Crítica | Fuga de Nova York

estrelas 4,5

Após o Caso Watergate, no início dos anos 1970, e após o enorme sucesso do filme Desejo de Matar (1974), John Carpenter escreveu um roteiro que juntava características dos dois eventos. Do primeiro, os elementos políticos e sociais que foram integrados à exploração da cidade de Nova York e violência do segundo. O texto ficou pronto em 1976, mas nenhum estúdio quis produzi-lo porque, segundo o diretor, achavam-no “muito violento, muito assustador e muito estranho“.

Cinco anos depois e com a participação de três estúdios pequenos (AVCO, I.F. Investors e Goldcrest) que o cineasta conseguiu levar o projeto adiante, começando a produção com uma briga para escalar Kurt Russell no papel principal, escolha mais que acertada para o projeto. A história começa com uma explicação simples, maluca e instigante: “Em 1988 a criminalidade dos EUA aumentou 400%. Nova York, quem em outros tempos fora uma grande cidade, tornou-se uma prisão de segurança máxima para todo o país.“. Uma cidade-prisão, cercada por um muro e vigiada milímetro por milímetro, povoada por condenados que nem mortos podem sair de lá.

O absurdo em torno do conceito é tão grande e tão genial que o filme nos ganha antes de completar 5 minutos de projeção. Os espectadores com visão mais humana ou conhecimento sociológico para ações ligadas a criminalidade, encarceramento, direitos humanos e políticas sociais encontram de imediato um amplo espaço de análise na fita. É certo que a maioria das interações políticas são expostas como um desafio do protagonista à ordem estabelecida, mas a crítica e o absurdo estão lá. Sem apregoar ideologias idiotas ou defender ações de um lado e de outro, John Carpenter e Nick Castle aprontam um roteiro que é, acima de tudo apreciável, puro entretenimento.

Ao fugir da onda de filme-manifesto e mesmo assim criar um cenário de força sociopolítica, Carpenter manteve não só o público mais interessado em divertimento bruto, pancadaria, sangue, violência, etc., como também o público exigente em relação a aspectos técnicos, conteúdo da obra e desenvolvimento da história, que é, à exceção de alguns integrantes do grupo do Duque e do próprio Duque, muito bem formulada. À medida que os dois mundos são estabelecidos, passamos a julgar “os de dentro” e “os de fora” do muro, questionando o que irá acontecer com os que ajudam Snake Plissken no processo de resgate do presidente. O questionamento sobre justiça vem como uma bomba: a vida de um político é tão valiosa a ponto perdoar o homem que o salvou? E os outros criminosos que ajudaram no processo? E se essa oportunidade fosse dada a outros?

Kurt Russell tem uma excelente interpretação como Snake Plissken, criando um personagem complexo, misterioso e imediatamente cativante, exatamente como os personagens do homem em quem ele se inspirou: Clint Eastwood. A “cidade-noite” iluminada principalmente com pontos em verde, azul e vermelho pelo fotógrafo Dean Cundey cumpre o papel de complemento para essa identidade o tempo inteiro em mutação, um estágio onde não se sabe direito o que vai acontecer mais adiante porque os personagens (Nova York também é um personagem aqui) são misteriosos, imprevisíveis, embora o púbico não espere muitas coisas positivas deles.

O aspecto estético ainda é completado por efeitos especiais e visuais admiráveis, com pinturas matte dos prédios da cidade de Nova York (realizada por um dos fotógrafos de segunda unidade e responsável por esse setor de pinturas, James Cameron — sim, ele mesmo) e desenho de produção primoroso, tanto dentro dos prédios quanto nas ruas e aparência das faxadas, salas e cenários um pouco mais deslocados da trama, como o ringue de boxe, onde Snake luta com Slag, interpretado por Ox Baker, um lutador profissional. E como se não bastasse, o elenco ainda conta com lendas como Lee Van Cleef e Ernest Borgnine, adicionando doses invisíveis de western, ao menos na cabeça dos cinéfilos, tornando tudo ainda mais divertido.

Com um final que jamais trai o protagonista ou as ideias trabalhadas no filme, um andamento ágil e, mais uma vez, uma excelente trilha sonora (John Carpenter sempre foi muito bom para criar temas musicais que se enquadrassem com perfeição na atmosfera de seus filmes) Fuga de Nova Yok está para sempre na camada mais “cerebral” dos testosteroníssimos “filmes de macho dos anos 80”.

Fuga de Nova York (Escape from New York) — EUA, 1981
Direção: John Carpenter
Roteiro: John Carpenter, Nick Castle
Elenco: Kurt Russell, Lee Van Cleef, Ernest Borgnine, Donald Pleasence, Isaac Hayes, Season Hubley, Harry Dean Stanton, Adrienne Barbeau, Tom Atkins, Charles Cyphers
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.