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Crítica | Fuja (Run, 2020)

por Iann Jeliel
5994 views (a partir de agosto de 2020)

  • O texto contém SPOILERS, aconselho que assista ao filme antes de ler.

O grande mérito de Run está nas diretrizes extremamente objetivas da construção do suspense. O filme não está preocupado em criar quadros de paranoia ou benefício da dúvida sobre sua problemática na mente do telespectador. Dentro de pouquíssimos minutos, a ameaça da mãe interpretada assustadoramente por Sarah Paulson é uma realidade, com pistas muito claras, inclusive, sobre suas motivações e métodos que garantiram ter a filha por tanto tempo debaixo do braço. Desse modo, a narrativa para de se preocupar com a previsibilidade e se concentra no que realmente parece ser mais interessante de se explorar na ideia de um thriller em locação isolada, que é a elaboração de situações que explorem a vulnerabilidade física e psicológica da vítima.

O filme é dirigido por Aneesh Chaganty, que em seu primeiro longa-metragem entregou o excelente Buscando…, que compartilha dos mesmos méritos. Além da objetividade na montagem da narrativa, há um senso rítmico preciso ao distribuir o clima de urgência entre os blocos que, junto de uma construção frontal e de grande proximidade à protagonista, garante uma unidade de tensão sufocante e relevante a todo instante. No entanto, ao contrário de Buscando…, não há uma sustentação sobre um mistério que aconteceu ou vai acontecer, existe apenas a presença do efeito dele na pele de quem acompanhamos. O espaçamento inicial estabelece perfeitamente o aconchego da relação materna para logo em sequência trabalhar o choque de realidade, e não muito adiante, lidar com ela presencialmente no que vira um jogo de sobrevivência.

Como cada bloco adianta uma característica do subsequente, seu sequenciamento consegue vidrar o público com extrema velocidade. Muito desse mérito está também nas atuações. No primeiro, Paulson convence perfeitamente que sua simpatia guarda algo obscuro, numa performance que através de pequenas gesticulações faciais transforma uma aparente gentileza em um perigo iminente. Percebam que já chegamos no segundo bloco preparados com essa verdade, sentimos o impacto primeiro e de imediato imergimos na história, e depois sentimos o impacto novamente quando a personagem descobre o que já sabíamos para comprarmos mais rapidamente seu desenvolvimento. E se Kiera Allen já é convincente na parte física, também convence no espírito investigador e desconfiado da personagem, conquistando o telespectador com sua inteligência, fundamental para torcemos por ela quando o jogo se estabelece.

Quando chega, de fato, nesse jogo, é que o filme cria seus maiores méritos e, infelizmente, deméritos. Na parte de méritos, é possivelmente onde ele encontra suas cenas mais angustiantes, preenchidas exclusivamente por desafios que exigem das limitações físicas da personagem. A de maior destaque sem dúvidas é a travessia do telhado que vai reforçando não só a inteligência da protagonista como também a da vilã, o que só aumenta a tensão para o sequenciamento das duas frente a frente. É a partir daí que o filme começa a capengar, ao propor uma mini dramática prolongadora da situação climática. Funciona pelo lado de já ser sugerido na dinâmica inicial que isso iria se reverberar de alguma forma dramaticamente. Não funciona pelo lado que vende essa dramática dentro de um twist que a essa altura do longa parece incoerente com sua objetividade.

E assim o filme fica oscilando até acabar. Gosto do cenário proposto para o clímax, mas não da execução de como as coisas se resolvem. Não é nem da execução em si, que é um terceiro ato tão tenso quanto o restante, mas a execução da solução soa bem anticlimática e é nítido que não era para ser assim, o que acaba ficando brega. Por outro lado, a escolha teoricamente brega na finalização com epílogo e última reviravolta fechou perfeitamente o raciocínio da tal linha dramática levantada anteriormente. Acaba que fica um mix de sentimentos extremos que satisfaz e decepciona em proporções parecidas sob as mesmas condições. É difícil julgar porque são sentimentos perante escolhas que não necessariamente são ruins, mas que parecem não terem tido convicção quando foram tomadas.

É algo a ser revisto pelo cineasta, uma vez que Buscando… também se “embanana” nas últimas soluções de modo parecido, apesar de não sair tão prejudicado por não depender das linhas verdadeiramente dramáticas da história. De qualquer forma, é algo que ele pode amadurecer no futuro, é um diretor muito novo e que tem ainda bastante potencial, principalmente na condução desses exercícios de gênero mais autênticos, sendo Run mais um belo exemplar.

Fuja (Run | EUA, 2020)
Direção: Aneesh Chaganty
Roteiro: Aneesh Chaganty, Sev Ohanian
Elenco: Kiera Allen, Sarah Paulson, Bradley Sawatzky, Pat Healy, Sara Sohn
Duração: 90 minutos

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