Crítica | Game of Thrones – 8X02: A Knight of the Seven Kingdoms

A Knight of the Seven Kingdoms

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Em A Knight of the Seven Kingdoms, queridos personagens, os mesmos que preparam-se para a morte, entram naquela noite que possivelmente virá a ser, após tantos anoiteceres anteriores, a última para muitos rostos conhecidos – ou a última para Westeros. Game of Thrones cria o cerco derradeiro para a guerra nesse segundo capítulo da sua oitava temporada, ao passo que consolida, em primeira instância, a manutenção de sua própria história, o que aconteceu e está acontecendo, como uma virtude. “Nós todos vamos morrer”, menciona um gigante barbudo, convenientemente. Tantas histórias passadas, contos de reis mortos, reis loucos, reis que nunca foram. Pois a culminação é um combate romântico entre os vivos e os mortos, o bem e o mal, que acontecerá consequentemente. Os showrunners, por ora, investem cinquenta minutos, com ótimas cenas, para compreender este espírito ambíguo em que os vivos esperam, riem e aceitam a morte.

Um monólogo muito bonito de Samwell (John Bradley), em uma mesa redonda com outros nomes importantes do seriado, nos relembra o que significam os seus passados, as suas jornadas, para os seres humanos, para as pessoas. Tão importante é a História para o capítulo, um memorando comovente do passado que nos reconforta em meio ao medo do que virá a acontecer, que Bran (Isaac Hempstead) aponta o anseio do Rei da Noite em assassinar o Corvo de Três Olhos, quem guarda o antes, o agora e o depois. “Se esquecermos do que viemos e o que fizemos, deixamos de existir”, comenta Sam. Na existência de uma caminhada antecessora, portanto, é que Game of Thrones encontra a sua verdade, sempre remetendo-nos a reis antigos. O amor mais importante é logo um dos antepassados. Esse é um grande episódio, que mescla o incômodo de pensar um futuro, uma noite escura, à consolação de saber que houve um passado e que a ele sobrevivemos.

Winterfell, o episódio imediatamente anterior, pautava-se no posicionamento dos personagens, nos verdadeiros preparativos, colocando determinadas peças do quebra-cabeça narrativo onde elas deveriam estar: no cenário da grande guerra contra os mortos. Já agora, como Tormund (Kristofer Hviju) aponta para o seu amigo Jon Snow (Kit Harrington), quando chega na morada dos Stark, não há mais ninguém para aparecer. O tabuleiro é esse e o que resta para os personagens é esperarem o que está para vir: a morte em si, caracterização usada por Gendry (Joe Dempsie) para referir-se aos Caminhantes Brancos à Arya (Maisie Williams), curiosa com a natureza desses seres. Esse é um capítulo inteiramente dedicado não a preparar alguém, coisa que ninguém realmente está, mas nos garantir que há um prenúncio: aos nomes que estarão e morrerão em campo de batalha, os sacrifícios que serão tomados à sangue e muito mais – é o que nos aguarda.

O que o intimista roteiro de Bryan Coogman principia, consequentemente, é essa manutenção das memórias em um grau bastante comovente, porque as trajetórias encontram-se às margens de possíveis conclusões. Mais uma patrulha à noite para certos personagens, como cita Ed (Ben Crompton) em uma reunião sua com queridos e antigos colegas, com quem antigamente vigiava essa fria escuridão. Em uma cena muito tocante e sugestiva, por exemplo, Davos (Liam Cunningham) observa uma garotinha com uma marca no rosto, o que nos remete imediatamente a Shireen. Mais tarde, caminhando por essa premissa que mistura o passado e o presente, o personagem, um dos mais interessantes da série, também aponta possíveis esperanças aos combatentes, visto que conseguiu sobreviver a guerras mesmo sem possuir competência em empunhar uma espada. O episódio então procura entender a existência desses personagens aqui.

Um dos pontos mais importantes que discorrem sob sua duração, por exemplo, é sobre quem vai ou não estar em campo, quando tal guerra começar. O papel de cada um dos personagens é colocado em discussão portanto, como o de Tyrion (Peter Dlinklage). A Mão da Rainha, depois de pequenas participações, torna-se, aqui, o centro das atenções, perdendo certa moral com a Sua Rainha por ter errado mais uma vez, agora em confiar na sua irmã. Sam também possui o seu momento para decidir se vai ou não estar na cripta, espaço onde os não-soldados, como crianças – menos certa criança -, permanecerão durante o confronto. Mas, já sabendo de sua incapacidade em usar uma espada grande como a da sua família, o mais interessante é quando passa a arma em questão, supostamente com um significado para os Tarly e ninguém mais, para Jorah Mormont (Iain Glen), em contrapartida.  Jorah é um personagem que parece que irá possuir seus momentos.

Mas quem ou o que os trouxeram até aqui, defendendo Winterfell de ameaças maiores que a si mesmos? Qual será o significado de cada uma dessas pessoas, vivendo um ultimato, na História dos Sete Reinos? A Knight of the Seven Kingdoms já até começa pensando o passado, essa curiosa predestinação das coisas, quando coloca o famigerado Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau) para encontrar-se em julgamento. O personagem não é alguém inocente, entretanto, existe um senso de necessidade para que ele permaneça vivo, para que ele não morra condenado pelo seu passado, que é o que também permite Bran, aquele quem tudo enxerga, o permitir viver. O Corvo de Três Olhos é mesmo uma excelente manivela para o roteiro explorar narrativamente, porque permite que o controle dos roteiristas sobre o destino dos personagens, que tudo acontece por uma razão, seja personificado.  As coisas que não fazemos por amor, mas por um bom enredo.

