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Crítica | Frenesi

por Ritter Fan
513 views (a partir de agosto de 2020)

Frenesi marca a volta de Alfred Hitchcock à Inglaterra depois de 20 anos fora de seu país natal. A produção, completamente britânica, com atores britânicos, se passa em Londres e lida com a investigação de assassinatos cometidos por um serial killer, ou seja, algo perfeitamente dentro da especialidade do diretor. Mas, diferente de Psicose, o cineasta dá um tratamento bem mais gráfico ao filme, logo fazendo com que o corpo nu de uma mulher seja encontrado às margens do Tâmisa. Ela fora enforcada com um gravata e os transeuntes, todos participantes de um comício político, logo identificam que é mais uma vítima do “assassino da gravata”, uma espécie de atualização dos famosos casos de Jack, o Estripador e do Caso Christie que são, aliás, mencionados na narrativa.

Com essa abertura, que claramente dá a entender que os assassinatos vêm acontecendo há algum tempo, somos apresentados a Richard Blaney (Jon Finch), ex-piloto da RAF e hoje um barman que não consegue se afastar da bebida. Ele é demitido e encontra-se com seu amigo Robert Rusk (Barry Foster) apenas para que nós da audiência tenhamos oportunidade de também conhecê-lo, já que a sequência é completamente descartável e, em seguida, ele vai chorar as mágoas para sua ex-esposa, Brenda (Barbara Leigh-Hunt), com quem tem uma briga leve na empresa de “matrimônios e encontros” dela, que é entreouvida pela secretária. Tudo isso arma o cenário para o que acontece logo em seguida: Rusk reaparece como cliente já antigo de Brenda querendo que ela consiga uma mulher para ele. Mas Brenda já havia negado trabalhar para Rusk, por seus gostos sadomasoquistas, o que acaba culminando com a morte de Brenda e a revelação de que Rusk é o “assassino da gravata”.

A sequência do assassinato é forte e pesada, pois inclui o estupro seguido do estrangulamento da moça e Hitchcock nada esconde, sendo essa a primeira vez em sua carreira em que a nudez é mostrada. A repulsa que sentimos em relação a Rusk é palpável e nisso o diretor consegue ser muito eficiente. No entanto, o roteiro de Anthony Shaffer, baseado em romance de Arthur La Bern (que mais tarde diria que não ficou satisfeito com o resultado), é amador e cheio de problemas inconciliáveis.

O primeiro deles diz respeito ao próprio assassino. Ele passa a matar as pessoas envolvidas, de uma forma ou de outra, com seu amigo Blaney, de maneira que ele seja culpado pelos crimes. Mas, se Rusk é um psicopata, como o inspetor-chefe Oxford, da Scotland Yard (Alec McCowen) repete várias vezes, então ele é alguém que não consegue parar de cometer seus crimes. E isso já havia mesmo sido estabelecido no começo, com o corpo no Tâmisa. Se é assim, como a condenação de Blaney resolveria as coisas para Rusk? Afinal, se ele matasse novamente, o caso provavelmente seria reaberto de toda forma. Apenas com isso, a estrutura do roteiro desaba sob o peso de muito texto expositivo, muitos aspectos procedimentais e pouco estofo lógico para a cadência de acontecimentos.

Mas os problemas vão mais além ainda no quesito roteiro. Rusk parece ser um assassino que vem matando há algum tempo, mas seus descuidos são absolutamente patéticos. Mata Brenda na empresa dela, no horário de almoço da secretária, como se ela não pudesse voltar de repente. Comete depois outro assassinato em seu próprio apartamento, carregando o corpo para fora dentro de um saco de batatas (com batatas, diga-se de passagem). Como é que ele consegue entrar em seu apartamento carregando um saco de batatas desse tamanho mesmo? Ah, ele é comerciante de frutas e verduras e teria acesso à um saco desses. Claro, mas uma coisa é ter acesso, outra coisa é conseguir transportar algo desse tamanho e peso por escadas em um prédio cheio de vizinhos.

E o pior é que toda a história do “saco de batatas” é alongada ao extremo, com uma inadvertidamente engraçadíssima sequência em que Rusk, desesperado, tem que entrar no caminhão onde colocou o corpo – e que está cheio de outros vários sacos de batata – para resgatar seu broche do punho cerrado de sua vítima. É um dos momentos cinematográficos mais constrangedores que testemunhei e não seria se estivéssemos falando de uma comédia, mesmo que fosse de humor negro.

No entanto, Frenesi, por mais boa vontade que alguém possa ter, não é uma comédia. Novamente faço referência à sequência do estupro e estrangulamento de Brenda. Hitchcock trabalha de maneira a nos mostrar uma cena terrível, nojenta, de enorme eficiência cinematográfica que deveria tonalizar toda sua obra dali em diante. Mas o “pastelão” representado pela sequência do caminhão com Rusk causa estranhamento e confusão e isso sem contar com as duas sequências de Oxford jantando os pratos esquisitos de sua esposa em casa, que são genuinamente engraçadas, mas completamente deslocadas.

É bem verdade que Alma Reville, esposa por toda a vida de Hitchcock e peça fundamental para seu sucesso, teve um derrame e ele voltou aos EUA para ficar com ela, deixando muitas cenas para serem filmadas por assistentes. Mas isso não é desculpa suficiente para o resultado final, ainda que, claro, o irremediável roteiro de Shaffer tenha grande parte da culpa.

Michael Caine, Vanessa Redgrave, David Hemmings e Helen Mirren eram as escolhas de Hitchcock para Rusk, Brenda, Blaney e Babs (namorada de Blaney) respectivamente, mas os quatro, por razões diferentes, não puderam/quiseram atuar. Se um ou mais deles estivesse no elenco, talvez e só talvez, o resultado final tivesse sido mais aceitável em vista da potencial excelência de suas atuações. Mas os atores que efetivamente compuseram o elenco têm performances limitadas e caricatas, sem alma alguma.

E outra substituição ajudou para complicar Frenesi. Henry Mancini havia sido contratado para compor a trilha sonora, mas Hitchcock não gostou do que ouviu, pois achou tudo muito parecido com o trabalho de seu ex-parceiro Bernard Herrmann, com quem brigara mortalmente durante a produção de Cortina Rasgada. O resultado foi a demissão do sensacional Mancini e a contratação de Ron Goodwin, que fez um trabalho pouco inspirado, por vezes dramático, por vezes leve e cômico, ajudando a distrair os espectadores com a inserção de motifs fracos em momentos errados da fita.

Talvez tenha sido a conjunção de fatores, talvez tenha sido o cansaço de Hitchcock já no finalzinho de sua prolífica carreira, mas o fato é que Frenesi é uma obra quase irreconhecível como sendo do Mestre do Suspense. Uma mancha em sua carreira, sem dúvida, mas não foi nem de longe a única e certamente não tem força de sequer chegar perto de apagar o que ele legou à Sétima Arte.

  • Crítica originalmente publicada em 09 de julho de 2014. Revisada para republicação em 08/08/2020, como parte da versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Frenesi (Frenzy, Reino Unido – 1972)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Anthony Shaffer (baseado em romance de Arthur La Bern)
Elenco: Jon Finch, Alec McCowen, Barry Foster, Billie Whitelaw, Anna Massey, Barbara Leigh-Hunt, Bernard Cribbins, Vivien Merchant, Michael Bates
Duração: 116 min.

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