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Crítica | G.I. Joe: A Origem de Cobra

por Iann Jeliel
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A Origem de Cobra

Não fiz parte da época que os Comando em Ação eram fenômeno de merchandising, tampouco em minha infância pude ser consumidor apto de quaisquer outros brinquedos gerados para rodar a máquina capitalista. Minha relação com os G.I. Joes, no entanto, não chega a ser nula. Nunca exatamente desejei ter qualquer boneco da famosa linha da Hasbro, mas, num olhar distante, achava-os inegavelmente “irados”. Isto porque minha mentalidade, como a de qualquer outro garoto, foi estimulada a tecer brincadeiras que idealizavam ser um herói de alguma aventura.

Culturalmente, os heróis americanos estavam diretamente ligados a figuras de militares com capacidade armamentista para combater qualquer megalomaníaco que ousasse destruir o mundo. Juntando esse fato a um toque de influência cultural asiática de artes marciais (vulgo ninjas) e também, claro, a mulheres sensualizadas para ter ao lado na realização das missões secretas – espionagem, fator importante –, os G.I. Joes conseguiam facilmente, por meio de seus estereótipos, encaixar-se nos tipos de heróis masculinos que sonhávamos ser. O incentivo de imaginação para brincar com o produto passava por isso, mas não era autossuficiente, precisava das mídias audiovisuais para encorajar o consumo aos pequenos.

Nisso, tivemos o clássico desenho oitentista, quadrinhos, além de várias outras séries animadas com o único intuito de vender brinquedos. Com o tempo, elas foram perdendo força de apelo à medida que o público – vigente principalmente nos anos 80 e 90 – ia crescendo e outros produtos iam se sobrepondo em relevância mercadológica para atingir novas gerações. No entanto, o poder de influência dos arquétipos dos personagens enquanto representações não mudaria, só precisava de uma outra chama para despertar novamente o interesse nas crianças. Hollywood, e mais especificamente Michael Bay, viram aí uma oportunidade e apostaram despretensiosamente em uma adaptação de Transformers, que acabou dando muito certo no objetivo. Seguindo à risca clichês e tendências de blockbusters de verão, o público adulto foi reconquistado, e um novo público infantil conheceu a franquia e passou a consumi-la.

Com o sucesso do filme de 2007, a porta ficou aberta para uma adaptação de G.I. Joe também, com o mesmo intuito da anterior e já objetivando a criação de uma franquia. Logo, A Origem de Cobra, como o subtítulo indica, já se afirma como o primeiro de muitos filmes que viriam. Contudo, diferentemente do primeiro Transformers, o primeiro G.I. Joe não relativiza ou é econômico em sua megalomania de apelo comercial por se tratar de um filme de origem. Pelo contrário, o ritmo frenético e escala grandiloquente na ação são presenciadas do primeiro ao último minuto de projeção. Não há tempo para respiro, e a direção habilidosa do subestimado Stephen Sommers corresponde à pulsação desejada, acertando no tom aventuresco descompromissado sem torná-lo boboca demais, a ponto de perdermos o sentimento de adrenalina de cada sequência.

A violência cumpre papel fundamental nisso, pois é bem presente e dosada o suficiente para caber na baixa classificação indicativa, sendo impactante para as crianças levarem a história com o mínimo de seriedade e funcional para atrair os adultos. Apesar de ser dinâmico e caótico, o diretor de A Múmia tampouco entrega aquela confusão visual incompreensível dos filmes de Bay. Ele tem um senso muito particular de condução nas transições da montagem, que conseguem ser sutis mesmo estando no meio do caos de informações sendo dadas ou ações acontecendo simultaneamente. São truques simples de semelhança de planos entre diferentes núcleos ou tempos que condicionam a efetividade do longa-metragem enquanto entretenimento puramente escapista.