Essas cenas vão acontecendo com um ritmo interessante, pulando de núcleo para núcleo com certa organicidade, enquanto mantém, como unidade, discussões interessantíssimas e que partem de um mesmo cerne. O que mantinha um potencial enorme para trajar uma cara de versão criada por fãs termina consolidando-se por conta de nuances que fomentam uma coesão poderosa e com toques emocionais muito particulares. Arya transando com Gendry, em uma cena específica, é nada mais nada menos que uma jovem querendo viver algo novo, enquanto a morte a espreita: simples e relevante assim. O episódio, em consequência, é transformado em um dos mais singelos que Game of Thrones já nos trouxe. Eis, possivelmente, o auge desse senso reconfortante, porém ansioso e imensamente amedrontador, tão particular às Crônicas de Gelo e Fogo, e tão particular à espera, em seus lares, juntamente a pessoas amadas, bastante vinho e boas memórias, da morte.

Já o segmento mais importante e marcante do capítulo possui alguns destes personagens, como Brienne de Tarth (Gwendoline Christie), sentando-se em frente a uma lareira, contando histórias curiosíssimas e até mesmo ouvindo Podrick (Daniel Portman) cantar uma canção: “Jenny of Oldstones”. Pois poucas coisas capturam melhor o semblante ambíguo dos preparativos para uma guerra do que guerreiros enchendo suas taças, acolhendo-se no conforto das chamas e trocando confissões. Essa é uma cena que nos remete também ao teor prévio à Batalha da Água Negra, que aconteceu na segunda temporada. Pois a noite chegou e não poderia estar acompanhada de um semblante mais entristecido, embora reconfortante por ainda estar, que seja a segundos de distância, no futuro. Com isso, o humor torna-se uma presença agradável para margear o fim. Notam-se certas passagens: entre Tyrion e Jaime, Brienne e Jaime, assim como Tormund e todos.

A condução em termos técnicos, montando planos e contra-planos, é competente como sempre, porém, certas atuações merecem nota, como Maisie incorporando um envolvente atrevimento a sua personagem, também despontando em sua conversa com o Cão (Rory McCann). Kristofer Hivju é outro destaque, agora no quesito cômico. Tormund nunca esteve tão engraçado quanto ao narrar a vez que mamou nas tetas de uma gigante por meses. O único momento que não funciona é aquele entre Missandei (Nathalie Emmanuel) e Verme Cinzento (Jacob Anderson). Demais cenas compensam. Sansa (Sophie Turner) recebendo Theon (Alfie Allen) – outro que possui sua narrativa chegando a esse prenúncio mortal, mas convidativo – emociona. É a sua conversa com Daenerys (Emilia Clarke), contudo, que marca: sugere-se um pós-guerra, caso exista, pouco sereno – os ancestrais ainda pesam.  Mas o destaque mesmo do episódio é Jaime tornando Brienne cavaleira.

Já a esperada revelação de Jon a Daenerys de que ele é um Targaryen, que só acontece nos últimos instantes do episódio, acaba soando apressada. Uma pena, porque residem muitas qualidades na maneira como o momento é traçado, a começar pelo pretexto que, novamente, a memória do passado tem para conduzir-nos ao futuro. No caso, o texto promove isso em termos literais, com a cena acontecendo na cripta e a revelação surgindo espontaneamente ao passo que Jon reconta o amor entre Lyanna e Rhaegar. O que acontece, em seguida, é a pavimentação para uma rixa interna, pois David Nutter, responsável pela direção, não para de observar as reações de Daenerys ao que seu amado expurga. Ora, cadê o “arrebatador” amor entre eles, por que não é questionado igualmente? O caso, porém, termina sendo abruptamente interrompido, em um anti-clímax decepcionante, que impede possíveis consequências de serem absorvidas por mais tempo.

A passos da guerra, Game of Thrones para o tempo para dedicar-se a refletir a vida, a morte, a jornada e a existência dos seus personagens. Eis uma mistura perfeita entre o gelo e o fogo que movem esse ar de crônica à série, por ser apenas um pedaço da História sendo contado, enquanto o gélido ar das ameaças externas incomoda, mas o fogo, o aconchegamento, da proximidade a pessoas queridas conforta. É a máxima de Game of Thrones sobre o que move a série: o caos eminente. E nada provoca mais calafrios, já vistos tantas vezes em várias oportunidades pelas temporadas, que uma guerra prestes a acontecer. O que é mais justo às Crônicas de Gelo e Fogo do que cantar e contar histórias passadas e que reverberarão além? Que morram os guerreiros que nos dedicamos anos a torcer e nos importar, mas que sucessores cantarolem suas sagas. Há de a coragem de Sor Brienne de Tarth, Cavaleira dos Sete Rainos, ser narrada entre tais melodias.
  • Por razões de força maior, Ritter Fan não pôde comparecer para criticar esse episódio.

Game of Thrones – 8X02: A Knight of the Seven Kingdoms  (Idem, EUA – 21 de abril de 2019)
Showrunners: David Benioff, D.B. Weiss
Direção: David Nutter
Roteiro: Bryan Cogman
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Sophie Turner, Maisie Williams, Liam Cunningham, Alfie Allen, Nathalie Emmanuel, Gwendoline Christie, John Bradley, Isaac Hempstead, Rory McCann, Conleth Hill, Carice van Houten, Kristofer Hivju, Hannah Murray, Jerome Flynn, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Ben Crompton, Hafþór Júlíus Björnsson, Jacob Anderson, Daniel Portman, Anton Lesser, Tobias Menzies, Bella Ramsey, Staz Nair, Lino Facioli, Rupert Vansittart, Gemma Whelan, Vladimir Furdik, Marc Rissmann
Duração: 58 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.