Crítica | Game of Thrones – 8X03: The Long Night

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A presença de Miguel Sapochnik na direção de Game of Thrones é garantia de momentos épicos. Afinal, são dele Hardhome e Battle of the Bastards, este último ainda contendo a melhor batalha da série até agora. The Long Night, que, depois de ganhar uma extensão pela HBO, tornou-se o mais longo episódio de GoT, era aguardado com muita expectativa não só por marcar a metade da última temporada, como também por lidar com a prometida Batalha de Winterfell, colocando nossos heróis na mira do Rei da Noite e de sua gigantesca horda de mortos-vivos.

Winterfell rearrumou e reapresentou o tabuleiro para que A Knight of the Seven Kingdoms fosse a necessária calmaria antes da tempestade, com o mote na linha de que ninguém sobreviveria por mais um dia que fosse, trazendo peso, solenidade e emocionantes momentos para a temporada. Com 82 minutos de pancadaria, The Long Night até nos apresenta a sacrifícios, mas eles são em bem menor quantidade e relevância do que o episódio anterior talvez tivesse prometido, com Jorah Mormont e Theon Greyjoy morrendo em defesa de seus respectivos protegidos bem no finalzinho da guerra. Claro, houve outras mortes, mas basicamente de coadjuvantes de menor importância narrativa, com o peso mesmo ficando nos dois nomes citados.

Esse, porém, não é o problema do episódio. Afinal, tenho para mim que será muito mais interessante ver a luta de humanos contra a humanos mesmo, ou norte contra sul, e mais mortes relevantes são esperadas no processo, já que todo o lado místico e fantástico de GoT, com a ameça genérica dos zumbis, nunca foi o ponto forte da série. Mas Jorah e Theon, especialmente o segundo, tiveram seus bons momentos e encontraram seu fim de maneira digna.

O que não funcionou muito bem foi a escolha da fotografia noturna de Fabian Wagner para The Long Night, assim como a montagem frenética e por vezes confusa orquestrada por Sapochnik. A reunião desses dois fatores retirou muito do impacto e da grandiosidade que a Batalha de Winterfell poderia ter tido, reduzindo-a a alguns poucos bons momentos individuais como a morte da valorosa Lyanna Mormont (aliás, com isso, foi-se a Casa Mormont, não?) e a sequência de puro terror com Arya e os desmortos na biblioteca. O restante é uma sucessão de caros borrões sanguinolentos de CGI e efeitos práticos que se confundem e se misturam, em um exemplo frustrante de fungibilidade audiovisual (mude mentalmente a ordem dos acontecimentos no calor da batalha e perceba que nada realmente é afetado), com personagens-chave só reconhecíveis por serem os queridos dos espectadores, mas não muito mais do que isso. Toda aquela individualização, todo aquele perigo da calma da noite anterior desaparece aqui e a loucura da pancadaria sem fim toma conta.

E sim, sei que, em uma batalha da proporção mostrada aqui, o desnorteamento é a regra, mas existe um limite para a bagunça visual e para o quão genérica as lutas podem ser. Diferente de outras clássicas batalhas na série, inclusive e especialmente a dos Bastardos, não houve bolsões individualizados o suficiente para que temêssemos por quem quer que fosse e sim a arregimentação do elenco principal em uma sucessão de sequências repetitivas e cansativas que indicam que a duração original do episódio talvez fosse melhor no final das contas.

Essa confusão repetiu-se nas sequências aéreas que, se não sofreram exatamente da escuridão total, tiveram que lutar para fazer algum sentido em meio a ventania e neblina que tornavam a identificação dos dragões e de seus “pilotos” bastante complicada. E isso sem contar com um CGI de qualidade duvidosa nesse ponto e, também, a demora em colocar os bicharocos a serviço da guerra, em uma estranha demonstração de falta de estratégia ou de estratégia equivocada.

