Crítica | Frida, Naturaleza Viva

Mesmo considerando os numerosos aspectos visuais deslumbrantes na cinebiografia da pintora mexicana Frida, lançada em 2002, questionei ao longo da breve análise do filme que faltou mais presença da artista em seu próprio filme, afinal, ao longo dos 123 minutos da produção com Salma Hayek dando uma intensa interpretação ao personagem, a necessidade de divisão do protagonismo com Diego Rivera e o peso da presença comunista de Trotsky deixaram a irreverência de sua obra como uma das partes centrais da história. Um grave problema narrativo que envolve esquemas pouco complexos de compreendermos, isto é, a certeza de um filme com recursos hollywoodianos a capitanear uma trajetória feminina de vida mexicana.

Com o convite para acessar Frida – Natureza Vida, imaginei me deparar com uma abordagem diferente. Lançado em 1983, a cinebiografia foi dirigida por Paul Leduc, cineasta que teve como base o roteiro de José Joaquín Blanco. Resumo da ópera: olhares masculinos para uma saga feminina em dois setores basilares de uma produção cinematográfica: a direção e o roteiro. O resultado não é dramaticamente diferente da produção de Julie Taymor. Os recursos visuais da época e o orçamento não permitiram algumas elucubrações realizadas na versão mais recente, mas isso não impede que a história se erga orgânica diante do espectador.

O grande problema, mais uma vez, é fazer um filme que não seja exatamente sobre Frida, chamariz para os interessados em sua obra, mas a sua existência ao lado de homens que alguns consideram indissociáveis da sua trajetória. Isso, como no texto anterior sobre a pintora, foi delineado. A importância de Trotsky para o percurso das lutas sociais da primeira metade do século XX e o impacto estético das obras de Diego Rivera são elementos pulsantes, mas não devem sublimar os diversos elementos que fazem parte da saga de Frida, artista que parece ter uma biografia mais cinematográfica e importante que a história dos personagens que gravitaram em torno de sua existência. Mais uma vez, mais Frida deixaria o filme mais eficiente.

Deixado o problema de lado, podemos seguir para a abordagem narrativa e estética. Sem as preocupações didáticas comuns ao modelo hollywoodiano de apresentar histórias ao público, a produção de 1983 retrata vários acontecimentos que tornaram Frida um ser humano representante do que chamamos de resiliência. Forte e sagaz, a artista levou para as suas obras a realidade de sua vida, alegórica em meio ao universo de cores e representações da cultura popular. Enquadrada como surrealista, denominação que a artista renegou, pois alegava que a sua obra era exatamente a sua vida, isto é, demasiadamente realista, Frida não cabe em determinações que os historiadores da arte utilizam para demarcar vanguardas, períodos e outros esquemas redutores.

Para contar a história, Frida – Natureza Viva traz uma equipe técnica bem capacitada. Na direção de fotografia temos Angel Goded, responsável por captar os personagens que circulam pelos ambientes gerenciados visualmente pelo design de produção de Alejandro Luna. Em seu setor, Luna contou com os figurinos de Luz María Rodríguez, com os cenários de Susan Gilhog e direção de arte de Jose Lopez Hernandez, feixe do grupo que traz um interessante jogo de espelhos em determinadas cenas, numa confirmação simbólica de que estamos diante de uma biografia. Na condução sonora, Penélope Simpson desempenham bem as suas tarefas, em especial, na cena que sucede a amputação na região das pernas de Frida, alegoricamente representada por madeiras no processo de corte numa galeria. Pronto desde 1983, o filme ganhou projeção nacional no México durante o Festival de Havana em 1985.

Abortos, trauma da poliomielite, o grave acidente que a deixou com sequelas para o resto da vida, as constantes deslealdades de Diego Rivera (Juan José Gurrola), as cirurgias e a presença da dor. São tantos os conflitos da personagem, interpretada por Ofélia Medina. O filme começa com uma mensagem no estilo documental, para mais adiante, apresentar as memórias da artista próxima dos momentos derradeiros de sua vida marcante. Como dito, desprovida de convenções, a narrativa mescla acontecimentos sem as obrigações lineares e assim, torna os espectadores mais ativos, montadores do processo repleto de “devaneios conscientes”.

Frida, Naturaleza Viva – México, 1983.
Direção: Paul Leduc
Roteiro: José Joaquín Blanco
Elenco: Ofelia Medina, Juan José Gurrola, Max Kerlow, Claudio Brook, Salvador Sánchez, Cecilia Toussaint, Ziwta Kerlow, Valentina Leduc Navarro, Lolita Cortés, Gina Morett, Margarita Sanz, Odiseo Bichir, Bruno Bichir
Duração: 108 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.