tão interessante. Enquanto os demais buscavam apenas moldar-se a um papel social bem definido (o hippie, o soldado, o político, etc), dentro de uma suposta normalidade, o protagonista rompia com tudo isso surpreendendo continuamente o espectador. O roteiro capricha no humor com que embala todas essas situações insólitas. O menino Forrest, com seu jeito desengonçado de dançar, fora a inspiração até para os passos de Elvis Presley, segundo o que nos conta o roteirista Eric Roth. Zemeckis também é absolutamente correto em sua direção, mas o destaque técnico fica mesmo para os efeitos visuais (a pós-produção foi impecável nas cenas em que insere Forrest em filmagens reais de eventos históricos), para a atuação completamente fora da curva de Tom Hanks e para a trilha sonora de Alan Silvestri, que se tornou imortal.

No fim das contas, Forrest é o único personagem comprometido com a felicidade ao longo de todo o filme. Enquanto o tenente Dan busca o sofrimento no álcool como uma espécie de gozo, após perder as pernas no Vietnã e Jenny afunda-se em uma vida camaleônica mas que sempre repete os mesmos padrões de sofrimento (inclusive nos relacionamentos abusivos, que ecoam os abusos que sofrera de seu próprio pai), Forrest experiencia de fato uma vida rica e proveitosa. Não identifico no filme nenhuma tentativa de construir uma mensagem final ou qualquer pieguice que o valha. A decisão de Zemeckis de repetir o plano-sequência da pena voando me parece a melhor possível, ao renovar o tom fabular e quase mágico de todas as histórias que Forrest nos contara sentado no banco da praça. É como se o diretor nos dissesse que nem seria preciso acreditar em tudo o que fora narrado. O que me parece relevante após terminar cada uma das sessões que já fiz de Forrest Gump é compreender o que somente uma história com um pé na realidade e outro na fantasia poderia nos dizer – que às vezes é preciso ser um tanto ilógico para ser saudável em um mundo tão doente.

Forrest Gump, o Contador de Histórias (Forrest Gump, EUA – 1994)
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Eric Roth (baseado no romance de Winston Groom)
Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Mykelti Williamson, Haley Joel Osment, Bob Penny, Sam Anderson, Margo Moorer, Peter Dobson, Siobhan Fallon
Duração: 142 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.