Aliás, falando em estratégia, considerando que o combate corpo-a-corpo deveria ter sido evitado ao máximo para não acrescentar contingente ao já avantajado exército do Rei da Noite, não me pareceu razoável a cavalgada dos Dothraki de espadas acesas – já falo sobre Melisandre! – como primeira linha de defesa sem que eles sequer tivessem a confirmação visual da chegada dos monstros. Ainda que visualmente tenha sido um momento inspirado, com as flamas das espadas sendo gradativamente apagadas, não há como deixar de se questionar essa escolha narrativa para além da estética. E o mesmo vale para a cerca de fogo ao redor do castelo. Quem é que pensou por algum segundo que aquilo seria uma boa ideia em termos estratégicos? Novamente, tudo pelo valor estético da coisa, sem que os aspectos práticos tenham sido levados em consideração no que poderia ter sido uma batalha repleta de belas sequências estratégicas e o uso de material bélico de longa distância que não fosse as duas ou três catapultas que aparecem debilmente por alguns segundos.

E, com isso, chegamos a Melisandre, a bruxa vermelha que é a encarnação do Deus Ex Machina aqui ou, talvez, de um isqueiro Zippo. Ela acende fogo aqui e ali, solta um Valar Morghulis, fala de forma críptica (mas não tanto) para Arya e pronto, vai embora como chegou (ok, um pouquinho mais velha na aparência e bem mais morta…). Claro que o resultado é um belo momento em que Arya se materializa (sim, se materializa, não tem outra explicação) e acaba com o Rei da Noite que está a segundos da vitória, liquidando, ato contínuo e sem cerimônia, com uma ameaça misteriosa e impossível de ser parada que vinha sendo construída há anos. Pronto, do tão festejado lado sobrenatural da série só sobrou um dragão agora, eu acho… Cersei deve estar feliz lá em seu castelo de Porto Real, já que a escolha dela de não ir à guerra foi claramente a melhor estratégia…

Mas, por incrível que pareça, apesar de todos os meus comentários negativos, The Long Night teve seu valor. Primeiro, ele marca o fim dessa subtrama do Rei da Noite que, sinceramente, já tinha passado do prazo de validade. Depois, ele reposiciona Arya como o verdadeiro grande destaque entre os Stark, já que Jon continua não sabendo de absolutamente nada mesmo. Além disso, lá na cripta (preciso falar como foi imbecil a ideia de esconder homens inúteis, mulheres e crianças entre mortos em uma guerra contra um ser que os revive?), a conexão entre Sansa e Tyrion foi bem trabalhada com poucas palavras, mas gestos e olhares profundos, trazendo uma camada de respeito e, arriscaria dizer, amor entre esses personagens que poderá ser mais bem explorado nos próximos episódios já que afeta diretamente a frágil aliança dos nortenhos com a Mãe dos Dragões.

Mesmo com Sapochnik no leme, The Long Night deixou a desejar naquilo que se tornou sua especialidade, mas quase conseguiu compensar em pequenos detalhes, em construções e desenvolvimentos inesperadamente interessantes para alguns personagens e algumas sequências individuais inspiradas. Seja como for, com o problema dos zumbis agora no passado, talvez a série possa voltar de vez ao jogo de tronos que é realmente seu forte.

Game of Thrones – 8X03: The Long Night (Idem, EUA – 28 de abril de 2019)
Showrunners: David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Miguel Sapochnik
Roteiro: David Benioff, D. B. Weiss
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Sophie Turner, Maisie Williams, Liam Cunningham, Alfie Allen, Nathalie Emmanuel, Gwendoline Christie, John Bradley, Isaac Hempstead, Rory McCann, Conleth Hill, Carice van Houten, Kristofer Hivju, Hannah Murray, Jerome Flynn, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Ben Crompton, Hafþór Júlíus Björnsson, Jacob Anderson, Daniel Portman, Anton Lesser, Tobias Menzies, Bella Ramsey, Staz Nair, Lino Facioli, Rupert Vansittart, Gemma Whelan, Vladimir Furdik, Marc Rissmann
Duração: 82 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.