Crítica | Frida (2002)

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A revisão é um dos exercícios mais importantes para quem exerce a crítica de cinema. Com a incumbência de expor algumas interpretações sobre o processo de industrialização da cultura e a serialização de imagens da pintora Frida Kahlo na cultura pop numa sofisticada galeria de arte, me encontrei diante da necessidade de mergulhar, após 15 anos, numa análise da cinebiografia Frida, lançada em 2002, tendo Salma Hayek como produtora e protagonista de uma trajetória de vida muito cinematográfica.

Assim, retomei o filme depois deste longo intervalo, tarefa que me levou ao mergulho num mar de decepções, afinal, depois da sessão e de alguns documentários complementares para subsidiar minha fala em tal evento, uma indagação transformada numa hiperbólica pergunta não foi respondida durante a exibição do filme, tampouco no debate realizado na galeria de arte, muito menos ao longo desta reflexão que ofereço ao leitor. Por que Frida passa a sensação de não ser exatamente uma biografia cinematográfica da ilustre e talentosa pintora, mas apenas um panorama do conturbado e complexo relacionamento da artista com Diego Rivera?

É inegável a presença de elementos cinematográficos triunfantes ao longo dos 123 minutos de produção. Salma Hayek, engajada no retrato da artista, por meio do cinema, envolveu-se num longo processo de negociações que durou alguns anos e resultou em sua indicação ao Oscar na categoria de Melhor Atriz, algo importante para uma atriz que faz parte da indústria, afinal, sendo uma instância de legitimação, garante a possibilidade de “prestígio e empregabilidade”. A direção de Julie Taymor, por sua vez, nos leva ao dual sentimento de realização que não alcançou os devidos propósitos na contemplação de uma história tão rica em elementos trágicos.

Ao ler brevemente a biografia de Frida, percebemos o caráter “épico” de sua trajetória. Tais elementos estão lá, organizados por meio de elipses que funcionam bem dentro de uma abordagem panorâmica, mas a mesma pergunta que surgiu ao longo do filme e me persegue até mesmo durante a escrita, continua latente. Não seria mais digno chamar o filme de Frida e Diego? É a sensação que temos ao término da produção.

A condução sonora de Elliot Goldenthal faz bem o seu serviço, ao adornar musicalmente as imagens captadas pela direção de fotografia de Rodrigo Pietro, setor que também dá conta do recado ao promover enquadramentos e movimentos que seduzem o espectador, dando-lhes o convite de entrada ao fascinante mundo de cores fortes, força feminina e arquitetura que não dialoga exatamente com as formas geométricas abordadas pelo universo hollywoodiano. No design de produção assinado por Felipe Fernadéz del Paso, podemos observar um cuidadoso projeto visual, pois direção de arte (Bernardo Trujillo), cenografia (Hania Robledo) e os figurinos de Julie Weiss trabalharam num processo de unificação visual que tornaram a produção um agradável conjunto de imagens visualmente deslumbrantes para consumo.

O que, então, torna Frida um filme decepcionante? A resposta não é tão difícil. Não fosse apenas o tratamento relativamente novelesco que a trama recebe, temos de lidar com uma mulher cineasta que não conseguiu deixar que a cinebiografia, produzida por outra mulher engajada, ganhasse contornos femininos exatos. Uma distinta senhora, conhecedora da biografia, durante a tal mostra que comentei na abertura do texto, revelou que isso é fruto de uma relação indissociável. Como assim? Outra, num tom firme, alegou que Diego Rivera era um excelente artista.

Tudo bem. Disso não duvidamos, basta observar o legado que o artista deixou, afirmação que no entanto não determina que ele possa se tornar o centro, não um coadjuvante, da abordagem cinematográfica da vida intensa de Frida, algo que também não é diferente de Frida – Natureza Vida, de 1983, produção que muda apenas por não apostar na cronologia exata dos fatos e dar ao filme um tom cult, carregado daquela aura diferenciada dos padrões explicativos e esmiuçados que as produções estadunidenses gostam de entregar ao seu público.

Que Diego Rivera é um ponto crucial na vida de Frida, também não ouso duvidar. A grande questão é sentir que as duas maiores produções cinematográficas sobre a pintora mexicana dão ao marido de Frida uma importância demasiadamente extravagante, escolha narrativa que em vários momentos, tira o protagonismo da artista, fenomenal representante das artes visual do produtivo século XX. Interpretado por Alfred Molina, ator do mesmo quilate de Geoffrey Rush, responsável por assumir o papel de Leon Trotsky, outro nome masculino forte da saga de Kahlo.

Inspirado na biografia publicada por Hayden Herrera, o filme em questão foi escrito por um grupo de quatro pessoas: Clancy Sigal, Gregory Nava, Anna Thomas e Diane Lake. Na trama proposta, somos apresentados ao cotidiano de Frida na faculdade, seu encontro com Diego Rivera, as suas posturas descentralizadas em família, sempre a surgir vestida com trajes pouco convencionais, além do acidente que a vitimou para o resto da vida, juntamente com pequenos trechos de situações complicadas em sua vida, tais como o aborto, a deslealdade do marido ao manter relações sexuais e engravidar a sua irmã mais próxima, dentre outros acontecimentos desagradáveis que se tornaram potência para o desenvolvimento de suas artes.

Diante do exposto, podemos observar que Frida funcionam enquanto narrativa industrial, atende a determinados momentos revolucionários da vida da pintora, além de ser um exercício belíssimo de interpretação dramáticas de Salma Hayek. Isso, no entanto, não impede que a produção apresente os problemas citados. Seus méritos audiovisuais são nítidos, mas faltou ser mais “Frida”. E essa conversa de ser indissociável, convenhamos, precisa ser revisada, afinal, se tal ponto de vista acadêmico nos encaminha para uma observação de que ninguém trafega sozinho dentro de um tecido social, por outro lado, retiramos a possibilidade de contemplação microscópica dos componentes que formam a extensão de tal “tecido”.

Com o avanço que alcançamos nas últimas décadas, ameaçado recentemente pelas forças extremistas de cunho político, Frida se tornou mais presente nas abordagens sobre arte, história, política e feminismo, mesmo tendo declarado não ter sido feminista conscientemente, algo que com certeza ela exerceu sem conexões conceituais e formais. A publicação da biografia de Herrera que serviu de mapeamento para situações abordadas no filme também ampliou os olhares da sociedade para a artista, personalidade que teve a sua imagem como souvenir no processo de reprodutibilidade técnica em canecas, camisas, chaveiros e postagem das redes sociais, dentre outros.

Frida – Estados Unidos, 2002.
Direção: Julie Taymor
Roteiro: Anna Thomas, Clancy Sigal, Diane Lake, Gregory Nava
Elenco: Salma Hayek, Aida López, Alejandro Usigli, Alfred Molina, Amelia Zapata, Anthony Alvarez, Antonio Banderas, Ashley Judd, Chavela Vargas, Didi Conn, Diego Espinosa, Diego Luna, Edward Norton, Ehécatl Chávez, Elliot Goldenthal, Enoc Leaño, Fermín Martínez, Geoffrey Rush, Lucia Bravo, Margarita Sanz, Maria Ines Pintado, Martha Claudia Moreno, Mary Luz Palacio, Mía Maestro, Omar Chagall, Patricia Reyes Spíndola, Roberto Medina, Roger Rees, Saffron Burrows,
Duração: 123 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.