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Crítica | Gaetaninho, de Alcântara Machado

por Leonardo Campos
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O automóvel é um símbolo de ascensão social ainda na atualidade e na década de 1920, aqui no Brasil, representou o status das altas classes dominantes, poderosas em seus veículos que cortavam as ruas das cidades em processo de urbanização. Em Gaetaninho, conto que integra a coletânea do escritor Alcântara Machado, publicada em 1927 como Brás, Bexiga e Barra Funda, temos a presença deste bem material como representante da vida e da morte, do que é sonhado e o que não pode ser revertido, neste caso, a morte do personagem que intitula a história, uma criança atropelada por um bonde quando cortava a rua para apanhar uma bola. Objeto de encanto que trouxe para a sociedade a agilidade solicitada pela vida num cotidiano em fase de grande expansão industrial, o carro ainda hoje é pensado como um ponto da mobilidade urbana que possui papel duplo nas grandes metrópoles: é um meio de transporte que pode salvar uma vida diante da sua agilidade na chegada ao pronto atendimento, por exemplo, mas comandado por humanos, pode também ser a máquina utilizada como meio para ceifar vidas, afinal, há tanta gente que pensa no carro como uma fortaleza, não é mesmo?

Não apenas por isso, mas pelas estratégias narrativas do escritor, Gaetaninho é uma narrativa ainda muito atual no contemporâneo, mesmo que tenha sido escrita há quase um século. Permeado pela ideia de desejo, sentimento que aqui, é oriundo das demandas de uma sociedade de consumo, o conto expressa o trágico de maneira irônica e humorada. Gaetaninho é um garoto pobre, parte integrante dos imigrantes italianos atraídos pela economia cafeeira e projetos governamentais que favoreciam à chegada de mão-de-obra estrangeira para trabalhar. Não há, no entanto, glamour algum nessa espécie de diáspora, haja vista o deslocamento de alguns por questões políticas que apontavam uma futura crise bélica europeia poucas décadas depois. As pessoas viviam em pobreza e num paralelo entre a miséria social e os sonhos de uma criança, Alcântara Machado desenvolve essa história intensa, urbana, mas bastante triste.

Constantemente a caminhar pela Rua do Oriente, o sonho do garoto é ter a possibilidade de trafegar pela zona urbana de carro. A sua família, no entanto, consegue apenas aderir ao bonde, meio de transporte para as classes mais baixas da época, o equivalente ao ônibus e o metrô nos dias atuais. Automóveis eram utilizados apenas para situações menos corriqueiras, tais como enterros e casamentos. Certo dia, o menino até sonha com a morte de sua tia Filomena, senhora que desfila pela rua num carro, ou seja, até na dimensão onírica, Gaetaninho depende do trágico para conseguir ter o seu desejo atendido cabalmente. Mais adiante, num dia banal de brincadeira com os amigos perto de casa, o garoto deixa escapulir a bola de seu comando e corre pra pegar, mas sequer percebe “o bonde que passa, cheio de pernas”, e ceifa a sua vida subitamente. Não demora para que Gaetaninho se torne notícia e tenha o seu anseio atendido, mas na condição de cadáver, um corpo sem vida para curtir e atravessar a rua no tão sonhado bem de consumo.

Como traz o conto, de maneira sonora, com prosa energizada pela tonalidade das palavras escolhidas detalhadamente, o menino “amassou o bonde”. O automóvel que deveria ser para um suposto momento de alegria posterior se torna alegoria do fúnebre, situação que faz parte de uma sociedade que se transformava e se tornava de alguma forma perigosa, cultuadora da velocidade. Como argumento, Gaetaninho parece uma história cômica de horror. De fato, podemos até considerar a trajetória de seu protagonista “sarcasticamente macabra”, mas o tom adotado por Alcântara Machado é cheio de vivacidade, movimento, sonoridade, elementos que afastam qualquer tom ominoso para dar ao conto uma atmosfera urbana cotidiana, afinal, a morte aqui, pensada de maneira mais ampla e conectada com a nossa atualidade, se tornou corriqueira, principalmente no que concerne essa temática que tangencia o trânsito e a mobilidade urbana.

É diferente de A Sociedade, por exemplo, conto da mesma coletânea onde o carro ganha uma simbologia exclusiva de ascensão de classe, algo representativo da mudança de status dentro de uma cultura que valoriza o materialismo e a aquisição de bens que definam a presença destes consumidores nos espaços sociais por onde circulam. Os demais contos do conjunto tratam de temáticas similares, como já mencionado antes, a vida dos imigrantes italianos que chegavam ao território brasileiro, em especial, São Paulo, grande metrópole representante do cosmopolitismo que copiávamos de nações com projetos urbanos ainda mais desenvolvidos. Gaetaninho e os demais contos analisam o cenário social da época e o processo de adaptação cultural e econômica destas pessoas neste “novo mundo” que também se transformava. Com a sonoridade presente em paralelo ao discurso indireto livre, o conto se revela uma narrativa bem “a cara” da filiação de seu autor ao que se convencionou chamar de Primeira Fase do Modernismo.

Alcântara Machado, mesmo sem a ousadia artística de outros nomes do movimento, tais como Mário de Andrade e Oswald de Andrade, trabalhou incessantemente na produção cultural do período. Mestre na “arte da observação”, narra muito bem e utiliza elementos da oralidade para dar ritmo aos seus escritos, fundador da Revista de Antropofagia com Oswald, trabalho coeditado com Raul Bopp. Por causa da experiência como jornalista, as suas histórias são narradas de um jeito muito peculiar, descritivo, a delinear São Paulo e sua urbanização com traços muito próprios, diferencial diante do que faziam os demais autores da sua geração. Ademais, ler Gaetaninho contemporaneamente me remete ao que refletimos hoje sobre duas coisas: as bases da vulnerabilidade social das classes mais baixas no Brasil e a ideia que se discute sobre os perigos para quem vive cotidianamente a mobilidade urbana, em especial os pedestres, em constante sensação de ameaça diante dos veículos que se comportam muitas vezes como armadilhas, espaços cujo os ocupantes podem se transformar em condutores assassinos.

Gaetaninho (Brasil, 1927)
Autor: Alcântara Machado
Editora: Mórula Editorial
Páginas: 18.

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