Crítica | Game of Thrones (Trilha Sonora Original)

Um dos pontos mais altos das emoções em Game of Thrones é a trilha, em especial, o tema principal, composto pelo alemão Ramin Djawadi. Para David Benioff e D.B Weiss, criadores da série, a solicitação foi bem clara: ausência de flautas e violinos, tendo em vista não suavizar o clima da série. Diante do exposto, Djawadi investiu em violocenlo acompanhado de notas altas. Em sua missão desafiadora, isto é, compor para o segmento série de TV, em especial, Game of Thrones, programa repleto de reviravoltas brutais e amplos núcleos de personagens e narrativas.

Diferente do processo computadorizado da maioria dos materiais produzidos na contemporaneidade, Djawadi compôs a sua trilha, envia para a República Tcheca, tendo em vista ser executada por uma orquestra. Os primeiros oito minutos investe num ostinatos que se repetirá continuamente com variações. O uso de uma corda grave como protagonista permite nos congelar de emoção, passeando por cada casa de Westeros e sintetizando musicalmente a situação por meio de mudanças de tom.

Desde as primeiras temporadas, Winterfell desponta como o trecho que representa uma musicalidade mais otimista, quando comparado aos demais reinos em conflito. Com alguma expressividade musical romântica, a percussão tonaliza e permite que a música tema cresça de maneira contagiante e sofisticada. Tendo Mozart como um de seus grandes representantes, o romantismo trouxe tonalidades barrocas e classicistas para compor as suas tonalidades, repletas de contrastes e dissonâncias.

Não consigo rememorar, na história das músicas temáticas de séries, uma composição que seja mais emocionante. Não é a toa que a tradução intersemiótica de Westeros é largamente premiada e respeitada por diversos setores do conjunto de espectadores, isto é, dos leigos aos especialistas em música. Em suma, um fenômeno.

Tão impactante quanto os inesquecíveis temas de Tubarão e Parque dos Dinossauros (John Williams); O Exorcista (Mike Oldfield); Psicose (Bernard Hermann); Alien – O 8º Passageiro e Instinto Selvagem (Jerry Goldsmith), dentre outros renomados no campo da composição para audiovisual, o responsável pela “musicalidade” de Westeros demarcou seu espaço para sempre na memória cultural, sendo tema de releituras da série, games, toques de celular, etc.

Antes de adentrar no universo de Game of Thrones, Ramin Djawadi colaborou com diversas produções, dentre elas, Piratas do Caribe e a Maldição da Pérola Negra, Instinto, A Máquina do Tempo, participou da equipe de músicos de Hans Zimmer em Batman Begins e Alguém Tem Que Ceder, além das séries FlashForward, Westworld e Prison Break. Admirador de Eddie Van Halen e Ludwig van Beethoven, é formado pela Berklee College of Music, de Boston, sendo Mozart uma de suas trilhas sonoras para acompanhar o cotidiano.

Ganhador de prêmios renomados da indústria, Djawadi é considerado um “astro” da música instrumental para séries, pois em toda história da ficção televisiva, não encontramos fenômenos semelhante. A pompa de astro veio com o sucesso no spotify, haja vista a posição topo no aplicativo durante algum tempo, bem como o destaque dado pela crítica especializada para a sua composição musical para o último episódio da sexta temporada da série, desfecho que teve como um dos acontecimentos, a explosão do Septo por Cersei Lannister.

Bem alinhada aos princípios da organologia, componente do campo da música que busca a classificação dos instrumentos de acordo com suas semelhanças na estrutura física, articulação do som e timbre em concatenados com as suas “famílias” instrumentais, a trilha sonora de Game of Thrones, em especial, o seu tema de abertura, é uma viagem sonora por diversos períodos musicais distintos, mas mixados de maneira orgânica, sem a desagradável sensação de mistura auditiva repleta de ruídos desconcertantes.

Game of Thrones – Trilha Sonora
Artista: Ramin Djawadi
País: Alemanha, Estados Unidos
Gravadora: Varése Saraband
Estilo: Barroco, Classicismo, Romantismo

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.