Assumido de tal forma, A Origem de Cobra não é um filme para se extrair substância ou desenvolvimentos mais complexos de personagens. Tudo é feito da maneira mais básica possível para a ação se sobressair. Backgrounds dos personagens surgem em flashbacks atropelando os teóricos momentos de respiro, meramente para torná-los suficientes condutores da trama, além da representação visual. Explicações sobre as funcionalidades dos equipamentos do quartel-general, processo de recrutamento da equipe, plano de missões e plano dos vilões são feitas de maneira expositiva, mas numa velocidade que nem dá para chamá-las de mastigadas, porque não é isso que interessa. Logo, o didatismo é só para tornar não aleatórias as rasas motivações. Basicamente, esses flashbacks e explicações não quebram a energia da proposta.

Nesse sentido, a diversão é garantida. Mesmo que existam reclamações plausíveis sobre o excesso de CGI em determinados momentos, o cineasta sabe lidar bem com isso – como em O Retorno da Múmia, onde aquele The Rock bizarro de Escorpião Rei não estraga o filme – e orquestra a sua artificialidade potencializando as “mentiras” dos feitos impossíveis na ação, tornando-os bem empolgantes quando equilibrados na comédia. É um dos poucos filmes em que Marlon Wayans está genuinamente engraçado, o que é um feito e tanto. Todavia, todo o elenco pegou o espírito canastrão da coisa e o abraçou com gosto, divertindo-se no filme. Destaco a perseguição em Paris e os embates de Storm Shadow (Lee Byung-Hun) contra Snake Eyes (Ray Park) como as sequências mais eufóricas. Apesar das coreografias pouco valorizadas pela montagem picotada, visualmente elas são muito atrativas, como a maioria das cenas de ação.

SPOILERS MODERADOS

O único problema enfático está nas tentativas de romance. A ideia com eles é destacar a força das personagens femininas, mas acabam tendo o efeito inverso. Tanto o fato da Baronesa (Sienna Miller) ser ex-esposa do protagonista Duke (Channing Tatum) ser a motivação ilógica que a fez sair do seu transe, que é colocado como praticamente impossível de escapar, quanto Scarlett (Rachel Nichols) deixar de ser uma assassina fria e passar a ser mais emotiva após ouvir umas piadinhas de Ripcord (Wayans) traz um desserviço às personagens que são bem interessantes nas suas representações puxadas de femme fatales. Outro problema está na origem do vilão com conexão direta aos personagens principais, em uma virada que não só é absurdamente clichê, como não tem o menor sentido lógico em um filme teoricamente “sem lógica”. Funcionaria só se admitisse como referência a Star Wars – familiar com problemas respiratórios que vira do mal –, mas como base canônica de franquia é simplesmente péssimo.

FIM DOS SPOILERS

G.I. Joe: A Origem de Cobra é uma brincadeira de (ênfase em “de”, não estou dizendo “para”) meninos. E quando eu digo isso, não me entendam mal. Não quero dizer que acredito na bobagem de separação por gênero construída pela indústria de brinquedos, que inclusive criou os G.I Joes como antítese ao sucesso da Barbie, rotulada como brinquedo para mulher. É mais porque, evidentemente, ele traz um entretenimento que conversa com as idealizações culturalmente atrativas ao universo masculino. Sommers brinca com seus bonecos à maneira que Hollywood quer para movimentar sua máquina e reerguer a indústria de merchandising da sua adaptação. Pelo menos ele faz isso de maneira honesta.

G.I. Joe: A Origem de Cobra (G.I. Joe: The Rise of Cobra | EUA, 2009) A Origem de Cobra
Direção: Stephen Sommers
Roteiro: Stuart Beattie, David Elliot, Paul Lovett, Michael B. Gordon, Stephen Sommers
Elenco: Channing Tatum, Marlon Wayans, Lee Byung-Hun, Ray Park, Joseph Gordon-Levitt, Jonathan Pryce, Dennis Quaid, David Murray, Leo Howard, Kevin J. O’Connor, Rachel Nichols, Karolina Kurkova, Sienna Miller, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Christopher Eccleston, Grégory Fitoussi, Gerald Okamura, Brandon Soo Hoo,  Saïd Taghmaoui, Arnold Vosloo
Duração: 118 minutos

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