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Crítica | Fundação – 1X01 e 2: The Emperor’s Peace e Preparing To Live

por Roberto Honorato
4.623 views (a partir de agosto de 2020)

Sempre foi um mistério para mim como obras clássicas da literatura de ficção científica, como Duna ou O Guia do Mochileiro das Galáxias, receberam mais de uma adaptação para filmes e séries, enquanto Fundação, um dos pilares do gênero, e inspiração para os dois que mencionei, nunca foi traduzido para essas mídias. Até houve mais de uma tentativa em adaptar a obra de Isaac Asimov para o cinema, mas todas tiveram imprevistos, e a chance de ir para a HBO, no comando de Jonathan Nolan, desapareceu quando ele decidiu desenvolver Westworld. Finalmente, o streaming Apple TV+ assumiu o controle e investiu pesado na produção, colocando Josh Friedman e David S. Goyer como responsáveis.

Há um debate eterno envolvendo fidelidade em adaptações: elas devem ser totalmente fiéis ao material original ou usá-las apenas de referência para algum elemento, seja o tom, enredo ou personagens? Particularmente, não me incomodo quando as adaptações tomam grandes liberdades, muitas vezes isso pode até fortalecer o original com um comentário construtivo. A única instância em que considero adaptações uma perda de tempo é quando elas acabam sendo fracas mesmo tendo um material de base rico em conteúdo. É uma chance desperdiçada, mas também serve de lição para termos algo melhor na próxima.

Com Fundação, temos uma mistura das duas coisas. Por um lado, essa é uma interpretação válida que propõe conquistar os fãs com diversas menções e uma representação visual do universo do autor, e atualizar o clássico de 1951 (lançado pela primeira vez em partes através de revistas pulp, entre 1942 e 1950) para um público que já consumiu obras inspirados pelo texto de Asimov sem mesmo saber; por outro lado, a série tende a se distanciar das ideias que fizeram a saga intergaláctica uma referência em primeiro lugar, mas ao invés de trocá-las por ideias novas, passa a replicar tramas que o público já conhece muito bem. Nessa crítica dos dois primeiros episódios também tentarei abordar um pouco das mudanças para quem não teve contato com o material original.

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1X01: The Emperor’s Peace

  • spoilers! Confira aqui a crítica dos outros episódios!

Pode ter se tornado algo comum de óperas espaciais, mas a proposta de Fundação em representar a ascensão e queda de impérios em uma narrativa que se estende por milhares de anos não era o tipo de escapismo que os leitores de ficção científica da época estavam procurando, mas não demorou para os livros serem um sucesso. A série da Apple mantém a premissa básica, mas com algumas alterações na estrutura do material de Asimov.

Depois de doze mil anos reinando absoluto, o Império Galáctico está prestes a sofrer a sua maior crise, que fará com que a humanidade entre em uma trajetória de destruição que pode durar milênios. Mas através de uma ciência complexa conhecida como psico-história, o matemático Hari Seldon (Jared Harris) apresenta um plano arriscado capaz de evitar esse declínio. Assim, ele estabelece a Fundação, onde seus membros passarão séculos catalogando e preservando a história, em uma última tentativa de salvar a humanidade.

Por conta do grande orçamento investido nessa série, o primeiro grande chamariz é o apelo estético, que realmente impressiona. O trabalho de direção de arte e design de produção são bastante chamativos, e mesmo que pareça um pouco com os a identidade visual de outras séries do gênero, como The Expanse, Raised by Wolves ou The Mandalorian, um dos êxitos da equipe é traduzir a grandiosidade do universo dos livros para a tela, retratando nitidamente a escala de toda a intriga galáctica e a vastidão do espaço, como quando representam a viagem interestelar com uma belíssima tomada da nave imperial sendo consumida por um buraco negro; mas também podemos ver isso nas estruturas e instalações da superfície, com a ambientação dos planetas e a forma como exibe os corredores infinitos do intimidador palácio do imperador.

Outra coisa que chama atenção é o elenco, exatamente pelo fato de termos poucos rostos famosos, o que eu não esperava de uma série grande como essa. Os dois nomes mais reconhecíveis são os de Jared Harris e Lee Pace. Harris é quem carrega o maior peso dramático em sua personagem, isso porque ele interpreta Hari Seldon, provavelmente a figura mais importante de toda a saga. Até o momento não tivemos a oportunidade de vê-lo explorar sua personagem além de servir mais como um líder inspirador com oratória impecável, mas não duvido que ele possa fazer mais do que isso porque o ator costuma ser bem mais versátil. Enquanto isso, Lee Pace reprisa sua personalidade intimidadora de personagens como Ronan, de Guardiões da Galáxia, e Thranduil, da trilogia O Hobbit, como o principal antagonista da série.

