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Crítica | Game of Thrones – 5ª Temporada

por Iann Jeliel
49 views (a partir de agosto de 2020)

  • Contém SPOILERS. Leia aqui as críticas das demais temporadas.

Guiada por 4 anos e 5 livros nos quais se basear, a 5ª temporada de Game of Thrones estava diante de um novo desafio: para onde ir? É nítido logo no princípio o desnorteamento dos produtores na criação de novos núcleos desprendidos do material original, ainda que houvesse muito conteúdo extra não explorado, a grande maioria não conversava tanto com o foco direcional que vinha sendo trabalhado na série, e diante do seu auge, a escolha de seguir com eles não parecia a ideal, contudo a decisão tomada deu o mesmo resultado. A estruturação da série voltava a ser algo parecido com o visto na 2ª temporada, com a diferença que lá o desenvolvimento dos personagens tinha uma função já pensada para futuros momentos decisivos, e aqui soava avulsa e sem uma clara ideia de onde iria levar, e de bônus, levou a várias subtramas desinteressantes.

Claramente se tratava de uma extensão proposital da vida da série até ver se George R.R. Martin iria conseguir terminar o seu próximo livro; nisso o ritmo dos acontecimentos mais relevantes ficava alongado, muito além do necessário. O primeiro episódio, em que normalmente reorganiza-se o tabuleiro do que serão as tramas na temporada com base nas consequências dos eventos da antecessora, dura pelo menos 4 episódios, mas pode-se dizer que dura até o sétimo. A sensação de enrolação é muito clara, especialmente porque o senso de continuidade transicional da narrativa não pensa diretamente no consequencial da anterior. Em Wars to Come, os acontecimentos marcantes da última season finale (The Children) não têm qualquer efeito para a inserção de novos conflitos, fora que alguns mais imediatos são completamente ignorados, como o destino do Cão (Rory McCann) após a luta contra Brienne (Gwendoline Christie) e a jornada de Bran (Isaac Hempstead-Wright), que aparentemente ficaram escanteados somente para voltarem na sexta temporada.

Os núcleos em que não daria para fazer esse corte buscam criar ciclos para darem prosseguimento à base do anterior. Não é a morte de Tywin (Charles Dance), morto por Tyrion (Pinter Dinklage), que dá continuidade à crise política e tensão interna dos Lannisters, mas o surgimento de um novo nome aleatório no clero – que irá trazer um lado de fanatismo religioso à trama – denominado Alto Pardal (Jonathan Pryce), que vai ganhando King’s Landing no discurso de fé. Enquanto isso, Jon Snow (Kit Harington) e Daenerys (Emilia Clarke) , cada vez mais protagonistas, ao invés de irem expandir seu domínio são presos por crises internas, também dentro do ambiente em que governam, para testar seus potenciais como líderes. A rainha dos dragões precisa aprender a lidar com a revolta de tradicionalistas, conhecidos como Filhos da Harpia, além de seus filhos, dragões já grandes que passam a ser hostis até mesmo com ela. Enquanto Snow continua a querer apaziguar os patrulheiros com os selvagens, agora na posição de Comandante da Patrulha da Noite, o que irrita alguns de seu próprio lado. A própria Cersei (Lena Headey) com a situação do Alto Pardal também será testada como líder.

Essa tríade compartilha a mesma problemática da temporada a respeito da durabilidade das construções. Ao mesmo tempo em que está diante das ótimas resoluções dos últimos episódios, a série tem que conseguir vender como necessário o tempo de maturação escolhido para que essas crises sejam compradas de modo não repentino na trama, e que isso proporcione consequências grandiosas aos personagens. É difícil não sentir o efeito também de travamento no senso de progressão da narrativa, o que acaba se confirmando quando outros núcleos, responsáveis por aplicar uma expansão maior de universo, também escolhem essas estruturas mais cíclicas e que ainda só flertam com um fantasioso que está logo na porta. Isso vale para Arya (Maisie Williams), que passa a temporada inteira treinando e descobrindo sobre a Casa do Branco e Preto, não concluindo seu treinamento. Para Tyrion, que demora metade da temporada para encontrar Daenerys (algo que poderia ser resolvido em algumas elipses) e a outra metade sem conseguir convencê-la de uma união concreta. Sansa (Sophie Turner), que de marionete de Joffrey (Jack Gleeson) atravessa o mapa para virar marionete de Ramsay (Iwan Rheon). E não vou nem falar de Jaime (Nikolaj Coster-Waldau) e o completamente inútil núcleo de Dorme.

