Crítica | Game of Thrones – 8X05: The Bells

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Não existia nenhum cenário em Game of Thrones que encerrasse a série com Porto Real de pé, assim como não existia nenhuma possibilidade de Daenerys não cumprir o destino regiamente assinalado para ela basicamente desde o começo de tudo. Mesmo quebrando algumas expectativas aqui e ali, David Benioff e D. B. Weiss entregaram o quase-fim de série que era perfeitamente esperado em The Bells, penúltimo episódio da saga de Gelo e Fogo. Resta saber quem sentará no trono, que nem mais deve existir fisicamente, mas essa batalha – ou massacre, melhor dizendo – vai certamente dar o que falar.

Com a subtrama dos zumbis já devidamente esquecida, todas as peças estavam alinhadas para o que Miguel Sapochnik trouxe para as telinhas, dessa vez acertando na maneira de desnortear os espectadores e não escondendo tudo debaixo da fotografia escura mal feita de The Long Night. Começando com o dénouement dos eventos de The Last of the Starks, o episódio gota d’água para a explosão de raiva de Daenerys, o roteiro trabalha uma antecipação interessante, que aguça a curiosidade do espectador e que, apesar de importante e mortal para Varys, gera aquele desespero para clicar no fast foward e pularmos logo para a pancadaria. O mais interessante, porém, é que, quando a guerra finalmente vem, ela acaba literalmente em um piscar de olhos.

Afinal, não havia chance para o reino de Cersei. Tyrion já havia dito isso e o ataque de Daenerys pilotando seu dragão é como todos os ataques envolvendo dragões na série deveriam ser: avassaladores, sem defesa. Chega a ser anticlimática a velocidade com que tudo acontece até o momento em que os sinos, trazendo a rendição, finalmente tocam. É, basicamente, uma batalha que prescinde de infantaria e cavalaria, já que o estrago que o dragão causa nas defesas da cidade são incontornáveis. Logicamente, porém, os sinos jamais – em circunstância alguma – marcariam o final dos eventos bélicos do episódio. Ao contrário, eles marcam mesmo é o começo efetivo da violência destruidora e insana de Daenerys. Como disse, a morte de Missandei foi a gota d’água que faz o copo da sanidade de Daenerys derramar como esperado.

Quando a purificação pelo fogo começa, o fim é estabelecido. Verme Cinzento também deixa explodir sua raiva, quase insanidade, e recomeça a luta contra um exército que acabara de se render para desespero completo de Jon Snow que não tem como parar o que está acontecendo ao seu redor. O silêncio nesses momentos-chave são muito bem inseridos e usados por Sapochnik, que consegue criar tensão mesmo quando não há dúvidas do que está para acontecer.

Mas o roteiro traz surpresas que podem deixar muita gente inconformada, mas que estabelecem de maneira exata o que é uma guerra sem dó nem piedade como essa. O contraste com a Batalha de Winterfell é evidente. Lá, tivemos Arya alçada como a grande heroína que salva todo mundo no último segundo esfaqueando o Rei da Noite, um evento que fazia sentido, mas que foi muito mal construído e desenvolvido e que só tinha lugar em uma sériezinha qualquer e não Game of Thrones (mesmo com seus vários problemas ao longo dos anos). Aqui, quando vemos Arya com o Cão antes da batalha, a mensagem que o roteiro quer passar é a repetição do que vimos antes, somente para que, depois do início do massacre, o relacionamento de amizade e respeito entre os dois faça com que o deformado e sofrido Sandor (chamado pelo primeiro nome) convença a jovem Stark a retirar-se, a desistir de seu intento. Ele a acorda para a realidade do que está acontecendo ao seu redor e o que segue daí são excelentes sequências em que Sapochnik usa a personagem para nos colocar muito perto dos horrores ao seu redor e do quanto ela, assim como seu irmão, é impotente para mudar o destino de quem quer que seja. A Arya super-humana teletransportadora dá espaço para a Arya humana, desesperada, mas ainda claramente uma heroína (dentro do humanamente possível) que provavelmente terá algum papel importante no desfecho da série.

