No terceiro arco de G.I. Joe, parte do Universo Energon que reúne a unidade militar dos EUA com os Transformers no ambicioso projeto da Skybound/Image Comics, Joshua Williamson pega emprestado os alicerces da cartilha de Larry Hama no comando dos personagens que ajudou a criar e embarca na mais pura pancadaria visceral tendo Duke, Comandante Cobra e os Dreadnoks como participantes em uma guerra desenfreada que é contada nas cinco primeiras das seis edições, todas publicadas, excepcionalmente, na base de duas vezes ao mês entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. Mas o roteiro de Williamson, ainda bem, sabe entregar os exageros típicos de Hama ao mesmo tempo em que continua contando sua história e acrescentando novos elementos à narrativa macro, algo que a dupla artística do primeiro arco – Tom Reilly no desenho e Jordie Bellaire nas cores – que retorna para o terceiro consegue materializar de maneira exemplar.
O gatilho narrativo é muito simples: Destro arma uma armadilha para o Comandante Cobra, levando-o a investigar uma potencial e estranha fonte de energon no meio do Deserto de Chihuahua e incitando Ripper a convocar seus Dreadnoks para liquidar de uma vez por todas o líder da organização Cobra. No entanto, ao mesmo tempo, Clutch detecta a mesma fonte de energia e pede para Duke, que está tirando o dia de folga para visitar o túmulo de seu amigo assassinado por Starscream, verificar o que é, já que os demais Joes estão em outra missão em Chicago. O que Williamson faz, então, é um divertido e frenético jogo de traições e alianças, com Duke precisando aliar-se ao Comandante Cobra, cuja vida ele salva para poder extrair informações sobre os Transformers, quando Ripper e companhia revelam suas verdadeiras intenções e partem para matar os dois daquele jeito barulhento típico dos Dreadnoks.
Trata-se de uma linha narrativa bem mais violenta do que imaginei que fosse, algo que constato como aspecto positivo, mesmo que nenhuma morte importante realente ocorra. O que torna a história particularmente interessante para além de sua premissa, é que Williamson aproveita para emprestar uma atmosfera de horror na linha de O Massacre da Serra Elétrica ao arco, com a introdução do volumoso e monstruoso Road Pig em uma cabana isolada repleta de filhotes de javalis e pedaços de corpos humanos que ele usa para alimentar os bichinhos, com direito a Duke e Comandante Cobra pendurados em ganchos e os Dreadnoks logo percebendo que eles têm muito em comum com o personagem, inclusive o gosto pela violência e por refrigerante sabor de uva. E, claro, há uma literal serra elétrica que, agora, é a mão de Buzzer e que é muito bem utilizada ao longo de todo o arco.

Reilly e Bellaire repetem o tipo de trabalho diferente e chamativo que apresentaram no primeiro arco da série, com traços que dão uma inusitada impressão estereoscópica à ação, uso de páginas duplas repletas de pequenos quadros dinâmicos para lidar com sequências de ação vastas e detalhadas, além de algumas splash pages realmente impressionantes, com Bellaire usando dois tipos de cores, a mais realista e comum e outra que, podemos dizer, acompanha o estado de espírito de personagens ou da cena em que eles estão, criando um conjunto visual intenso, mas ao mesmo tempo agradável e bonito, sem medo da escala e da quantidade de personagens povoando as páginas. Gosto muito também das reinterpretações dos figurinos dos personagens clássicos, especialmente o Comandante Cobra e Ripper, além de, claro, os diversos veículos que são usados – e destruídos – ao longo da história.
Mas Williamson sabe que está contando uma história que precisa fazer parte de algo muito maior e ele não perde a oportunidade para manter a narrativa macro em andamento e em sincronia com o que vemos acontecer em Transformers, ainda que não seja, ainda, absolutamente essencial ler Transformers para entender o que acontece em G.I. Joe (e, desconfio, isso será mantido dessa forma por muito tempo ainda). Com isso, não só finalmente vemos a revelação do segredo que Clutch vinha guardando sobre os robôs, com Duke levando um susto gigantesco e, mais ainda, algo completamente inesperado em relação ao Coronel Hawk que tem o condão de mudar muita coisa na cúpula dos Joes, dependendo até que ponto Williamson vai usar esse ás na manga.
Depois que o arco acaba e de maneira parecida ao que acontece no anterior, ganhamos uma história quase que completamente independente desenhada por Marco Foderà que nos apresenta ao icônico personagem Roadblock, aqui um militar aposentado que vive feliz da vida fazendo o que realmente gosta de fazer: comida em seu food truck em uma praça de alimentação em um mercado da cidade. Apesar de quase a integralidade da edição ser focada em Tomax e Xamot tentando recrutá-lo como garoto propaganda, mas com intenções escusas que fica evidente para o ex-soldado, o que leva, você acertou, à mais pancadaria, o que fica é a tentativa dos Joes da secreta Força Noturna recrutando-o ao final para propósitos ainda não completamente claros, mas que, desconfio, passará ou por uma minissérie focada nessa equipe ou por uma mensal spin-off para o grupo.
Josh Williamson acerta novamente mesmo quando usa a “fórmula Larry Hama” para chutar o pau da barraca, algo que é ampliado pelo retorno de Tom Reilly e Jordie Bellaire à série, o que, infelizmente, não se repetirá no próximo. Seja como for, é inegável que esse reboot de G.I. Joe continua caminhando de maneira certeira em paralelo a Transformers, construindo um fascinante universo compartilhado que mostra muito potencial.
G.I. Joe – Vol. 3: A Guerra Dreadnok (G.I. Joe – Vol. 3: Dreadnok War – EUA, 2025/26)
Contendo: G.I. Joe (2024) #13 a 18
Roteiro: Joshua Williamson
Arte: Tom Reilly (#13 a 17), Marco Foderà (#18)
Cores: Jordie Bellaire (#13 a 17), Lee Loughridge (#18)
Letras: Rus Wooton
Editoria: Ben Abernathy
Editora: Skybound (Image Comics)
Datas originais de publicação: 05 e 19 de novembro, 03 e 17 de dezembro de 2025 e 14 e 28 de janeiro de 2026
Páginas: 136