É curioso como a série transformou a personagem Gaal Dornick em alguém mais importante do que na versão original, tanto que ela serviu como um protagonista nesses dois episódios iniciais. Para interpretá-la, tivemos Lou Llobell, que está apenas no segundo papel de sua carreira, mas é competente e rende algumas boas interações com Jared Harris, em uma relação de mentor e pupilo. No livro, Dornick é um homem, então a série decidiu fazer uma mudança de gênero colocando a atriz, o que obviamente não afeta a narrativa de qualquer forma, e até serve como uma maneira de comentar sobre a quase ausência de mulheres nas obras de Asimov, tanto que o primeiro livro de Fundação tem apenas duas, uma recepcionista e a esposa de outra personagem, mas isso é assunto pra outra hora. Essa não foi a única mudança de gênero no elenco, e outra personagem essencial para a saga é Salvor Hardin, aqui interpretada por Leah Harvey, que por enquanto teve apenas duas cenas rápidas, então vou esperar mais pra comentar sobre ela em críticas futuras.

O primeiro episódio de Fundação foi promissor, independente das mudanças do material original, e soube construir o mundo introduzindo cada elemento essencial de maneira eficaz, com personagens, planetas e mais de uma linha temporal. Mas não é como se tivesse sido perfeito, ainda há alguns problemas que podem se tornar algo maior no futuro da série, e eles ficam mais evidentes no segundo episódio.

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1X02: Preparing To Live

  • spoilers! Confira aqui a crítica dos outros episódios!

Assistindo ao segundo episódio de Fundação, foi difícil não lembrar da adaptação do clássico de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, pelo serviço de streaming Peacock. As duas séries têm a proposta de mudar consideravelmente alguns pontos importantes do material original, e na maioria das vezes, felizmente, são alterações que expandem ainda mais o universo da história. Uma grande mudança em Fundação foi a introdução do conceito de manipulação genética na narrativa envolvendo o império, criando assim uma ligação pertinente com o tema de legado que a série procura abordar (a comparação com a obra de Huxley começou por conta disso, já que o assunto é um dos pontos-chave da premissa de Admirável Mundo Novo), então esse foi um daqueles casos em que a adaptação diverge do material original, mas constrói algo interessante em cima dele.

Mais uma mudança curiosa, mas positiva, é a dedicação ao arco das personagens. Enquanto o livro está repleto de personagens, mas não consegue aproveitá-los por muito tempo por conta dos saltos temporais na narrativa, a série se preocupa em construir laços e núcleos dramáticos mais consistentes, o que fortalece a ligação entre personagem e espectador, e pode render sequências mais emocionantes. Isso fica claro no segundo episódio, mais interessado em focar no cotidiano de Gaal Dornick e o começo de seu relacionamento com Raych Foss (Alfred Enoch), filho adotivo de Seldon. Mas ao mesmo tempo que triunfa em expandir o universo de Fundação, a produção sofre alguns contratempos, tentando estabelecer um tom e ritmo que nem sempre funcionam.

Isaac Asimov nunca teve tanto sucesso em adaptações como Philip K. Dick ou Michael Crichton, talvez por conta de suas histórias terem um aspecto muito mais introspectivo, com mais atenção aos diálogos do que na ação, pelo menos nos livros de Fundação. E talvez isso seja o que tenha afetado negativamente a série, até agora. Se o material original foi uma aula de diálogos inteligentes e um enredo cheio de amor pelos conceitos de história, ciência e a própria humanidade, a prioridade da série é entregar grandes reviravoltas e muita ação em uma narrativa de intriga política que, por mais consistente que seja, é algo que já assistimos em diversas séries do gênero. A fidelidade não é o problema, e sim a chance desperdiçada de ter sido diferente.

Por vezes parece que Fundação quer apenas repetir o que deu certo em produções como Westworld, por conta dos temas serem similares, ou até Game of Thrones, com a violência, ação e mais de uma cena de sexo apenas nesse segundo episódio. Não é algo que afete o enredo negativamente, mas é outra oportunidade de tentar desenvolver algo novo, que não deu certo. É como se Josh Friedman e David S. Goyer (principalmente Goyer, porque Friedman saiu do comando) não confiassem no aspecto mais reflexivo do material original ou não soubessem criar diálogos mais dinâmicos, tentando desesperadamente distrair o espectador com violência e sexo (o que fizeram com a personalidade de Salvor Hardin foi arriscado, mas vou esperar os próximos episódios para dizer se funcionou ou não).

Fundação justifica sua existência com mudanças convenientes, traz um bom elenco e visuais de encher os olhos, mas corre o risco de se tropeçar em algumas armadilhas que a mesma colocou no caminho. É uma estreia sólida, mas que ainda não conseguiu equilibrar sua escala épica com personagens mais interessantes e um ritmo consistente.

Fundação (Foundation) – 1X01 e 1X02: The Emperor ‘s Peace e Preparing to Live (EUA, 24 de Setembro de 2021)
Criação: Josh Friedman, David S. Goyer
Direção: Rupert Sanders, Andrew Bernstein
Roteiro: Josh Friedman, David S. Goyer e Sarah Nolen, baseado na obra de Isaac Asimov
Elenco: Jared Harris, Lee Pace, Lou Llobell, Laura Birn, Terrence Mann, Alfred Enoch, Leah Harvey, Cassian Bilton, Teyarnie Galea, Daniel MacPherson, T’Nia Miller, Pravessh Rana, Kubbra Sait, Clarke Peters, Buddy Skelton
Duração: 70 min. e 60 min.

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