Crítica | Game of Thrones – 8X01: Winterfell

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E, finalmente, depois de algo como um ano e oito meses, Game of Thrones volta para sua derradeira temporada composta, desta vez, de apenas seis episódios, mas vários de duração particularmente alongada para – esperamos! – fechar todas as milhares de pontas que ainda estão soltas. O episódio, que foi mantido a sete chaves a ponto de nem mesmo seu título ter sido divulgado antes de ir ao ar, faz o que todo o episódio de início de temporada da série fez até agora: ele nos situa no nada simples tabuleiro armado para o grande embate contra o Rei da Noite (Vladimir Furdik) e seu exército de desmortos que, agora, conta com um simpático e bastante prestativo dragão de gelo que derrubou a grande muralha que protegia o mundo civilizado.

Mas, diferente dos outros primeiros episódios de GoT, este aqui tem o grande mérito de conseguir trabalhar todos os seus personagens de maneira orgânica e fluida, mesmo sendo naturalmente obrigado a pular de um lado para o outro para nos relembrar por onde anda cada personagem importante. Claro que essa tarefa foi bastante simplificada como a concentração de forças em Winterfell, com belos e silenciosos minutos iniciais dedicados à marcar a chegada de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke), a mãe dos dragões, ao lado de Jon Snow (Kit Harington), ex-Rei do Norte, ex-morto e, agora, namoradinho da moça de cabelos brancos. A solenidade foi muito bem trabalhada ao criar uma sensacional circularidade narrativa praticamente repetindo a mesma sequência da chegada do Rei Robert Baratheon à Winterfell lá na já longínqua primeira temporada e ao estabelecer visualmente praticamente tudo o que precisamos saber sobre o status quo da série. Os nortenhos não estão lá muito felizes com a renúncia da coroa por Jon e o reconhecimento por ele do reinado de Daenerys. É essa a principal temática que perfaz todo o capítulo e que Jon coloca muito claramente na audiência com os líderes de cada Casa: ou ele entregava a Coroa ou eles não teriam a menor chance contra o que vem por aí.

Os reencontros foram também os pontos altos do episódio, especialmente o de Jon com Bran (Isaac Hempstead Wright tentando parecer sábio e compenetrado, mas falhando miseravelmente), com Arya (Maisie Williams escondendo o jogo do desenvolvimento de sua personagem como uma assassina experiente) e, claro, com Sam Tarly (John Bradley, mais do que excelente no episódio), em um momento mais do que esperado e que voltarei a abordar mais para a frente. Houve outros reencontros cruzados também, como Gendry (Joe Dempsie) e o Cão (Rory McCann) com Arya e, no sul, Theon (Alfie Allen) com sua irmã Yara (Gemma Whelan), em momentos felizes – ou nem tanto – que certamente prenunciam a desgraça toda que vem por aí.

Com isso, a atmosfera de preparação de guerra, algo que ainda deve ser mantida por mais algum tempo, funcionou muito bem e trouxe uma harmonia de propósitos que não se via há muito na série, mesmo com os problemas de desconfiança entre os nortenhos que certamente crescerão e com a sempre encantadora Cersei (Lena Headey – e sim, eu torço por ela!) maquinando para fazer ruir a alegria lá no reino gelado dos Stark, juntamente com o completamente enlouquecido – e tarado – do Euron Greyjoy (Pilou Asbæk), um personagem que surgiu muito rapidamente demais como uma força disruptiva na sexta temporada, mas que, agora, encontrou bem seu lugar, funcionando lindamente ao lado da Rainha. Foi particularmente interessante a preocupação com a alimentação do exército por parte de Sansa Stark (Sophie Turner, essa sim vivendo muito bem seu papel de garota que teve que amadurecer muito rapidamente), algo que normalmente é esquecido em séries, especialmente as de pegada fantástica como essa. É possível que esse elemento narrativo seja importante para o desenrolar dos embates, mas, mesmo que não seja (sempre há a chance de algo assim ser convenientemente esquecido), já valeu a pena esse cuidado do roteiro de Dave Hill.

Mas o texto de Hill, apesar de dedicar a primeira linha de diálogo ao grande Tyrion (Peter Dinklage), manteve o personagem à sombra do que ele já foi. Isso não é novidade, infelizmente, já que o melhor personagem da série vem perdendo espaço desde a sexta temporada e, aqui, parece perdido, com conselhos abobados sobre Cersei para Sansa e sendo muito fácil e literalmente flanqueado em termos de estratégia por Davos (Liam Cunningham) e Varys (Conleth Hill). Entendo perfeitamente que a profusão de personagens – que já foi maior, devemos lembrar – não permita espaço para todos, mas Tyrion é Tyrion e a redução de sua importância e, principalmente, de sua inteligência, é algo que me incomoda profundamente.

