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Crítica | Fundação – 1X03: The Mathematician’s Ghost

por Roberto Honorato
1.659 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers! Confira aqui a crítica dos outros episódios!

Como indica o título do episódio, The Mathematician’s Ghost (“O Fantasma do Matemático”) explora a sombra de tensão e dúvidas deixada pelas previsões do matemático Hari Seldon, que tem claramente incomodado alguns, enquanto inspira outros. De um lado, o império parece cada vez mais preocupado com a possibilidade de Seldon estar correto em suas afirmações, e começa a fortalecer seu legado. Enquanto isso, em outro ponto da galáxia, estão os membros da Fundação, finalmente chegando no planeta Terminus para se instalar, mas logo encontram o misterioso Cofre, revelado no primeiro episódio (os fãs já sabem o que é, mas vou evitar estragar para quem não sabe), observado constantemente por Salvor Hardin (Leah Harvey), que também questiona seu papel nos planos do matemático.

Esse é apenas o terceiro episódio da temporada, que apresentou conceitos capazes de expandir o universo literário de Asimov e conquistar novos fãs para esse universo, mas aqui temos uma extensão dos problemas encontrados no episódio anterior. Se em sua estreia, com The Emperor’s Piece, a série foi capaz de entregar uma construção de mundo épica e boas interações entre personagens, no episódio seguinte fui capaz de suportar algumas mudanças no ritmo e ações inconsistentes no núcleo dramático. Agora, fica ainda mais difícil compreender algumas decisões narrativas, e por isso talvez seja hora de comentar o envolvimento de David S. Goyer no comando de Fundação.

Quando seu roteiro passa por uma revisão, Goyer consegue colaborar com grandes obras, como Cidade das Sombras e Batman: O Cavaleiro das Trevas. Mas sozinho, ficam evidentes alguns dos seus problemas, como a dificuldade para conectar alguns temas com a trama principal, repetições e diálogos fracos, cheios de informação redundante. Não é como se ele fosse um roteirista ruim, é claro que há alguns méritos na forma que ele tenta construir uma ambientação própria, basicamente estabelecendo parte daquela ideia de “realista e sombrio” que logo viria a ser a marca registrada dos filmes da DC por um tempo, e que na maioria das vezes funciona, mas os pontos negativos que mencionei são exatamente o que tem afetado Fundação com força.

Além dos obstáculos de diálogos que prezam por uma repetição desnecessária de informações que, ou já foram dadas mais de uma vez, ou servem apenas para descrever a cena que estamos assistindo no momento (“é estranho se ver nascendo de novo”, diz o imperador, como se precisasse lembrar o espectador de algo que ele já sabe), há uma combinação de enredo batido (chegam a introduzir alguns clichês do gênero, como o preguiçoso conceito de “escolhido” como uma forma de forçar motivações em uma personagem sem se dar ao trabalho de desenvolvê-lo) e montagem mal organizada que deixa o ritmo mais lento do que o necessário, quase arrastado, rendendo um episódio preso em apenas dois núcleos, sem mesmo qualquer alternação entre eles.

Assistimos quase meia hora do dilema imperial, com algumas boas atuações de Lee Pace, como sempre, mas a mesma conversa sobre legado e mortalidade, já abordado no episódio anterior, aqui sem muito peso ou nova informação para adicionar (em uma subtrama que toma conta de quase metade da duração do episódio). O resto do episódio foca na história de Salvor Hardin, desde a juventude até se tornar a guerreira que conhecemos por alguns breves minutos anteriormente. Ao lado da trama sendo executada da forma mais cansativa possível, a ideia de transformar Hardin em um estereótipo narrativo do “escolhido” não funciona como os roteiristas imaginavam.

Não vou cobrar fidelidade do material original – não é obrigação da série – mas ter à disposição uma personagem como Hardin, mestre da argumentação e manipulação, para resumi-la a mais uma guerreira intimidadora que você encontra em qualquer outra série pode ter sido uma péssima troca. Até a ideia de mudar o gênero da personagem foi mal aproveitado, já que tentaram fazer um comentário sobre a falta de mulheres nas narrativas do autor da obra original, Isaac Asimov, mas aparentemente as duas mulheres de maior presença na série passaram boa parte de suas cenas apenas interagindo com seus pares românticos, talvez para tentar justificar a necessidade da série mostrar mais nudez e continuar sua tentativa de replicar o formato de Game of Thrones. E por falar nelas, onde está Gaal Dornick (Lou Llobell)? A personagem foi essencial para os dois episódios anteriores, mas aqui é apenas mencionada em um diálogo expositivo, um dos vários.

Como mencionei na crítica anterior, Fundação criou uma armadilha na qual pode cair com facilidade, e isso parece ter acontecido mais cedo do que imaginamos. Entre saltos temporais na narrativa e introdução de cada vez mais personagens e núcleos dramáticos, a série tem se dividido entre incomodar alguns fãs mais conservadores do material original, mudando conceitos base do livro, e confundir o novo espectador que precisa de atenção em dobro para compreender essa estrutura mal executada. É como se Fundação não quisesse depender da obra de Asimov, mas também não tivesse interesse algum em desenvolver algo novo. The Mathematician’s Ghost foi um tremendo tropeço na qualidade da série, e torço muito para que seja apenas isso, um pequeno contratempo. Do contrário, podemos esperar uma queda de qualidade tão alarmante quanto as previsões de Hari Seldon.

Fundação (Foundation) – 1X03: The Mathematician’s Ghost (EUA, 01 de Outubro de 2021)
Direção: Alex Graves
Roteiro: Josh Friedman, David S. Goyer, Olivia Purnell, baseado na obra de Isaac Asimov
Elenco: Lee Pace, Laura Birn, Terrence Mann, Alfred Enoch, Leah Harvey, Cassian Bilton, Teyarnie Galea, Daniel MacPherson, T’Nia Miller, Pravessh Rana, Kubbra Sait, Clarke Peters, Buddy Skelton.
Duração: 50 min.

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