Crítica | Frankenweenie (2012)

“Ciência não é boa ou ruim. Mas pode ser usada das duas maneiras. Por isso que você sempre deve ser cuidadoso.”

Contém spoilers.

O mundinho estranho do cineasta responsável por Edward Mãos de Tesoura, Batman – O Retorno e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça poderia comportar um conto quase milagroso como Frankenweenie? Tim Burton possui uma inocência que muitas vezes é rejeitada, um pouco ignorada em decorrência dos maneirismos do conhecidíssimo diretor, construtor de uma identidade artística particular muito interessante, misturando conceitos estéticos com temáticas envolvendo, entre outras questões, o anseio por pertencimento, novamente retomado pelo artista, agora em relação à vida. A narrativa de um menino cientista que reanima o seu cachorro recentemente morto é um dos encontros mais puros entre a desordem gráfica, com criaturas monstruosas, e a esperança do conteúdo, que até se distancia um pouco do costume do cineasta. Os nomes que interpretam os bonecos de stop-motion não são exatamente os mesmos que sempre retornam – as ausências significativas, por exemplo, de Johnny Deep e Helena Bonham Carter. Frankenweenie encontra o clássico, porém, possui coisas inéditas a serem ditas pelo esquisito cineasta.

A ingenuidade de um garoto que perdeu o seu melhor amigo e resolve retorná-lo ao mundo dos vivos é contada através da estrutura clássica de Frankenstein, clássico da literatura que ganhou sua versão mais famosa durante a década de 30, para nunca mais sair do imaginário popular – as referências preenchem o longa-metragem. O trágico é substituído pelo milagroso. Victor Frankenstein (Charlie Tahan) – um sobrenome um pouco expositivo demais – não possui sonhos criacionistas, como a sua contraparte do clássico, mas puros, em restaurar um relacionamento aparentemente perdido. A presença de um sentimento nessa animação, desse modo, é mais que evidente, devido a relação empática que o cinema costuma expor entre espectadores e cachorros. Frankenweenie consegue estabelecer uma comunicação interessante nesse sentido, porque coloca como antagonistas não apenas outros estudantes do colégio do protagonista, contudo, suas não-intenções igualmente puras aos do personagem principal. O professor de ciências é o contraste perfeito entre ameaça e sabedoria – o que é certo, ainda puro, e o que é errado.

O cuidado em não mostrar o corpo morto do cachorro, esmero que não aparece nos demais casos, com os corpos de ratos e peixes espantando o espectador em resposta ao óbvio grotesco, aproxima o espectador de Sparky, o simpático cachorro, carismático em oposição aos outros casos, que se transformam em monstros e aberrações. A construção em stop-motion, de universo e emoções, é singular. As cores em preto e branco, portanto, são importantíssimas para que esse choque entre o verdadeiro e as partes nojentas da realidade não redefinam a experiência original para inacessível a espectadores mais sensíveis. O Estranho Mundo de Jack – animação que o cineasta participou parcialmente – explorava um mundo de mentira, de monstros, enquanto esse se embasa sobre a realidade, de crianças. Uma menina em particular ganha uma atenção a mais que não se justifica discursivamente, apenas narrativamente, mas superficialmente, porque a garota possui uma cadela que é interesse amoroso de Sparky – um relacionamento adorável, pontuado por um piscar de olhos maravilhosos ao icônico A Noiva de Frankenstein.

As crianças do filme são personagens peculiares, demasiadamente exóticos, com deformações físicas que acentuam essa tesão burtoniana pelo estranho, o desfigurado como especial. Os olhos de uma menina em particular incomodam muito, promovendo sensações particulares de obras como essa, uma mistura de horror com fantasia. A iconografia do artista está presente de uma maneira um pouco casual, sem grandes novidades, contudo, podemos perceber algumas inventividades, especialmente no caso dos monstros que debutam no terceiro ato, momento da animação em que ela se desfoca do seu viés discursivo e abusa demais de um chamativo grandiloquente, rompendo um tom antecessor menos absurdista. O cômico continua. Os clássicos do horror referenciados originam uma atmosfera de mundo graciosa, mesmo que às vezes ridícula em um sentido estético, despirocado. Os contrastes entre crianças brincando de ser Deus, aprendendo ciência inocentemente, e suas aparências extraterrestres – um racismo em um dos casos -, além da recorrente música de Danny Elfman, complementam o projeto.

Um longa-metragem que investe em um relacionamento entre o morto e o vivo, sendo desenvolvido justamente por quem o desenvolveu, poderia acabar se encaminhando a uma despedida trágica, mas conciliadora a uma inexorável aceitação do destino. O mundo não é assim, no final das contas. Os milagres não existem. O cineasta, de forma clichê e surpreendentemente, ao mesmo tempo, permite que o cachorro permaneça com o seu amigo e os demais, contrariando uma carreira antigamente mais entristecida. O enredo, no entanto, comporta mais características originais de Tim Burton do que as aparentes. Uma nova etapa que retorna às raízes, pois o projeto é uma refilmagem de um curta-metragem de mesmo nome dirigido pelo artista, ou seja, será que Tim Burton um dia era realmente um artista sem esperanças ou apenas desiludido? Frankenweenie reconfigura-se como um retorno cuidadoso a uma ótica ímpar, após o estrondoso equívoco que Sombras da Noite, do mesmo ano, acabou sendo. Uma animação sobre amor, sobre milagres que, enfim, permanecerão apenas em ficção-científicas fantásticas como essa.

Frankenweenie – EUA, 2012
Direção: Tim Burton
Roteiro: John August, Leonard Ripps
Elenco: Charlie Tahan, Catherine O’Hara, Martin Short, Martin Landau, Atticus Shaffer, Winona Ryder, Robert Capron, James Hiroyuki Liao, Conchata Ferrell, Tom Kenny, Frank Welker
Duração: 87 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.