Vejam, por exemplo, que, mesmo com um episódio bem repleto de sequências importantes, houve tempo para que David Nutter dirigisse uma bonita, não negarei, sequência de “amorzinho pelo ar” com Daenerys e Jon gastando computação gráfica para cavalgar dragões pela bela paisagem gelada da região, com direito a uma cachoeira idílica e a uma ridícula sugestão de que os dois “fujam” para viver no paraíso. Não quero dizer com isso que não há espaço para romance em GoT. Há, ainda que não seja lá muito grande ou relevante, mas certamente não há espaço para bobagens adolescentes tipo Barrados no Baile. E, quando esse tipo de sequência com dois atores no máximo medíocres tira espaço de personagens como Tyrion, a coisa fica mais séria ainda.

Por vários e longos minutos fiquei me revirando no sofá de aflição pela demora na cena que eu e, provavelmente todo mundo, esperava: a revelação, para Jon, que é ele o rei de tudo, herdeiro tanto dos Targaryen quanto dos Stark. Cheguei a pensar que deixariam isso para o próximo episódio, o que seria um erro enorme considerando que já estaríamos com um 1/3 do final já no ar. Mas o momento veio aqui e não só no melhor lugar possível, a cripta dos Stark, com Jon relembrando de seu pai, como também da melhor forma possível, já que fez dobradinha como o reencontro dele com Sam, seu verdadeiro irmão de acordo com o próprio Bran. E, mais do que isso, a sequência foi cirurgicamente montada posteriormente à revelação, pela própria Daenerys a Sam – como parte de seu “agradecimento” por ter salvado Jorah Mormont (Iain Glen) – que ela executara seu pai e irmão quando eles se recusaram a dobrar seus joelhos.

Com isso, a sequência da cripta ganha várias camadas. Jon recebe a notícia no estilo cold turkey como dizem os americanos, ou seja, na lata e sem rodeios, o que por si só já seria um choque para qualquer um. Mas essa notícia vem contextualizada pela postura perigosamente despótica de Daenerys que Jon se esforça para racionalizar e acaba saindo pela tangente e percebendo que sua paixão adolescente talvez não seja lá muito diferente de Aerys Targaryen, o Rei Louco, afinal de contas. Considerando o que já vimos de Daenerys e que Jon ainda não sabe, arma-se aí um potencialmente interessante conflito no coração de Winterfell, especialmente se a notícia da ascendência de Jon (não mais) Snow sair daquela cripta. Será que o casamento planejado pela trinca veterana tem alguma chance? Como será que Sansa reagirá a isso tudo, logo ela que parece um vulcão raivoso prestes a entrar em erupção?

Seja como for, a descoberta do pequeno Ned Umber (Harry Grasby) empalado morto-vivo na parede de seu castelo de Última Lareira e cercado com uma bizarramente aterradora escultura de braços humanos, cortesia do Rei da Noite é o tipo de sacudida final que o episódio precisava para nos lembrar que o inverno realmente já chegou e, agora, não tem mais jeito. As intrigas palacianas, que pesarosamente já haviam perdido espaço na série, não parecem ter, na última temporada, chance alguma de voltar de verdade diante do passo apertado que será necessário que David Benioff e D.B. Weiss imprimam na estirada final.

Mas Winterfell é um ótimo começo do fim de uma série que, gostando ou não, elevou absurdamente o sarrafo de como séries de pegada fantástica devem ser. A promessa de um final mais do que digno fica evidente pela competência demonstrada aqui.

Esse inverno tem tudo para ser mais do que memorável!

p.s. A nova abertura, com a câmera agora “mergulhando” nos meandros das maquetes mecânicas em pleno funcionamento, foi um show a parte!

Game of Thrones – 8X01: Winterfell (Idem, EUA – 14 de abril de 2019)
Showrunners: David Benioff, D.B. Weiss
Direção: David Nutter
Roteiro: Dave Hill
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Sophie Turner, Maisie Williams, Liam Cunningham, Alfie Allen, Nathalie Emmanuel, Gwendoline Christie, John Bradley, Isaac Hempstead, Rory McCann, Conleth Hill, Carice van Houten, Kristofer Hivju, Hannah Murray, Jerome Flynn, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Ben Crompton, Hafþór Júlíus Björnsson, Jacob Anderson, Daniel Portman, Anton Lesser, Tobias Menzies, Bella Ramsey, Staz Nair, Lino Facioli, Rupert Vansittart, Gemma Whelan, Vladimir Furdik, Marc Rissmann
Duração: 54 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.