Enfim, são ciclos conflituosos com o mesmo intuito, agora para uma nova camada evolutiva dos personagens que chegará só posteriormente – provavelmente com os mesmos fins, cada líder mais forte – nas consequências que esta temporada demora 10 episódios para plantar. O problema não é nem a escolha estrutural cíclica para uma nova camada de desenvolvimento dos personagens, mas, como dito, o tempo que ela dura, que se fosse reduzido à metade e com resoluções práticas na própria temporada, teria menos o peso de desculpa para expandir a série até a chegada de um novo material base para formular a estrutura. Ao menos a parte técnica disfarçava bem esses erros, a edição sempre num bom trabalho de distribuir organicamente os núcleos de modo a não os tornar mais cansativos do que já estavam, e o texto ainda afiado e corajoso o suficiente para saber como recompensar a espera com boas surpresas, especialmente, nos três últimos episódios.

Hardhome certamente é a maior delas, numa temporada que pouco tocava no lado fantasioso aflorado pelo final da passada, chega repentinamente no meio do ápice da tensão interna da Patrulha da Noite, uma batalha eletrizante e visualmente impressionante da primeira aparição prática dos White Walkers, trazendo enfim a ação que a série precisava para derrubar aquele ritmo moroso e tedioso dos demais episódios. Dance of Dragons, ainda que não seja tão bom quanto o episódio anterior, enfim torna a firulagem da revolta dos Filhos da Harpia em um golpe de estado contra Daenerys, num dos poucos episódios politicamente bem-construídos da série, até o momento da ação que rende uma ótima cena do dragão a resgatando no meio do caos que se tornou seu reino. Ela perdeu, como os outros dois grandes líderes perderam em Mother’s Mercy, o que fecha a temporada com dignidade ao nome Game of Thrones. A caminhada da Cersei e a morte do Jon Snow trazem aquela sensação de desesperança e desamparo de que a série nos deixou refém. E é verdade, a temporada foi muito construída em torno de trazer novamente esse efeito, ao invés da sua natural aparição no envolvimento narrativo, mas não deixa de ser impactante, ainda pela coragem gráfica.

É só esperar que isso não fique uma relação de dependência e que a próxima temporada conclua os nortes criados aqui, efetivando a fantasia (o possível renascimento de Jon Snow tão teorizado pode ser a ponte para isso) e direcionando essas novas camadas de evoluções dos personagens a um fim de fato conclusivo da mitologia do jogo dos tronos. No balanço geral, a quinta temporada de Game of Thrones, mesmo sendo a mais fraca das temporadas até então e perdida em quais ideias trabalhar para o futuro, ganha pontos por grandes momentos daquela boa e velha subversão que torna Game of Thrones tão grandiosa.

Game of Thrones – 5ª Temporada | EUA, 2015
Criação: David Benioff, D.B. Weiss (baseado em obra de George R. R. Martin)
Direção: Michael Slovis, Mark Mylod, Jeremy Podeswa, Miguel Sapochnik, David Nutter
Roteiro: David Benioff, D.B. Weiss, Bryan Cogman, Dave Hill
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Aidan Gillen, Charles Dance, Natalie Dormer, Stephen Dillane, Liam Cunningham, Carice van Houten, Indira Varma, Conleth Hill, John Bradley, Sophie Turner, Maisie Williams, Jerome Flynn, Alfie Allen, Michiel Huisman, Nathalie Emmanuel, Gwendoline Christie, Kristofer Hivju, Tom Wlaschiha, Dean-Charles Chapman, Michael McElhatton, Iwan Rheon, Iain Glen, Richard Brake, Hafþór Júlíus Björnsson, Paul Bentley, Jonathan Pryce, Diana Rigg, Jacob Anderson
Duração: 10 episódios – 50 minutos em média cada episódio

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