Sandor Clegane e o esperado Cleganebowl (um leitor é que me alertou para essa ótima expressão, e eu a adotei) com seu irmão semi-zumbi Montanha também foi outra quebra de expectativa. Sim, o combate aconteceu, mas ele, diria, também foi anticlimático, com uma diferença muito gritante entre os dois lados que reflete, só que às avessas, a vantagem bélica de Daenerys sobre Porto Real. Não havia nenhuma chance do Cão sair vivo de sua vingança e a pancadaria é gutural e sanguinolenta, mas com o único final verdadeiramente possível: o mesmo da cidade ao redor.

E Jaime Lannister? Sua prisão pelos Imaculados, sua libertação por Tyrion e o contrabando dele para dentro da cidade como parte do plano do irmão para salvar Cersei e impedir a destruição da cidade é parte de um roteiro que tenta a todo custo passar ao espectador uma ponta de esperança de que tudo acabará bem. Até aí, tudo ótimo. No entanto, Benioff e Weiss derraparam na execução dos eventos seguintes, colocando-o em uma luta contra Euron que convenientemente surge do nada. Que ele era também insano já havia ficado claro, pelo que sua vontade de matar Jaime faz sentido mesmo diante da destruição ao redor. O problema é como acontece e a completa ausência de uma razão narrativa para isso. Afinal de contas, os ferimentos em Jaime não influenciam em nada o que vem em seguida, não altera o que já estava sendo contado. Foi um momento gratuito do episódio que nada acrescentou a ele.

Mas a fuga de Cersei e seu encontro com seu irmão sim, foi algo interessante de se ver. Achava que Jaime queria lá no fundo matá-la, mas sua conversa com Tyrion no começo do episódio já havia dissipado essa ideia em minha cabeça. O reencontro final dos dois, a fuga pela masmorra do castelo até que eles não vêem mais saída é outra leve rasteira que o roteiro nos dá. No lugar de algum encontro heroico, de uma morte mais, digamos, pessoal, os irmãos incestuosos se vão como parte da destruição generalizada da Fortaleza Vermelha por Daenerys. E, assim como a retirada de Arya, essa escolha fez perfeito sentido e obedeceu a lógica da fúria incontida sendo derramada na forma de fogo pelo reino, em uma guerra que deixa de ser guerra logo em seus primeiros minutos e se torna um massacre completo. Claro que, como membro emérito do Team Cersei, não queria ver a completamente maluca rainha morrer, mas seu final era inevitável, lógico, e com a execução perfeita justamente por não ser aquela coisa óbvia e padrão (vide o Rei da Noite) sempre que se chega ao vilão final em alguma obra audiovisual.

The Bells redime Miguel Sapochnik na temporada e entrega o final da linha narrativa de Cersei da maneira que  tinha que ser: com muito fogo, crueldade, mortes, sangue e dor. O jogo de tronos está chegando ao fim, mas o trono em si já perdeu seu significado diante do preço cobrado. Não há guerras bonitas e os showrunners sabem disso.

Game of Thrones – 8X05: The Bells (Idem, EUA – 12 de maio de 2019)
Showrunners: David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Miguel Sapochnik
Roteiro: David Benioff, D. B. Weiss
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Sophie Turner, Maisie Williams, Liam Cunningham, Alfie Allen, Nathalie Emmanuel, Gwendoline Christie, John Bradley, Isaac Hempstead, Rory McCann, Conleth Hill, Carice van Houten, Kristofer Hivju, Hannah Murray, Jerome Flynn, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Ben Crompton, Hafþór Júlíus Björnsson, Jacob Anderson, Daniel Portman, Anton Lesser, Tobias Menzies, Bella Ramsey, Staz Nair, Lino Facioli, Rupert Vansittart, Gemma Whelan, Vladimir Furdik, Marc Rissmann
Duração: 79 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.