Crítica | Free Willy

A cena icônica é reconhecida por muita gente, até mesmo para quem nunca assistiu ao filme completamente. Aos gritos de uma torcida que entoa “Vai Willy”, a orca gigantesca salta o paredão da costa de uma cidade litorânea e segue mar adentro, numa representação alegórica e educativa sobre libertação dos animais em cativeiro. Aos que não conhecem, o texto versa sobre Free Willy, clássica aventura que se tornou um dos símbolos dos anos 1990, narrativa sobre a amizade entre um jovem garoto e um animal marinho, ambos literariamente construídos com características semelhantes, tendo em vista permitir que a história funcionasse como uma fábula do amadurecimento, da liberdade e da importância da família. Neste processo, o filme também flerta com discussões pertinentes sobre meio ambiente, mesmo que a história por detrás da aventura infelizmente não tenha alcançado o mesmo desfecho hollywoodiano desejável.

Aos que não sabem, a orca do filme se chamava Keiko e foi caçada na Islândia, em 1979, quando ainda tinha três anos. No livro Matando Keiko: A Verdadeira História do Retorno de Free Willy à Vida Selvagem, de Mark Simmons, o autor, conhecido por ter sido um dos treinadores da orca durante uma etapa de sua vida, alegou que Keiko nunca viveu como um animal selvagem, por isso a ação que moveu lacrimejantes campanhas fracassou: três anos após a libertação, a orca morreu de pneumonia. Destinada a fome, desidratação e solidão, o animal em questão não conseguia pegar peixes, tampouco percorrer longos caminhos, como outros de sua espécie. A relação com outras orcas também não deu certo, pois Keiko preferia isolar-se, algum incomum neste grupo. Isso não significa que as observações do autor sejam a única opção reflexiva em torno do assunto, mas é algo para se levar em consideração no debate.

O que de fato pode parecer utópico, mas as pessoas precisam acreditar e fazer acontecer é a não retirada destes animais de seus redutos naturais. Menos de 10% dos aquários e zoológicos em todo o planeta possuem programas de conversação de relevância científica. A orca passa, em média, mais de 70% de seu tempo de vida sem se mover, algo que faria vertiginosamente se liberada nos mares mundo afora. É preciso salientar que numa existência natural, a orca nada em média 50 a 225 quilômetros por dia. Nos tanques, expostas para nos deliciarmos em espetáculos que podem ser belos, mas advir de muita crueldade humana, as orcas tem apenas 0,0001% do espaço em habitat natural. Nos últimos quatro anos, o número de atrações aquáticas cresceu de 39 para 76 na China. São dados assustadores do Relatório Animal Welfare Institute (AWI), debatido na Alemanha, em 2019. Voltaremos ao material. Agora, vamos ao filme.

O ponto de partida é a história de Jesse (Jason James Richter), um garoto órfão condenado a ser um Oliver Twist dos tempos modernos. Em sua vida como delinquente ao lado de outras crianças, ele passa bastante tempo nas ruas, destruindo patrimônios e cometendo pequenos delitos, pulsações para possibilidades mais graves, caso não corrigidas no tempo adequado. O problema é que sua personalidade difícil não permite a fixidez em lugar algum. Ele não encontrou a conexão necessária em uma nova família e ainda acredita no possível retorno de sua mãe. As coisas mudam quando o garoto é adotado pelo casal Annie (Lori Pretty) e Glen (Michael Madsen), a dupla que forma a família Greenwood, ainda sem crianças. Isso ocorre quando Jesse é capturado por autoridades enquanto pinchava um pequeno trecho de um parque.

A missão do garoto será cuidar do lugar, a sua sentença. É lá que ele conhece Willy, a indomável orca que possui similaridades com o seu caráter. Teimosa, rebelde e arredia, a orca surpreende a todos pela postura despachada e aberta aos treinos após conhecer o garoto. Antes, ninguém gostava do animal, capturado quando ainda não tinha experiência alguma na vida marinha, tornando-se uma criatura “mal-educada”, conforme os depoimentos dos personagens que não acreditam na mudança do mamífero, crível ao longo dos 112 minutos de Free Willy, uma aventura que traz diversos diálogos educativos sobre criação de animais em cativeiro e os problemas do entretenimento humano voltado ao sofrimento dos animais, uma questão ética que põe em xeque debates sobre os reais valores educacionais de experiencias em parques aquáticos. Inicialmente sozinho, Jesse lutará pelas melhores condições para Willy, algo que ganha maiores contornos do meio para o final, um tanto apressado, com maior interação dos demais personagens.

Dirigido por Simon Wincer, a produção conta com um roteiro esquemático, assinado por Corel Blechman e Keith Walker. É uma aventura com adequadas noções de estética, desde os efeitos visuais supervisionados por Paul Lewis nas cenas com interações entre personagens e animatrônicos, setor gerenciado por Walt Conti, aos desdobramentos das cenas mais intensas, registradas pela eficiente direção de fotografia de Robbie Greenberg, surpreendentemente econômica nas passagens subaquáticas, algo que poderia dar mais ênfase ao espetáculo das imagens tão valorizado pela estética hollywoodiana. Com design de produção de Charles Rosen, o parque, a casa e outros espaços não-naturais ganham uma cuidadosa cenografia e direção de arte, adequadas na construção de ambientes verossímeis para a circulação dos personagens, em evolução diante de seus conflitos internos e externos.

No desenvolvimento dos primeiros pontos de ação ao desfecho, o que podemos observar é que não há nada de educativo em criar animais desta maneira. Não é educativo, como alguns apontam, numa das justificativas para explicar a permanência destes animais em condições aparentemente científicas, mas embasadas no desejo humano de entretenimento sem a medição de consequências. “Uma vida em cativeiro, simplesmente, não é vida”, aponta Nick Stewart, um dos líderes da campanha global que deu origem ao relatório mencionado anteriormente, apresentado recentemente num evento situado na Alemanha. Diante da situação exposta, nos perguntamos: por qual motivo o governo não obriga os parques aquáticos ao redor de todo planeta, libertarem as orcas desta situação aberrante? A resposta é simples: entretenimento para turistas e aquecimento da economia para diversos interessados.

Lançado em 1993, Free Willy é um filme que ganhou. Ademais, Will of Be There, gravada por Michael Jackson, completa o pacote pop da narrativa, mas surge apenas nos créditos finais, discretamente onipresente em alguns trechos, mas apenas por breves notas. A produção ainda deu origem aos filmes subsequentes, além de uma série animada. Ainda sobre orcas, não há como deixar de traçar um paralelo entre o clássico moderno juvenil e Blackfish – Fúria Animal, o documentário sobre a treinadora que morreu após uma investida fatal do mamífero marinho que treinava, uma tragédia que fez o mais famoso parque aquático do mundo, o esteticamente Sea World, monumento arquitetônico grandioso, lançar nota afirmando que não criaria mais orcas em sua estrutura. Orcas, por sinal, são da família dos golfinhos. Um recado aos desavisados, inspirados no clássico Orca – A Baleia Assassina, aventura que estigmatizou tais animais.

Free Willy — EUA, 1993
Direção: Simon Wincer
Roteiro:  Keith Walker, Corey Blechman
Elenco:  August Schellenberg, Jason James Richter, Jayne Atkinson, Lori Petty, Michael Ironside, Michael Madsen
Duração: 112 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.